Com negociações sobre acordo nuclear travadas, Irã desliga 27 câmeras de monitoramento

O Irã desligou 27 câmeras de monitoramento em instalações nucleares do país como resposta a uma resolução aprovada pela agência atômica da ONU com críticas à “falta de cooperação” de Teerã com a instituição. A decisão, que provocou críticas e declarações de preocupação, ocorre no momento em que as negociações sobre a retomada do acordo sobre o programa nuclear do Irã estão congeladas e correm o sério risco de fracassar.

— O que nos informaram é que 27 câmeras (...) estão sendo removidas no Irã. Então, é claro, isso representa um sério desafio à nossa capacidade de continuar trabalhando lá — afirmou, nesta quinta-feira, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi.

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No final de 2020, após o assassinato do principal cientista nuclear iraniano, Mohsen Fakhrizadeh, em um atentado atribuído a Israel, o Parlamento iraniano passou uma lei que obrigava o governo a incrementar o enriquecimento de urânio e a desligar as câmeras de monitoramento da AIEA. Pouco depois, os dois lados chegaram a um acordo para ligar novamente os equipamentos, mas as gravações só seriam entregues após a retomada do acordo nuclear de 2015 e a retirada das sanções.

E aí está o ponto central do problema.

Firmado por EUA, Irã, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha, com o apoio da ONU e da União Europeia, o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, em inglês), condicionava a retirada das sanções impostas a Teerã e ligadas a atividades nucleares ao estabelecimento de limites ao setor, com o objetivo de evitar sua militarização.

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O plano funcionou sem sobressaltos até a chegada de Donald Trump à Casa Branca: ele considerava o texto “o pior acordo da História” e retirou o país do texto em 2018, adotando uma política de duras sanções, conhecida como “pressão máxima”. Em resposta, Teerã aumentou suas atividades nucleares, deixando de observar algumas de suas obrigações, incluindo sobre o nível de enriquecimento, hoje em torno de 60%, bem mais do que os 3,67% permitidos pelo JCPOA. Para que seja usado em bombas, o urânio precisa ser enriquecido a, pelo menos, 90%.

A chegada de Joe Biden à Casa Branca trouxe alguma esperança sobre o retorno dos EUA ao acordo: o democrata, após um breve hiato, concordou com negociações indiretas com o Irã, com a participação dos demais signatários, mas se recusou a abandonar a política de pressão máxima.

Desde então, as conversas, realizadas em Viena, estiveram várias vezes perto de um desfecho positivo, mas acabaram travadas por exigências do lado americano e do iraniano. O retorno dos conservadores ao poder em Teerã e a proximidade das eleições legislativas de novembro nos EUA dificultam ações mais ousadas. A guerra na Ucrânia, que vem concentrando as atenções de diplomatas de todo o mundo, acabaram deixando as negociações em segundo plano.

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Na quarta-feira, o Conselho de Governadores da AIEA aprovou uma dura resolução acusando os iranianos de não colaborarem na prestação de informações sobre a presença de traços de urânio em locais não declarados anteriormente. O texto recebeu 30 votos a favor, dois contra (Rússia e China) e teve três abstenções, e diz “expressar profunda preocupação” com as amostras ainda não explicadas, e exige que o Irã colabore com a agência “sem atraso”.

A resposta veio horas depois, com o anúncio do desligamento das 27 câmeras.

“Infelizmente, sem considerar que a cooperação da República Islâmica do Irã ocorreu de boa vontade, a agência não apenas não foi grata a isso, mas também, de certa forma, considerou que isso era um dever do Irã”, disse, em comunicado, a Organização de Energia Atômica do Irã (OEAI), em comunicado.

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No texto, a agência declara que as câmeras desligadas se referem apenas às acertadas de forma pontual com a AIEA, e que 80% dos equipamentos de monitoramento instalados como parte do compromisso nuclear de 2015 seguem operacionais.

— Esperamos que, com essas medidas, eles [AIEA] caiam em si e mudem seus métodos e caráter. Com essa abordagem, não podem esperar que a República Islâmica do Irã coopere de forma ampla, diante de sua [própria] falta de cooperação — disse um porta-voz da OEAI, citado pela agência Isna.

Durante a entrevista coletiva, Grossi afirmou que, embora a agência ainda tenha meios de verificar as atividades nucleares iranianas, quando câmeras são retiradas, há “menos transparência” e “mais dúvidas”.

— Isso significa que estamos chegando ao fim da corrida? Espero que não seja o caso — afirmou, aparentemente se referindo aos impactos da decisão nas negociações de Viena. — Espero que as emoções se acalmem um pouco e que possamos voltar a nos concentrar nos problemas que precisam ser resolvidos.

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Contudo, ele disse que, caso o bloqueio das câmeras persista, em “três ou quatro semanas” a AIEA não teria mais condições de fornecer as informações necessárias para monitorar o programa nuclear do Irã, sinalizando que isso poderia ser um “golpe mortal” a qualquer tentativa de retomar o acordo de 2015.

— Estamos em uma situação muito tensa, com as negociações para retomar o JCPOA em uma fase de espera, além de nossos processos bilaterais — afirmou Grossi. — Agora temos mais isso no cenário, e vocês podem ver que ele não parece muito bom.

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