Com risco a motoristas e pedestres, pane em semáforos quase dobra em SP

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 23.04.2022 -  Semáforo sem funcionar na esquina da Duque de Caxias com Barão de Limeira. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 23.04.2022 - Semáforo sem funcionar na esquina da Duque de Caxias com Barão de Limeira. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A auxiliar de limpeza Maria Conceição Balarini, 62, bateu boca com o motorista de um furgão e ainda ouviu xingamentos, por volta das 9h30 desta quinta-feira (28), no cruzamento entre a avenida Duque de Caxias e a alameda Barão de Limeira, no Campos Elíseos, região central de São Paulo. Tudo porque ela tentou atravessar na faixa de pedestres no mesmo momento em que o veículo branco passava pelo local.

Menos de quatro horas depois, às 13h, o resgate foi chamado para atender a um homem que havia batido sua moto contra um carro, em acidente que envolveu ainda uma outra motocicleta --de acordo com o Corpo de Bombeiros, como foram casos leves, nenhuma das vítimas precisou ser socorrida.

Os dois casos aconteceram em um cruzamento onde os semáforos estão sem funcionar há cerca de um mês, segundo comerciantes que trabalham no entorno. A prefeitura culpa a ação de ladrões, que furtam cabos e fios para vender o cobre com sucata.

"Acho que isso aqui nunca mais vai ficar bom", diz a idosa, depois de finalmente conseguir seguir em direção rua Conselheiro Nébias, a uma quadra dali, onde o semáforo também não funcionava.

E esse é um problema que se multiplica em velocidade maior que a dos carros no caótico trânsito da capital paulista. Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o número de semáforos com apagões por causa de furtos de fios e cabos, como no cruzamento em Campos Elíseos, cresceu 91% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, saltando de 968 para 1.849 ocorrências.

No período de janeiro a março, afirma a CET, foram reinstalados 126 quilômetros de fiação elétrica nos equipamentos alvos dos furtos. É a distância aproximada entre a capital e Paraibuna, no interior do estado.

De acordo com o site Sinal Verde, ligado à prefeitura, às 11h desta quinta, 95 dos 6.665 locais catalogados com semáforos em São Paulo tinham manutenção. A gestão Ricardo Nunes (MDB) não explica quantos deles estavam em pane por causa do furto de fios ou por quebra. Nenhum deles, porém, havia apagado por falta de energia elétrica, de acordo com o serviço na internet.

Francisco Aguiar, 50, gerente de uma lanchonete do cruzamento entre a Duque de Caxias e a Barão de Limeira, diz que o conjunto de semáforos ali está sem funcionar há pelo menos um mês, período reforçado pelo vendedor Carlos Henrique Borges, 33, que trabalha numa autopeças próxima.

Nesta esquina, uma caixa para enterramento de fios está quebrada e há cabos expostos no meio da calçada, embaixo de um dos postes de semáforos, que também estava sem uma tampa de metal.

"Ontem [quarta] à noite também teve uma batida entre dois carros aqui", afirmou o gerente da lanchonete. Segundo ele, funcionários da CET passaram boa parte do sábado (23) tentando resolver o problema, mas os semáforos continuaram apagados.

Quando a reportagem esteve no local na manhã desta quinta, ele estava sinalizado com cones. No início da tarde, após o acidente e depois do questionamento a situação do cruzamento à CET, a sinalização foi reforçada com mais cones e fitas laranja e branca, reduzindo o número de faixas de rolamento, forçando, assim, motoristas a reduzirem a velocidade.

Mas não havia agentes de trânsito no local, o que deveria acontecer, diz Antônio José Dias Júnior, integrante da Comissão de Direito de Trânsito da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo.

"Um semáforo quebrado é um perigo, porque ele é controlador de trânsito", afirma o especialista, dizendo que a prefeitura poderia deslocar qualquer outro servidor para ajudar ali, se não houvesse agentes de trânsito disponíveis por causa do elevado número de locais com problemas --a GCM (Guarda Civil Metropolitana) foi chamada para atender a ocorrência no acidente da tarde desta quinta-feira.

No caso de um local com semáforo quebrado, o advogado orienta o motorista a seguir sempre a regra de trânsito e dar preferência aos veículos que vêm da direita no cruzamento e ao pedestre, que precisa sinalizar com a mão que vai atravessar a rua.

"Mas isso também é um perigo, porque o pedestre, sabendo de seu direito, sempre vai querer atravessar direto e o motorista pode não respeitar porque o semáforo estava quebrado", afirma.

Sem mostrar números, a CET diz que das 12 vias com mais furtos e atos de vandalismo em semáforos nos três primeiros meses deste ano, cinco ficam na zona leste e quatro na zona sul.

A lista tem vias importantes, como as avenidas São Miguel e Líder, na zona norte, e Ipiranga, na zona sul, além da avenida do Estado, que liga as regiões sul e central. O ranking ainda conta com duas ruas no centro --Brigadeiro Tobias e São Caetano-- , além da estrada Turística do Jaraguá, na zona norte, entre outras.

"A área central costuma concentrar o maior número de falhas por furto ou vandalismo. Neste ano, entretanto, verifica-se um aumento significativo na zona leste e sudeste", afirma a nota da companhia, sem mensurar dados que comprovem o crescimento.

Para tentar minimizar o volume das ocorrências, a CET afirma que tem feito o alteamento e reforço nas portas dos controladores semafóricos, a concretagem e soldagem das tampas das caixas de passagem da fiação, bem como das janelas de inspeção dos postes.

A companhia ainda afirma que atua em conjunto com a Secretaria da Segurança Pública, polícias Civil e Militar e a Guarda Civil Metropolitana. Questionada sobre os semáforos da avenida Duque de Caxias, a CET disse que este é o quarto caso de problema decorrente do furtos de cabos na região em uma semana. O órgão afirmou ainda que trabalha 24 horas por dia no conserto dos equipamentos na cidade.

Rafael Alcadipani, professor da área de segurança da FGV (Fundação Getulio Vargas), admite que o problema é de difícil solução. Muitos que cometem esse tipo de crime, afirma, são usuários de drogas em situação social vulnerável --o cruzamento no Campos Elíseos fica próximo da cracolândia, onde há consumo e venda de entorpecentes-- e o cobre vendido em ferro-velho vira dinheiro na mão.

"São pessoas que quando presas ficam muito pouco tempo na cadeia e o Brasil não tem um sistema efetivo de cumprimente de penas alternativas", afirma.

Em nota a Secretaria da Segurança Pública afirma que do início de 2021 até março deste ano, somente a 3ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Crimes Patrimoniais apreendeu mais de 52 toneladas de fios e cabos de cobre, alumínio e fibra ótica, e prendeu 35 suspeitos na cidade de São Paulo.

A pasta estadual diz ainda que em outras operações foram recuperadas uma tonelada de alumínio, comumente utilizados em redes de energia, oito carretéis de fibra ótica, 134 modens de internet, diversas tampas de metal utilizadas em galerias subterrâneas, placas de trânsito, entre outros materiais.

"Também são realizadas operações policiais visando à fiscalização de estabelecimentos voltados a reciclagem de materiais, com apoio das subprefeituras regionais, com consequente lavratura de autuações e multas administrativas", afirma trecho da nota.

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Cuidados em semáforos apagados

- Motorista sempre deve dar preferência ao veículo que vem à direita no caso de um cruzamento

- Motorista sempre deve dar preferência ao pedestre na faixa

- Pedestre deve sinalizar com a mão e prestar atenção ao atravessar --e sempre na faixa

- O veículo maior sempre deve prezar o menor

Fonte: Antônio José Dias Júnior, integrante da Comissão de Direito de Trânsito da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo

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