Com presença de dom Orani e parentes, cerimônia em cemitério do Rio homenageia mortos por Covid-19:' Dia de sermos solidários'

Rafael Nascimento de Souza
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O Dia de Finados está sendo diferente nos 17 cemitérios do município. O álcool em gel e a restrição do número de visitantes se juntam à tradição de dias cinzentos no feriado de Finados, celebrado nesta segunda-feira, 2 denovembro. No Cemitério da Penitência, no Complexo do Caju, apenas 50 pessoas — que perderam parentes recentemente — foram convidados para participar de uma cerimônia realizada pelo arcebispo do Rio, cardeal dom Orani João Tempesta. No local, foram inauguradas duas obras: Chama da Esperança e o Jardim in Memoriam em homenagens aos mortos pela Covid-19. A presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a pesquisadora Nísia Trindade Lima, participou do ato, para simbolizar a união entre a ciência e à sociedade civil.

— Esse é um dia que temos que ser solidários com tantas pessoas que sofrem nesse ano: com as famílias que perderam seus entes queridos, que não puderam fazer o velório e entregar seus entes queridos a Deus. (Por isso) rezamos a missa. Do outro lado, tivemos a oportunidade de acender a pira, a luz, que parte dela vai para a Fiocruz, onde rezamos, para que nossos cientistas, sejam iluminados para a descoberta da vacina — disse o arcebispo do Rio.

Entre os convidados da missa, estava a empresária Vera Lúcia Neves, 54. Dona Maria Auxiliadora, sua mãe, tinha 76 e faria 77 uma semana antes de morrer. Infectada pela Covid-19, a aposentada ficou internada em maio e junho e não resistiu. Nesta manhã, muito emocionada, Vera rezou no túmulo da mãe.

— A minha mãe foi vítima da Covid-19, e foi uma angústia e uma tristeza muito grande não poder fazer nada pela minha mãe nos últimos dias. Não pudemos cuidar, estar com ela no hospital para trocar uma fralda, ou até mesmo dar um funeral digno. Meus irmãos não conseguiram participar do enterro e está sendo muito difícil. Não é só para mim, mas para todos aqueles que perderam os seus. Hoje, com todo o cuidado, estamos aqui para prestar essa homenagem — contou.

Segundo a direção do cemitério, de março até a última semana, cerca de 1.100 corpos de doentes com Covid-19 ou suspeita da doença foram enterrados ou cremados no local. Em sua grande maioria, os parentes não puderam dar o último adeus a seus mortos.

— Essa programação é especial para pessoas que foram privadas de velar e sepultar seus familiares, já que existe um protocolo — que a pessoa teria que ser enterrada ou cremada sem velório. Reduziu o número de pessoas para prestar a última homenagem. Então, hoje, é um momento para que essas pessoas possam ter contatos com seus familiares que partiram em decorrência da doença — diz Alberto Brenner Júnior, superintendente do Crematório da Penitência.

Gisele Matuque Diniz Peixoto, 55, juiz de esportes, perdeu o pai, que tinha 81 anos, para a doença em maio. A esportista conta que a cerimônia foi um momento de homenagear o aposentado, que foi enterrado sem a presença de quem ele gostava.

— Essa homenagem me faz sentir mais leve, me faz ter uma conexão com o meu pai, novamente. É uma homenagem para ele: então, nos deixa leve e satisfeitos.

Às 10h, funcionários do cemitério soltaram centenas de balões com mensagens recebidas pela internet.

No Cemitério da Penitência, havia medição de temperatura no portão principal. Ao lado, no Cemitério do Caju, apenas quem estava nos carros passava por medição. Quem entrava a pé pela entrada principal não tinha a temperatura verificada; e havia aglomeração.