Com prefeito defensor de cloroquina, Uberlândia enfrenta alta de casos e ocupação de 100% dos leitos

FERNANDA CANOFRE
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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Um ano depois de registrar o primeiro caso de coronavírus na cidade, em 17 de março de 2020, Uberlândia (MG), assim como o restante do país, vive o momento mais crítico da pandemia. Desde o começo do mês, a rede municipal mantém taxa de 100% de ocupação nos leitos e tem filas de espera por vagas de UTI que demoram até sete dias. No dia 10 de março, a cidade registrou o maior número de mortes em um dia, desde o início da pandemia: 36. Enquanto acompanhava a divulgação do boletim municipal, o consultor comercial Uallisson Carvalho Vilela buscava uma vaga de UTI para transferir o pai, Edson Vilela, internado na UAI (Unidade de Atendimento Integrado) Luizote. "Meu pai está intubado e precisa fazer hemodiálise. A gente já buscou todos os órgãos competentes, inclusive o Ministério Público, e não tem resposta", afirmou ele à TV Folha. O pai de Uallisson permaneceu intubado na unidade de atendimento por cinco dias, conseguiu uma vaga no Anexo do Hospital Municipal, mas morreu no dia 16. Na mesma unidade, outras pessoas tentavam conseguir informações sobre o estado de saúde de familiares, formando uma longa fila. Enquanto isso, ambulâncias do Corpo de Bombeiros e da prefeitura estacionavam na porta com novos pacientes que buscavam atendimento para a Covid-19. A região de Uberlândia, município com população estimada pelo IBGE em 699 mil pessoas, foi uma das primeiras a ser colocada sob a onda roxa. A fase impositiva dispensa adesão formal dos municípios e tem medidas de lockdown pelo plano do governo Romeu Zema (Novo), que orienta as atividades durante a pandemia -- na última quarta (17), a fase passou a valer para todo o estado. Logo no início de março, porém, a gestão de Odelmo Leão (PP) anunciou que não iria seguir a decisão do estado, mas manteria as medidas previstas em seu protocolo próprio, que incluem toque de recolher entre 20h e 5h e lei seca. As medidas valem até esta sexta (19), quando o comitê irá se reunir para definir os próximos passos. O governo do estado confirmou que a cidade não aderiu ao Minas Consciente. Como a medida sobre a onda roxa é impositiva, o município pode ser acionado na Justiça. No boletim de quarta-feira (17), os leitos de UTI e enfermaria reservados para Covid na rede municipal continuavam com 100% de lotação, o mesmo cenário do Hospital de Clínicas da UFU (Universidade Federal de Uberlândia). A prefeitura diz que encaminhou ofício ao governo do estado e ao Ministério da Saúde solicitando vagas interestaduais para encaminhar pacientes a espera de leitos. Desde o dia 1º de março, quando a rede entrou em colapso, foram registrados 6.989 casos e 373 mortes na cidade --uma média de 21,9 mortes por dia. A rede municipal, que tem 210 leitos de UTI para Covid e outros casos, incluindo vagas em hospitais e nas chamadas UAIs, segue com ocupação total e tem 100 pessoas na fila de espera nesta quinta-feira (18) --a espera tem levado entre cinco e sete dias. O hospital universitário, que passou de 8 para 32 leitos de UTI Covid em janeiro, mantém taxa de ocupação de 100% desde então. "De longe é a pior situação até agora. Estou atuando desde março do ano passado, a gente tinha chegado a pontos críticos, mas não tinha visto falta de leitos", conta a médica Letícia da Silva Alves, que trabalha em uma das UAIs, na rede municipal. "Tem muita gente que não quer internar porque tem medo da intubação -necessária só em casos graves. Falam que a intubação vai matá-los. Lidar com paciente grave dizendo isso para você é uma das piores coisas que já vivi, porque você quer ajudar aquela pessoa e ela recusa porque não confia, por todas as fake news que ela recebeu". O prefeito Odelmo Leão (PP), reeleito em 2020, apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), chegou a disponibilizar na rede o uso de medicamentos como hidroxicloroquina, sem eficácia comprovada contra a doença. No município, médicos podem receitar o chamado tratamento precoce mas o paciente deve assinar termo de responsabilidade. No dia 4 de março, Bolsonaro fez uma visita rápida à cidade, onde apareceu sem máscara, e ouviu do prefeito demandas para o sistema de saúde local, já em situação de estrangulamento. Na cidade mineira, o presidente ainda declarou: "Tem idiota que a gente vê nas redes sociais, na imprensa, 'vai comprar vacina'. Só se for na casa da tua mãe. Não tem [vacina] para vender no mundo". A vacinação também foi pauta de Leão com ele. Durante 2020, o prefeito fechou a cidade algumas vezes, mas acabou relaxando nas medidas permitidas, em outros momentos. Ele chegou a aderir ao plano Minas Consciente depois que o Ministério Público de Minas conseguiu na Justiça que municípios com regras mais relaxadas que aquelas previstas nos protocolos vigentes fossem obrigados a entrar nele, mas depois saiu. Em publicações nas redes sociais, em junho, Leão reclamou que a população não estava seguindo à orientação de ficar em casa. Hoje, a prefeitura diz que a população tem respeitado o lockdown e que denúncias de funcionamento irregular de estabelecimentos após as 20hs e festas clandestinas reduziram aproximadamente 90%. "Falhou estado, prefeitura, ficaram numa situação de vai e volta e receberam muita pressão por interesses econômicos", avalia Alair Benedito, médico aposentado, que foi diretor do hospital da UFU e presidente da Associação Brasileira de Hospitais Universitários. Para o auxiliar de enfermagem e integrante do coletivo dos atingidos pelo coronavírus de Uberlândia, Norton Nunes, o fato de o poder público não ter seguido à risca as orientações de cientistas colaborou para o cenário atual. O coletivo entrou com ações no Ministério Público pedindo medidas e fiscalização várias vezes, diz ele. "O prefeito afirma que fechou comércio várias vezes, mas a dinâmica é diferente", avalia ele. "Um elástico de medidas, que vai e vem, não adianta, precisamos de medidas efetivas contra o coronavírus". A reportagem fez pedido de entrevista com Leão e com a Secretaria de Saúde, mas eles alegaram não ter espaço na agenda. O fato de Uberlândia estar localizada na divisa de Minas com outros estados e de ter grande tráfego de pessoas pode ter ajudado no cenário de explosão de casos. Pesquisadores da UFU encontraram as duas novas cepas do vírus em circulação na cidade. Além disso, a defasagem de leitos na região é um problema histórico, segundo médicos ouvidos pela reportagem. "Com a pandemia exacerbou esse cenário de ausência de leitos. Além de ter uma carência de leitos local, nós recebemos pacientes de outras cidades. Os leitos no Hospital de Clínicas, que é um hospital de referência regional, estão sempre lotados", afirma a professora da faculdade de medicina da UFU e médica Juliana Markus. Em uma nota divulgada em fevereiro, a universidade afirma que o pronto-socorro do hospital universitário, com 92 leitos, um dos maiores do país, opera constantemente acima da capacidade, com 150% de ocupação, o que mostra a insuficiência da rede na região. "A gente sempre trabalhou acima do nosso limite, porque a demanda da região sempre foi grande. Com o agravamento da Covid, a nossa demanda do pronto-socorro aumentou, além dos 92 leitos, a gente sempre tem 30, 40 pacientes no corredor", afirma o superintendente do HC, Nilton Pereira Júnior. "O perfil dos pacientes mudou, nessa nova onda temos a doença mais grave, então os pacientes também ficam mais tempo em UTIs e são mais jovens. Enquanto antes 80% eram idosos, hoje chega a 50% de pacientes abaixo de 60 anos". Ele diz ainda que as maiores preocupações do hospital hoje são manter os estoques, que estão sendo utilizados muito além da demanda planejada, e com a dificuldade de encontrar recursos humanos. O hospital, que é vinculado a Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), do governo federal, realizou concurso em 2019, mas foi impedido de chamar aprovados pela determinação da lei complementar 173, criada durante a pandemia. Só contratações emergenciais estão autorizadas. "A gente entende que as medidas de isolamento são importantes e têm que ser ampliadas, mas não está tendo o reflexo que a gente gostaria que tivesse. Continuamos recebendo muitas pessoas na urgência geral e cada vez mais pessoas de casos de Covid. Nos preocupa muito a atual situação e não vemos perspectiva de melhora", avalia ele. Ele diz ainda que as maiores preocupações do hospital hoje são manter os estoques, que estão sendo utilizados muito além da demanda planejada, e com recursos humanos. O hospital, que é vinculado à estatal Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), realizou concurso em 2019, mas foi impedido de chamar aprovados pela determinação da lei complementar 173, criada durante a pandemia. As únicas contratações autorizadas hoje são emergenciais. A estatal diz que a autorização para contratações emergenciais vale enquanto vigorar a pandemia e que contratou 189 profissionais na unidade, o que permitiu a ampliação recente de leitos.