Com PIB em alta, Bolsonaro tenta mostrar na TV que saiu da lona

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Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a speech during the announcement of sponsorship of olympic sports team by the state bank Caixa Economica Federal at Planalto Palace on June 1, 2021. - Brazil's President Jair Bolsonaro said on Tuesday that, if it depends on his government, his country will host the 2021 Copa America, in a bid to reduce uncertainty over the hosting of the world's oldest national team tournament. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

João Doria anunciou, em sua conta no Twitter, que até o final de outubro toda a população adulta de São Paulo estará vacinada.

Jair Bolsonaro não deixou barato. Algumas horas e milhares de curtidas na postagem do adversário tucano depois, estava na TV para um pronunciamento, em cadeia nacional, em uma de suas muitas versões.

Saía de cena o presidente que manda eleitor comprar vacina na casa da mãe. Que vai às redes sociais dizer que o imunizante do governador paulista causava morte e invalidez. Que provoca aglomeração, cria crise com o Exército ao chamar um general para ato político; que pergunta até quando vamos chorar pelas vítimas da covid-19; que chama jornalista de quadrúpede e manda fazer empréstimo no banco os que reclamam do auxílio emergencial.

A performance dessa vez era um presidente que não cospe fogo nem ameaça espancar ninguém. O tom de normalidade vinha com a autenticidade de uma nota de três.

Esse presidente tinha finalmente algo a mostrar.

No primeiro trimestre do ano, segundo o IBGE, a economia deu sinal de recuperação e cresceu 1,2%, mudando as projeções para 2021. Se ninguém atrapalhar, o PIB pode fechar o ano em expansão de até 5%.

Boa notícia, puxada por diversos fatores, e que Bolsonaro, que já inaugurou até obra alheia, não deixaria de faturar.

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Os indícios da retomada econômica fizeram o governo sair da lona após uma semana que ensaiou tomar um nocaute das ruas e da opinião pública, que dá a seu governo uma aprovação de 24%.

Bolsonaro sentiu o bafo da ira popular, expressa pelas ruas das capitais e grandes cidades no último sábado, e que já marcou o seu segundo round para 19 de junho. 

Não era para menos.

Na área econômica, as atenções até então giravam em torno dos índices de desemprego, que atinge hoje mais de 14 milhões de brasileiros.

Ricardo Salles, um de seus ministros mais fiéis, acaba de ser engolido por uma ação da Polícia Federal que pode carbonizar o discurso bolsonarista que vê corrupção em todo barco, menos o dele.

Tudo isso enquanto a CPI estapeava integrantes e ex-integrantes do governo em rede nacional.

Ali, por ironia, começou um indício de mudança na conversa. 

O tratamento inadequado, para dizer o mínimo, reservado a Nise Yamagushi, médica e conselheira informal do Planalto para assuntos sanitários, criou um ponto de inflexão entre simpatizantes e antagonistas no ringue da comissão.

Formadores de opinião e entidades, como o Conselho Federal de Medicina, foram a público contestar os métodos de interrogatório dos senadores da oposição contra a depoente.

“Fiquei com dó daquela senhorinha, não precisava fazer aquilo”, me disse uma pessoa próxima, que não vota em Bolsonaro, mas assistiu e não gostou do que viu.

A CPI mostrou ali não uma antipatia que pode se espalhar entre os que acompanham os trabalhos por curiosidade cívica, mas uma vulnerabilidade que fez sair da toca quem até então via o moedor de depoentes em silêncio, por vergonha ou consentimento.

Reanimado com a bola fora dos algozes, Bolsonaro aproveitou o pronunciamento para posar de defensor da vacina, que prometeu chegar aos braços de toda a população até o fim do ano. 

Aproveitou também para tentar convencer os brasileiros de que era uma boa ideia, às vésperas de um possível apagão duplo, de energia elétrica e de vagas em UTI, trazer ao Brasil a Copa América, torneio que nenhum país queria receber.

O presidente que flertava com seu próprio 7 a 1 focou no gol de Oscar e tentou correr para a (sua) galera.

A diferença é que a torcida dessa vez entrou em campo com gritos e panelaços registrados Brasil afora.

Na lista de revezes, ainda espocava nos principais telejornais uma fala enfática à CPI da médica infectologista Luna Araújo, que chegou a ser anunciada como secretária de Enfrentamento à Covid, mas não chegou a ser nomeada por razões nada misteriosas. Quem manda ali, afinal, não é o ministro ou o conselho oficial que deveria evitar, a essa altura, que o país se aproximasse de 500 mil mortos na pandemia.

Para Araújo, discutir tratamento precoce é o mesmo que debater sobre de que borda da Terra plana vamos pular. A força de expressão foi parar nos trending topics das redes, uma arena onde a atuação dos apoiadores de qualquer figura política hoje é fundamental.

As declarações à CPI animaram as redes anti-bolsonaristas, mostrando a gangorra emocional que deve marcar a disputa pelo Planalto até 2022.

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