Com o soul ‘Calma’, Marisa Monte faz a sua volta às inéditas depois de quase 10 anos

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RIO - Com o lançamento nas plataformas de streaming de “Calma” (o que tem lá a sua ironia), a cantora Marisa Monte encerrou na noite desta quinta-feira uma espera de quase 10 anos de seus fãs: essa é a primeira faixa de “Portas”, álbum de inéditas que sai no dia 1º de julho, seu aniversário, sucedendo “O que você quer saber de verdade”, CD que chegou às lojas de discos (sim, ainda havia algumas) em outubro de 2011.

Soul leve, mas tenso e um tanto melancólico, com pouco mais de três minutos de duração (e que cairia bem no repertório de um LP de Roberto Carlos nos anos 1970), “Calma” é uma canção cravada de ambiguidades. Por um lado, ela exala otimismo, com um alegre naipe de sopros, algum tchu-tchu-tchu nos vocais e versos como “não é tudo isso, é quase nada/ tempestade em copo d’água” e “eu não tenho medo do escuro/ sei que logo vem a alvorada”.

Por outro lado, ela indica exasperação (“não quero ver você se perder/ não diga que não vai me mudar/ não diga que é difícil demais”). No próprio “calma” cantado no refrão, Marisa alterna entonações reconfortantes e desesperadas.

Uma música romântica? Uma crônica do Brasil em 2021? Dentre as poucas pistas que Marisa deixou, aplicáveis a essa composição feita com Chico Brown (filho do parceiro Carlinhos Brown e neto de Chico Buarque), está uma frase divulgada há alguns dias, quando ela anunciou o lançamento do álbum: “De uma hora pra outra, a gente não podia mais sair e o mundo ficou perigoso. O primeiro momento foi de paralisia total. Todo mundo em casa, isolado, triste e com muito medo. Música é uma forma de arte coletiva feita de encontros e fomos atingidos em cheio.”

Em “Calma”, Marisa Monte retoma a parceria de produção com o americano (que passou a juventude no Brasil) Arto Lindsay, com a qual ela fez discos decisivos como “Mais” (1991), o recentemente relançado em LP “Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão” (1994) e “Memórias, crônicas e declarações de amor” (2000).

Gravada entre outubro de 2020 e abril de 2021 no Rio e em Nova York, a canção conta com um mix de músicos americanos (como o baterista e expoente do novo jazz Kassa Overall e o baixista Melvin Gibbs, velho colaborador de Arto) e brasileiros, como o companheiro tribalista e novo baiano Dadi (no violão de cordas de aço).

“Passaram-se vários meses até que a gente conseguisse entender melhor a nova realidade, cheia de protocolos, cuidados, testes e máscaras. Durante todo esse tempo, todo mundo continuava em casa abatido e cansado”, contou Marisa, no comunicado sobre o disco. “Foi quando um amigo me disse: ‘se organiza com toda a segurança possível com uma equipe enxuta e comprometida, entra no estúdio e grava. Eu tenho certeza que vai ser bom pra vocês e vai fazer bem pra todos nós.’”

Como tudo que envolve Marisa Monte, poucos foram os detalhes vazados acerca do novo álbum, o primeiro da parceria do Phonomotor Records, selo da cantora, com a gravadora multinacional Sony Music, anunciada no ano passado (ela passou o resto da carreira na EMI, gravadora que foi comprada pela Universal Music em 2011).

Carlinhos Brown (com quem a cantora lançou, em 2017, um álbum dos Tribalistas, divulgado com uma série de shows), Pretinho da Serrinha e os guitarristas Davi Moraes e Pedro Baby e o cantor e tecladista Silva (que em 2016 gravou o álbum “Silva canta Marisa”) são alguns dos músicos brasileiros que, sabe-se, trabalharam com ela em “Portas”.

Depois do aperitivo de “Calma”, o que resta é esperar que as “Portas” se abram para os segredos de Marisa.

Cotação: Bom

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