Com Raquel Lyra e Fátima, Brasil chega a dez governadoras eleitas na história

SÕ PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o fim do segundo turno, neste domingo (30), todos os estados da federação escolheram seus governadores, e duas mulheres ocuparão a chefia de Executivos estaduais no próximo ano -Raquel Lyra (PSDB) em Pernambuco e Fátima Bezerra (PT) no Rio Grande do Norte.

O resultado marca o segundo maior número de mulheres comandando governos estaduais: o pico foi em 2006, com três. Desde a redemocratização, a cifra total de mulheres à frente de estados chegou a dez.

Fátima já ocupava o Palácio de Despachos de Lagoa Nova e conquistou a reeleição em primeiro turno, enquanto a tucana derrotou Marília Arraes (Solidariedade), aliada do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em uma volta final pouco nacionalizada e após a morte de seu marido, Fernando Lucena.

A chapa de Lyra, com Priscila Krause (Cidadania) como candidata a vice, é a primeira totalmente feminina a ser eleita na história do Brasil, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Mas a relação entre eleitas e candidatas ainda é baixa. No pleito deste ano, o Brasil contou com 35 candidaturas femininas em todos os estados, resultando em uma taxa de eleição de quase 6%.

Historicamente, 13 estados brasileiros já foram comandados por mulheres no país em caráter substitutivo ou definitivo. A primeira a assumir efetivamente um governo estadual foi Iolanda Fleming (MDB), no Acre, em 1986, após a renúncia de Nabor Júnior, que deixou o cargo para se candidatar ao Senado.

Oito anos depois, o Maranhão elegeu Roseana Sarney (MDB), a primeira alçada por meio de votação popular ao cargo na história do Brasil. Ela foi reeleita em 1998 e depois voltou à administração estadual em 2009, após cassação da chapa vitoriosa em 2006. Em 2010, foi reconduzida ao cargo outra vez.

Em 2002, duas mulheres se tornaram governadoras -Rosinha Garotinho no Rio de Janeiro e Wilma de Faria no Rio Grande do Norte. Quatro anos depois, o ápice: além da reeleição de Wilma, o Rio Grande do Sul e o Pará alçaram, respectivamente, Yeda Crusius (PSDB) e Ana Júlia Carepa (PT) aos governos.

O número voltou a cair em 2010, com a eleição de Roseana e de Rosalba Ciarlini (DEM) no Rio Grande do Norte, e em 2014, quando apenas Suely Campos (PP) se saiu vitoriosa em Roraima. Em 2018, outra vez só uma mulher se elegeu. Fátima, no Rio Grande do Norte, estado que mais escolheu mulheres -foram três.

Naquele ano, instituiu-se a cota de 30% dos recursos do fundo eleitoral para mulheres, após decisão do Supremo Tribunal Federal. Em 2022, o repasse mínimo para mulheres foi objeto de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) aprovada em maio. Sob a nova regra, o pleito levou as mulheres a 52% das chapas para governos estaduais, mas a maioria era candidata a vice. O avanço consolida uma tendência que teve início há quatro anos, com a definição dos gastos da cota financeira como pano de fundo.

Isso porque os critérios de distribuição dos recursos são definidos pelos partidos, que podem destinar a verba a candidaturas majoritárias lideradas por homens e que têm mulheres como vice. Nesta eleição, o fundo eleitoral foi de R$ 4,9 bilhões. O pleito deste ano também teve participação feminina recorde na disputa pelo Palácio do Planalto, em uma eleição em que as mulheres tiveram peso nos votos e nas propostas, sendo foco das campanhas de Lula e Jair Bolsonaro (PL), que protagonizaram a disputa.

Mesmo assim, ainda há desafios. Em suas trajetórias, as postulantes relatam ceticismo e fogo amigo. No Legislativo, o número de deputadas na Câmara passará de 77 para 91, representando menos de um quinto do total, cifra distante da paridade de gênero no Brasil, já que as brasileiras são 52% da população do país.