'Quando em risco a democracia, a crise política acaba por fomentar terríveis crises econômicas', diz Alckmin ao tomar posse como ministro

Com a presença do presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin assumiu o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços numa cerimônia concorrida nesta quarta-feira no Palácio do Planalto. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) foi extinto pelo governo Jair Bolsonaro e incorporado ao então Ministério da Economia. Agora, a pasta foi recriada no governo se se iniciou no domingo.

Em seu discurso de posse, ele defendeu a estabilidade política, ao citar Ulysses Guimarães.

— As nações democráticas e de economia de mercado são mais ricas e as mais fortes. Por isso mesmo, quando colocada em risco a democracia, a crise política acaba por fomentar terríveis crises econômicas. A inabilidade política tem custo e é socialmente injusta porque penaliza o mais pobre e inviabiliza a atuação econômica e produtiva. Na normalidade democrática é que o país pode crescer e se mostrar justo para o seu povo — afirmou.

Ele defendeu a reforma tributária, em linha com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o aumento da produtividade.

— Na campanha, percorri várias fábricas em São Paulo, com o ministro Haddad e o ministro Márcio França (Portos e Aeroportos). E em todas elas ouvimos a necessidade da simplificação tributária. Uma política industrial contemporânea passa ainda pela digitalização, sustentabilidade, inovação e aumento de produtividade.

Alckmin afirmou defendeu como "fundamental" a qualificação da mão de obra para o aumento de produtividade. Ele anunciou que o novo Mdic contará com uma secretaria de de desenvolvimento verde que trabalhará em conjunto com nossa ministra Marina Silva, do Meio Ambiente.

— Na agenda da sustentabilidade é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. A sustentabilidade é ponto de partido de toda a política industrial — afirmou.

O vice disse que o Brasil "de agora" dará exemplos positivos, enfrentará os riscos de maneira construtiva e propositiva.

— Estamos seguros de uma maior integração do comércio brasileiro ao mundo. Mudanças geopolíticas e na cadeias de valor podem representar uma oportunidade para o Brasil atrair investimentos produtivos.

Alckmin disse que o Brasil passará agregar mais valor às suas exportações, mas também disse que o comércio é uma via de mão dupla. Para ele, para ser competitivo, o país precisa também importar. Ele defendeu apoio às micro e pequenas empresas e disse que o Brasil precisa conceber programas de apoio a startups.

O ministro afirmou que Lula “impôs” que o Brasil elabore uma política moderna de desenvolvimento industrial.

— Que essa política seja objeto de avaliação apropriada e continuada no tempo. Não haverá projetos e programas eficazes elaboradores à revelia do setor produtivo. É na boa política que resultará o programa de reindustrialização — considerou o ministro.

Alckmin disse que o novo Mdic será orientado para uma economia inclusiva, criativa e sustentável e que vai trabalhar "incansavelmente" pelo emprego e a distribuição de renda.

— O Brasil não pode prescindir da indústria se tiver ambições de alavancar o crescimento econômico — afirmou. — É urgente a reversão da desindustrialização precoces ocorrida no Brasil. Apesar de representar apenas 11% do PIB brasileiro, a indústria de transformação aporta 69% de todo o investimento em pesquisa. Infelizmente, a indústria de transformação tem perdido participação no PIB do país, o que nos impõe uma cara estagnação.

Para ele, o Brasil é socialmente injusto e economicamente desajustado. E que é preciso superar a "lógica de soma zero que coloca setores econômicos uns contra os outros".

Ele disse que o esforço de reindustrializar o Brasil e incluir os trabalhadores economia “não são tarefas episódicas, mas obra de todo o governo”.

— A reindustrialização é essencial para a retomada do crescimento sustentável — afirmou.

Alckmin disse que vai trabalhar com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) "resgatar" a imagem do Brasil no exterior. Ele já havia anunciado o ex-governador do Acre Jorge Viana para o cargo de presidente da agência.

— Lula sempre indica que nossa missão será resgatar o papel que o Brasil tem no exterior — afirmou.

A cerimônia nesta quarta-feira foi a primeira de Lula no Palácio do Planalto desde que ele assumiu a Presidência da República. Com o Salão Nobre do Palácio cheio, Alckmin assumiu o cargo com a presença de empresários e autoridades.

Ao fim do seu discurso, o vice disse que tem um compromisso "inabalável" com Lula.

— A nossa união, Lula, não é episódica. A nossa união é por um país, por um povo e por seu direito de viver num regime democrático e num país verdadeiramente produtivo. Tenha em mim, presidente Lula, aquele em que o senhor poderá confiar sempre a primeira e mais árdua missão. Porque é inabalável o meu compromisso com o senhor, o seu governo e o nosso país.

Perfil

Um dos fundadores do PSDB, Geraldo Alckmin, de 70 anos de idade, deixou o partido no final de dezembro de 2021, após mais de três décadas. Na ocasião, afirmou que era um “tempo de mudança” e “hora de traçar um novo caminho”.

O vice-presidente é formado em medicina e ingressou na política há 50 anos. Neste período, atuou em diversas funções: foi vereador, prefeito de Pindamonhangaba, deputado estadual, deputado federal, vice-governador e governador de São Paulo.

Alckmin disputou a Presidência da República duas vezes. Em 2006, quando perdeu no segundo turno para Lula, e em 2018, quando ficou na quarta colocação, atrás de Jair Bolsonaro, Fernando Haddad e Ciro Gomes.

Disposto a reverter o processo de desindustrialização do país e a impulsionar a geração de empregos, Lula chegou a convidar o empresário Josué Gomes, filho de José Alencar (se vice no primeiro e segundo mandatos), para o cargo, porém ele declinou.

A escolha final foi Alckmin, ex-governador de São Paulo, principal polo da economia brasileira e experiente administrador público. O vice coordenou a equipe de transição de Lula.