Com perspectivas distintas, dois romances abordam a inutilidade da guerra às drogas

Nelson Vasconcelos

Sob perspectivas diferentes, dois romances recém-lançados por aqui abordam o tráfico de drogas no México: “A fronteira”, de Don Winslow, e “Terra americana”, de Jeanine Cummins. Ambos têm muito de pesquisa e, para dar liga, só um pouco de “criatividade”. São retratos de uma era, a nossa era, que não dá sinal de que esteja chegando ao fim. Por isso, deveriam interessar — e muito — aos leitores e eleitores brasileiros.

Em “A fronteira”, o chefe da Divisão de Narcóticos dos EUA, Art Keller, batalha há 40 anos contra o tráfico — indústria que alimenta também o mercado de armas, a prostituição e, sobretudo, a corrupção em todos os escalões. Keller prega que a solução para o conflito é liberar o consumo, mas não pode fazer muito. É apenas um cão de guarda, longe do alto comando do planeta, de onde sai uma única ordem: continuem morrendo.

A maior parte da história se passa em cidades mexicanas, onde vamos aprender bastante sobre produção e tráfico de heroína, gangues de bairro, milícias, venda de crianças, lavagem de dinheiro, cadeias privadas e interesses do Estado. É tudo um emaranhado de parcerias, um business intrincado e muito bem alavancado, com saúde para comprar governos inteiros, sem qualquer escrúpulo. Keller garante que, por isso, e por mais que Donald Trump insista, não adianta construir muros para deter o crime organizado. As barreiras reais são éticas e políticas. O resto é pura violência.

De vez em quando o policial esquece o regulamento e dá seu jeito de resolver os problemas do dia a dia. Isso garante êxitos e a própria sobrevivência. Sua caça ao megatraficante mexicano Adán Barrera dá quase certo. Ele aniquila o grande cartel da heroína mexicana, mas a operação acaba gerando dezenas de pequenos cartéis por todo o México, ramificando seu poder de influência e destruição.

O que Winslow quer deixar claro é que o “sistema” é muito bem montado, e policiais como Keller são uma ameaça quase inofensiva, com mais perdas que ganhos. Mas o veterano se sente perseguido pelo Senado, pelos cartéis e até pelo presidente dos EUA. E vai pagar um preço por isso.

Don Winslow é escritor aclamado, com livro adaptado para o cinema por Oliver Stone, e ferrenho crítico das medidas segregacionistas do presidente dos EUA. “A fronteira” é pauleira, sob medida para quem gosta de crimes e castigos. Winslow mantém a ação em alta voltagem, o que faz cariocas mais antenados com a alma desencantada das ruas do Rio se identificarem muito com o romance — o que é algo tão sintomático quanto preocupante.

Emocional

A proposta de “Terra americana”, da Jeanine Cummins, é bem outra. Apela para o lado emotivo do leitor ao retratar a jovem Lydia, que foge do tráfico ao lado do filho de 8 anos. Eles têm que atravessar metade do México para entrar ilegalmente nos EUA. No seu encalço estão homens de Javier Crespo, chefe do cartel de Acapulco. Mau, muito mau, mandou executar nada menos que 16 membros da família de Lydia — a começar pelo marido, um jornalista que escrevera demais sobre o tráfico.

A gente sente o conflito humano, dá dó ver uma mãe nessa tarefa insana, e saber que ela está longe de ser a única a nessa situação. Jeanine é hábil para contar o sofrimento e a dificuldade da longa fuga, o suspense e o terror de vidas inocentes em meio a muita violência. Almas mais sensíveis vão perceber que temos que pensar bem antes de apoiar a guerra irracional às drogas, tal como vem sendo feita aqui, no México e nos EUA.

O problema de “Terra americana” são uns trechos dignos de, digamos, novelas mexicanas ou de filmes de Hollywood. Basta dizer que o pesadelo começa quando Lydia se apaixona por um cliente culto e gentil da sua livraria. Bem apessoado, conhece a grande literatura e, assim como ela, é fã do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Só que esse cliente é justamente o Javier Crespo. Nesse ponto, Jeanine forçou a barra. Não precisava. Tem talento suficiente para conduzir a história sem apelar para esse e outros pequenos clichês.

*Nelson Vasconcelos é jornalista.

Serviço:

“A fronteira”. Autor: Don Winslow. Editora: HarperCollins. Tradução: Alice Klesk. Preço: R$ 79,90. Páginas: 784. Cotação: Ótimo.

“Terra americana”. Autor: Jeanine Cummins. Editora:Intrínseca.Tradução:Flávia Rössler, Cássia Zanon e Maria Carmelita Dias. Preço: R$ 49,90. Páginas: 416. Cotação: Regular.