Com a paixão pelo balé em comum, Leo Jaime e Cadu Libonati se encontram em aula da dança e falam da vida sem preconceitos

Naiara Andrade
·9 minuto de leitura

Em “Malhação sonhos”, obra originalmente exibida entre 2014 e 2015 e agora de volta ao ar na Globo, Leo Jaime é Nando Rocha. Ex-vocalista de uma banda de rock, o personagem herda uma escola de artes e se torna um grande incentivador de jovens a não desistirem de seus sonhos. É nesse espaço que Jefferson, interpretado por Cadu Libonati, se realiza como bailarino, mesmo a contragosto do pai, que diz: “Homem que é homem só dança forró, e agarradinho”.

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Dedicados profissionalmente à atuação e à música, Leo e Cadu também têm no balé uma paixão. A intimidade com a dança, aliás, ajudou o intérprete de Jeff a conquistar o papel na época.

— Quando eu estudava teatro, em 2012, fui criticado por ser muito duro. E me indicaram fazer balé para me soltar. Ingressei nas aulas de dança e percebi que levava jeito para a coisa. Do clássico, fui para o contemporâneo. Descobri que essa movimentação do corpo me deixava mais versátil, mais disponível. Foi essencial também para quebrar tabus que eu tinha. Sim, eu já achei que só mulher dançava. E não, isso não tem nada a ver! — sublinha o carioca, que completa 27 anos em abril.

Já o veterano Leo Jaime, que caminha para os 61 no mesmo mês, conta que sua primeira carteirinha do Sindicato dos Artistas foi a de bailarino.

— Comecei no grupo Pitú, em Brasília, com Hugo Rodas. Depois, no Rio, fiz parte da Cia. Teatro do Movimento, de Klaus e Angel Vianna. Fazia dança contemporânea, jazz e balé. Parei de dançar aos 22, quando já estava com música tocando em rádio e convite para gravar disco. Mas nunca deixei de gostar da coisa — relembra o goiano, detalhando: — Uma bailarina com quem fiz um “pas de deux” (passo em dupla) numa apresentação de fim de ano, em 1982, no Teatro Tereza Rachel, se profissionalizou. Hoje, ela faz aula de dança contemporânea onde estudo.

O lugar é o Centro de Movimento Deborah Colker, na Gávea, em que o ator, cantor e jornalista se reencontrou com o balé clássico, há dois anos, impulsionado pela vitória no quadro “Dança dos famosos”, do “Domingão do Faustão”, em 2018. Atualmente, três vezes por semana, uma hora e meia por dia, ele calça as sapatilhas e encharca a camisa e a lycra de suor com movimentos delicados e, ao mesmo tempo, vigorosos, bonitos de se ver. A Canal Extra convidou Cadu para um encontro com o amigo e com o balé, em aula realizada na manhã de 29 de janeiro.

— Eu e Leo não nos víamos há bastante tempo... Na época das gravações da novela, eu pegava carona com ele até o Projac, éramos vizinhos no Jardim Botânico — comenta o rapaz, empolgado com a nova fase do colega de profissão: — Ele tomou gosto pelo balé, e eu achei maravilhoso! Ainda existe esse papo chato, que é debatido em “Malhação sonhos”, do preconceito com o homem na dança. Ainda mais com o homem gordo. (Na escola de dança) Leo fez vários passos que eu já tinha me esquecido como eram. Ele me deu um baile (risos)! Fiquei muito cansado, saí com as pernas tremendo da aula.

Cadu conta que, quando deu vida a Jeff, foi alvo de homofobia, mesmo com o personagem fazendo par romântico na trama com Mari (Maria Luiza):

— O mundo é careta. Muita gente achava que eu e o personagem éramos gays porque fazíamos balé. Dança não define orientação sexual. Não é assim que você vai se descobrir. Balé é arte.

De mente aberta, o rapaz costuma aparecer em postagens fora do comum no Instagram. Na companhia da namorada, a também atriz Fernanda Marques, já publicou fotos usando maquiagem. Com o ator e amigo Francisco Vitti, protagonizou um ensaio nu para as lentes de Lucas Nogueira.

— Gosto de tratar as coisas com naturalidade, porque assim elas são. A dança é natural. Um homem se maquiar é natural. Na semana passada, teve uma confusão no “Big Brother” por causa disso, inclusive. Eu já me maquiei diversas vezes, passei lápis de olho para sair porque quis. Mas também já estive nesse lugar tóxico de fazer piada, ridicularizar, colocar o collant de balé para zoar — assume ele, continuando: — Chico é um dos meus melhores amigos. Já fizemos espetáculos juntos, já viajamos a trabalho juntos, ele já dormiu aqui em casa, e eu na casa dele... As pessoas acham mesmo que eu nunca o vi trocar de roupa? Começam a imaginar coisas. Eu não bato de frente por meio de fotos. Quando quero, sou bem mais explícito. Sou um rapaz branco, hétero, cis(gênero). Tenho completa noção dos meus privilégios, sei que se eu apontar o dedo vão me ouvir. As imagens não são o problema, mas a reação das pessoas.

Já no perfil de Leo Jaime na rede social, fotos e vídeos seus nas aulas de dança viraram sensação. Único homem numa turma de balé com ao menos uma dezena de mulheres — entre elas, Emanuelle Araújo, também colega de elenco em “Malhação sonhos” —, ele tem provado que nem gênero, nem idade, nem formato de corpo importam se o amor pela arte fala mais alto.

— Se meus posts têm 1,5 milhão de visualizações e oito mil comentários, somente dez falam mal. Honestamente, eu não posso prestar atenção nesses poucos. Milhares se sentem motivados, pouquíssimos se opõem. A positividade é notável. Gordofobia e sexismo são tão irrelevantes! — analisa o artista, satisfeito em ser tomado como um bom exemplo: — Fico tão feliz vendo gente se permitindo, se libertando! Eu já estive nesse lugar da pessoa que tem medo de se expor, de achar ridículo. A mensagem que quero passar é: todo lugar é seu lugar, toda hora é o seu momento. As turmas de balé adulto no Brasil inteiro estão se enchendo, e isso é maravilhoso!

Há três décadas, Leo sofre as consequências do pan-hipopituitarismo, uma disfunção na hipófise, glândula localizada na parte inferior do cérebro que controla outras do corpo, produtoras de hormônios. O acúmulo de gordura intra-abdominal é um dos distúrbios com que tem que lidar.

— É uma doença rara, de certa forma, mas eu acho que, em maior ou menor intensidade, todo mundo vai ter problema hormonal em algum momento. Pouca gente pesquisa, de fato, para saber por que tem metabolismo acelerado ou lento — diz Leo, que nunca foi adepto do sedentarismo: — Antes dessa fase de dança, eu frequentava academia de ginástica. Na minha vida inteira, pratiquei esportes, fui fisicamente ativo. Isso realmente não interfere na minha forma física. Tenho uma massa muscular grande, e, quando ganhei peso, isso se sobressaiu. Mas não tenho problema de colesterol alto nem nada.

Para ele, a dança é mais que uma atividade física, e seu objetivo não é emagrecer:

— O balé me traz saúde, me dá flexibilidade e disposição. Também faço aula de hip hop, paralelamente, para aprender a gingar e a manter o rebolado. Dançar é deixar o corpo falar. Assim como quem joga bola só quer se divertir, e não virar atleta, eu não tenho uma meta a cumprir. Ninguém tem abdômen trincado, a não ser que faça algo sobre-humano para isso. As pessoas criam padrões impossíveis em suas cabeças e vivem no sofrimento de inaptidão e imperfeição. Estou aprendendo a me aceitar, com as minhas limitações e características. Aproveitar o corpo que tenho para curtir a vida, sem ficar encucado. Eu posso, você pode, nós podemos.

Nessa jornada, Leo conta com o apoio incondicional da mulher, a psicóloga Daniela Lux, de 41 anos, com quem é casado há 15, e do filho, David, de 13. Quanto aos amigos, ainda há aqueles que reproduzem o preconceito, mesmo sem querer. Em dezembro passado, por exemplo, um comentário de Silvio Luiz num vídeo em que Leo dançava balé o incomodou. “Parabéns, saiu do armário”, escreveu o narrador esportivo. O artista rebateu: “Eu sei que a gente tem que respeitar os mais velhos... Seria bom que eles nos respeitassem também. Mas temos que compreender: ele é de outra época, outros valores”. Silvio tentou se explicar, dizendo que era “apenas uma brincadeira”, no que Leo completou: “Amigo, brincadeira é quando os dois riem juntos”.

— Tem uma coisa horrorosa no mundo masculino que é: homem tem que aguentar brincadeira ofensiva, tapão nas costas. Essa demonstração torta de afeto eu não admito — diz Leo, que foi “confundido”, dia desses, com o General Eduardo Pazuello, numa outra postagem implicante, com a legenda “O Brasil esperando a vacina, e o ministro da Saúde no balé”: — Achei uma piada de muito mau gosto! Primeiro, porque não vejo semelhança alguma entre a gente. E não é nada bacana jogarem meu nome em meio à maior crise brasileira de todos os tempos. Só estou espalhando saúde e alegria!

A dança como libertação

Para Leo Jaime, participar do “Dança dos famosos” foi um passo importante para a sua libertação e a aceitação do próprio corpo.

— Teve uma época em que eu tive vergonha (do sobrepeso). Parei de tocar guitarra e me comportava no palco de forma mais comedida, por causa do julgamento alheio. Fui me intimidando, me recolhendo. Aí, resolvi me expor: dancei ao vivo na televisão para um Brasil de audiência. Era medo da estreia, de esquecer a coreografia... Os julgamentos vêm, mas também vem o reconhecimento pelo seu esforço. Passei a enfrentar os meus demônios — lembra.

Segundo Leo, a real competição foi consigo mesmo, e não com os demais concorrentes ao prêmio:

— Nossa convivência era ótima, não tinha ninguém que eu visse como rival. A disputa era com meus próprios medos, tive que enfrentá-los o tempo inteiro. Quando eu cheguei à final com Dani Calabresa e Érika Januza, as duas tinham milhões de seguidores a mais do que eu. Então, é claro que iam ficar chateados com o fato de eu ganhar. Para cada pessoa que torcia para mim, eram 20 contra. Mas a força dessas que vibravam a meu favor me fez tão bem... Passavam por mim na rua e diziam: “Você me representa!”.

Longe do estereótipo do “gordinho engraçado”, Leo Jaime marcou a história do quadro do “Domingão do Faustão” como alguém que viveu com paixão a experiência da dança:

— Os jurados me questionavam: “Como você pode ser tão leve?”. Eu não ia lá fazer graça de mim mesmo nem do meu corpo. Eu me apresentava como um homem que estava a fim de dar o melhor de si na dança. Não apelei para o lado cômico.

Sonhos realizados

Também no ar em “Haja coração”, como Murilo, o namorado de Carol (Bruna Griphão), Cadu Libonati guarda um carinho especial por Jefferson, seu primeiro trabalho na TV.

— Eu e Jeff temos em comum a vontade de não errar com os amigos. Escancaramos os sentimentos, não temos medo de demonstrar nossos medos — compara o ator, elogiando a temática dessa temporada de “Malhação”: — Como dizia Cazuza, meu grande ídolo, “quem tem um sonho não dança”.

De 2014 para cá, Cadu realizou alguns sonhos: contracenou com o padrinho Marco Nanini no clássico teatral “Ubu Rei” (2017) e com a avó Irene Ravache na novela “Espelho da vida” (2018).

— Recentemente, gravei a websérie “Casa da vó”, da Wolo TV. É uma sitcom escrita e feita só por negros. Sei que fiz parte de um projeto revolucionário: do elenco principal, eu era o único branco — celebra.

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