Com pandemia, contratações à distância saltam 87,9%

Suzana Correa*
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SÃO PAULO - A contratação de pessoas por meio de dispositivos digitais cresceu no Brasil ao longo do ano passado, impulsionada pelo distanciamento social provocado pela pandemia de Covid-19. Um levantamento mostra aumento de 87,9% nas contratações à distância em 2020, em relação ao ano anterior. Os dados são da Unico, empresa de identificação digital, que registrou 163 mil admissões do tipo durante o ano passado.

O levantamento mostra que o varejo respondeu por 43% dessas contratações em 2020, que atingiram pico de mais de 10 mil em outubro e novembro, período de aquecimento nas contratações temporárias graças a Black Friday e compras de Natal.

O impacto da pandemia também fica claro na análise de números mensais: foram 16.650 contratações em janeiro de 2021, 58% a mais do que o mesmo período de 2020, antes da disseminação do vírus pelo mundo.

Utilizadas a princípio por empresas que foram obrigadas a se adaptar ao “novo normal”, esse tipo de modalidade de contratação à distância pode ser adotada definitivamente pelo mercado.

Rodrigo Froes, gerente de RH da Ri Happy, maior varejista de brinquedos do país, diz que a digitalização forçada imposta pela pandemia reduziu o tempo do processo de contratação de temporários de sete para quatro dias. Assim, o esquema será mantido a longo prazo.

— Antes era preciso um esforço de guerra para receber, imprimir e gerenciar a documentação de todos os candidatos envolvidos em um processo de contratação — afirma.

As admissões 100% digitais são feitas por meio de plataforma disponível em smartphones e computadores, que coleta dados e assinatura eletrônica do futuro funcionário, valida a documentação trabalhista com o e-Social (sistema de informações do governo).

Para os profissionais, a possibilidade de participar de processos seletivos e assinar a carteira sem sair de casa, durante a pandemia, também significa economizar tempo e reduzir riscos para familiares. Foi o caso da analista de marketing paulistana Milena Hatada, 28 anos, que em janeiro foi contratada em empresa de tecnologia.

— Da seleção por videochamadas à assinatura do contrato no tablet, nada foi presencial. Foi ótimo, pois perderia 2 horas nos trajetos para fazer todas etapas da seleção e contratação em dias diferentes e também protegi minha mãe e irmã, com quem morava e que são do grupo de risco da Covid-19 — diz Milena que, depois de garantir a vaga, mudou-se para perto da empresa para atuar em regime presencial.

A solução é só uma parte de um processo maior de digitalização de práticas de RH que vem aquecendo o mercado de soluções tecnológicas para a área. Empresas como DocuSign, 99jobs, Luandre e Gupy adotaram novas ferramentas e projetos que buscam digitalizar totalmente processos de contratação e gestão de funcionários.

A rede de restaurantes Burger King conta com a tecnologia nesse processo desde 2019, quando implementou um robô de Whatsapp para recrutar profissionais. De lá para cá, a inteligência artificial recebeu mais de 150 mil currículos. Os selecionados são direcionados para oportunidades em suas regiões ou no escritório da rede.

Segundo Marcia Baena, VP de Gente e Gestão do Burger King, o tempo de admissão caiu pela metade nas localidades em que a admissão sem papel foi implementada, em comparação com o processo tradicional — uma agilidade que beneficia empregadores e empregados, especialmente em contextos de crise como o atual.

— O momento pelo qual estamos passando fez a empresa intensificar sua jornada de reinvenção digital não só para nossos consumidores, mas também colaboradores e candidatos em processos seletivos. Acreditamos que o processo é vantajoso e já se mostra como tendência na área— diz Baena.

Em diversas empresas, as seleções e contratações à distância também têm viabilizado a admissão de trabalhadores que atuarão 100% remotos. É o caso de processos seletivos abertos neste ano pela PagSeguro, OLX e Recarga Pay.

Outras têm apostado na contratação à distância para admitir profissionais que moram em qualquer lugar do mundo. Ana Gabriela Verotti, analista de marketing de conteúdo, antecipou o sonho de morar fora do Brasil para este ano devido ao cenário de pandemia no país. Vivendo desde janeiro em Rotterdam, na Holanda, foi contratada neste mês na Dock, startup brasileira de tecnologia para serviços financeiros.

A empresa adota o modelo de Anywhere Office (ou “escritório em qualquer lugar”, em português) e investe em benefícios e estrutura para que os funcionários trabalhem de onde estiverem. O processo seletivo, com cinco entrevistas e prova, também foi remoto:

— Acho que foi algo mais leve porque eu e os entrevistadores estávamos em casa, dentro da nossa zona de segurança e conforto, de certo modo. E não me preocupar com o deslocamento até a empresa me deixou bem tranquila para as entrevistas.

O trabalho em casa também significou melhor gestão do tempo para Ana, que transformou as três horas diárias no trânsito paulistano que enfrentava antes em tempo para trabalhar e se exercitar. Entre as desvantagens, há a falta de contato humano. Para driblá-la, a Dock aposta em ferramentas pensadas para manter um alto nível de interação digital entre os funcionários, além de planejar encontros presenciais com toda a equipe — para quando a pandemia permitir.

* Estagiária, sob supervisão de Maurício Xavier