Com samba feito carta e lirismo contra a pandemia, Viradouro busca o bi lembrando carnaval de 1919 e com homenagem aos médicos

·4 min de leitura

"Carnaval, te amo / Na vida és tudo pra mim". É com esses versos cheios de paixão pela folia que a Unidos do Viradouro tenta o bicampeonato, com doses de lirismo e humor para lembrar aquele que é considerado um dos reinados de Momo mais inesquecíveis de todos os tempos: o de 1919. Aquela foi a primeira fuzarca pós-epidemia de gripe espanhola. A de agora marca o retorno dos desfiles à Marquês de Sapucaí desde que eclodiu a pandemia da Covid-19. E a proposta dos carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira é traçar um paralelo sentimental entre esses dois momentos, mostrando as incertezas e a importância do carnaval na vida das pessoas.

Um dos pontos altos do desfile é, sem dúvidas, o samba-enredo em formato de uma carta apaixonada de um Pierrô para o Carnaval. Mas fantasias que são a alta-costura do carnaval e alegorias cheias de efeitos e tecnologia prometem fazer a atual campeã brilhar. Num dos setores da vermelho e branco deve ocorrer um dos momentos de maior comoção dos desfiles, para homenagear os profissionais de Saúde que atuaram na linha de frente contra as duas emergências sanitárias.

Zanon lembra que, em 1919, médicos combinaram de ir ao Baile do Liberty Club, que celebrava a Cruz Vermelha, vestidos de palhaços listrados. Pois os palhaços listrados serão representados na Viradouro. E um setor inteiro da escola se abrirá ao meio para eles encenarem uma das cenas que mobilizaram o país na pandemia contemporânea: quando médicos davam alta a pacientes, e os recuperados da doença, muitas vezes em cadeiras de rodas, passavam por um corredor de profissionais que os aplaudiam.

— Na nossa encenação, os componentes vão se levantar e começar a sambar — adianta Zanon, contando que numa alegoria haverá ainda convidados especiais. — São cerca de 20 médicos convidados, todos que atuaram na linha de frente contra a Covid em hospitais como o Ronaldo Gazolla (referência contra a doença no Rio).

O desafio, diz o artista, foi abordar questões delicadas, como a morte e a doença, num tom que não ficasse sombrio na Sapucaí. Aí, a virada virá pela emoção e até pelo bom humor, que já marcou o carnaval de 1919. Ele conta ainda que boa parte da pesquisa para o desenvolvimento do enredo foi baseada no livro "O carnaval da guerra e da gripe", de Ruy Castro. Mas também se buscou muita inspiração em jornais e revistas do fim da década de 1910, como O Tico-Tico e a Revista Fon Fon.

— A Biblioteca Nacional abriu seu acervo na internet durante a pandemia. E tivemos acesso a todas essas publicações da época, onde encontramos histórias incríveis — diz Tarcísio, contando que as fake news e soluções mágicas (e não comprovadas) contra a gripe espanhola também serão mostradas no desfile. — A caipirinha, por exemplo, surgiu como um xarope contra a doença. Acreditava-se que a canja de galinha também era uma espécie de remédio. A galinha, então, ficou em alta, granjas foram assaltadas... Para ironizar essa história, no carnaval de 1919 foliões desfilaram no Bloco das Cocotas Emplumadas. Vamos contar isso nas fantasias.

Haverá mensão até à cloroquina, num paralelo com essas fórmulas milagrosas que surgiram também no período da gripe espanhola.

A Viradouro será a quinta escola da noite desta sexta-feira na Avenida.

Autores: Felipe Filósofo, Fabio Borges, Ademir Ribeiro, Devid Gonçalves, Lucas Marques e Porkinho

Intérprete: Zé Paulo Sierra

Amor, escrevi esta carta sincera
Virei noites à sua espera
Por te querer quase enlouqueci
Pintei o rosto de saudade e andei por aí
Segui seu olhar numa luz tão linda
Conduziu meu corpo, ainda
O coração é passageiro do talvez
Alegoria ironizando a lucidez
Senti lirismo, estado de graça
Eu fico assim quando você passa
A Avenida ganha cor, perfuma o desejo
Sozinho te ouço se ao longe te vejo
Te procurei nos compassos e pude
Aos pés da cruz agradecer à saúde

Choram cordas da nostalgia
Pra eternidade, uma samba nascia

Não perdi a fé, preciso te rever
Fui ao terreiro, clamei: Obaluaê!
Se afastou o mal que nos separou
Já posso sonhar nas bênçãos do tambor
Amanheceu! Num instante já
Os raios de sol foram testemunhar
O desembarque do afeto vindouro
Acordes virão da Viradouro
Tirei a máscara no clima envolvente
Encostei os lábios suavemente
E te beijei na alegria sem fim
Carnaval, te amo, na vida és tudo pra mim

Assinado: um Pierrot Apaixonado
Que além do infinito o amor se renove
Rio de janeiro, 5 de março de 1919

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos