Com recorde de mortes por Covid e fila nas UTIs, SC mantém restrições apenas no fim de semana

ARTUR BÚRIGO
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BALNEÁRIO CAMBORIÚ, SC (FOLHAPRESS) - Um dia após Santa Catarina atingir o maior número de mortes diárias em toda pandemia, o governador Carlos Moisés (PSL) decidiu manter apenas durante o final de semana a proibição do funcionamento de estabelecimentos e atividades não essenciais no estado. A medida é criticada por especialistas, que sugerem um lockdown de ao menos 14 dias no estado para diminuir as curvas de contágio do novo coronavírus. A principal novidade do decreto que valerá a partir desta sexta-feira (12) é a limitação do horário para fornecimento com consumo no local de bebidas alcoólicas no período entre 21h e 6h, todos os dias da semana. O novo decreto limitará o funcionamento de uma série de atividades por até 25% de ocupação e atendimento ao público das 6h às 23h59. No transporte coletivo, haverá limitação de 50% da ocupação. O funcionamento de casas noturnas e a realização de shows seguem proibidos. As 108 mortes da terça-feira (9) no estado aconteceram no mesmo dia em que o Brasil atingiu o recorde de mortes diárias por Covid-19. O estado vive um colapso na saúde, com 96,25% de ocupação na UTI e apenas 60 leitos disponíveis. A Secretaria de Estado da Saúde admite, no entanto, que leitos que aparecem disponíveis já podem estar reservados a outros pacientes. De acordo com o último boletim, 395 pacientes estão na fila por um leito de UTI. Para Fabricio Menegon, chefe do departamento de saúde pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), medidas de restrição apenas aos finais de semana são insuficientes. "O governador deveria decretar um lockdown de ao menos 15 dias para ter algum impacto na curva de contágio e de óbitos. Não teremos redução de mortalidade no curto prazo sem medidas mais severas", afirma Menegon. Em nota, a administração estadual disse que avalia diuturnamente o cenário para a adoção de medidas que possam garantir a assistência aos catarinenses e que são inúmeras as variáveis que afetam os resultados das escolhas da gestão, incluindo fatores climáticos, socioeconômicos e culturais. O governo também diz que, em razão dos recentes decretos, Santa Catarina registrou o índice de isolamento social mais alto do Brasil no dia 28 de fevereiro, de 55,3%, de acordo com dados da plataforma Inloco. As prefeituras podem tomar medidas mais restritivas que as do decreto estadual. Foi o que fez o município de Chapecó, no oeste do estado, a primeira região a lidar com o colapso na saúde. O prefeito João Rodrigues (PSD) decretou o fechamento de comércios, bares e restaurantes por 14 dias, que foram reabertos na segunda-feira (8). Nesta semana, o município instituiu barreiras sanitárias para monitorar quem chega à cidade pela rodoviária ou pelo aeroporto. "A vida tem que seguir, já paramos por 14 dias, imagina mais 14? Aí teremos dois problemas, a doença e a miséria. Eu não tenho poder de cancelar boletos, nem autoridade para suspender o pagamento de impostos", afirmou o prefeito em transmissão ao vivo nas redes sociais da prefeitura. O prefeito Adriano Silva (Novo), de Joinville, a cidade mais populosa do estado, também anunciou aumento nas restrições a partir desta quarta-feira até o dia 28 de março. A principal é o toque de recolher das 22h às 6h. Mas para Menegon, ações de endurecimento isoladas em municípios não bastam para arrefecer a gravidade da pandemia. "As cidades são interligadas e o vírus se nutre desse trânsito de pessoas entre os municípios. O gestor estadual é quem tem a competência e o poder de determinar medidas mais abrangentes, regionais", disse. Na terça-feira (9), Santa Catarina suspendeu a transferência de pacientes na fila de leitos de UTI para o Espírito Santo. De acordo com o superintendente de Urgência e Emergência da Secretaria de Estado da Saúde, Diogo Losso, a decisão foi tomada em conjunto e será reavaliada na próxima sexta-feira. O estado capixaba viu a ocupação de leitos de UTI superar a marca de 80% nesta semana. Para as 15 vagas que haviam sido disponibilizadas no hospital Dr. Jayme Santos Neves, em Serra (ES), Santa Catarina chegou a enviar cinco pacientes antes da suspensão das transferências. Profissionais relatam exaustão A ocupação nas UTIs começou a aumentar significativamente a partir do final de fevereiro, lembra Marina Canto, médica intensivista que trabalha em dois hospitais de Criciúma. Apesar da exaustão física de jornadas de trabalho que variam entre 12 e 24 horas, a médica aponta o desgaste mental no momento da intubação dos pacientes como o mais impactante. "É visível o medo com que eles nos olham quando avisamos da necessidade de intubação. Na maioria das vezes acham que vão morrer, querem que demos a certeza de que sobreviverão. Mas só posso dizer a eles que vamos fazer de tudo para dar certo", diz Canto. O auxiliar de enfermagem Sandro Risso trabalha na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Chapecó e relata o esforço dos profissionais de saúde do local para conseguir atender todos os pacientes, inclusive internando na própria unidade aqueles que estão à espera de leitos de UTI. "Felizmente estamos conseguindo atender todos que chegam. Caso seja necessário, criamos leitos em macas, no corredor, mas não enviamos as pessoas com gravidade de volta para suas casas", diz Risso.