Com sonho de ser ator, vencedor do Mister Trans Brasil rebate críticas de que parece hétero: "O padrão é o cis, não sou padrão. Ganhei também pela postura, estudei oratória e passarela"

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SÃO PAULO — Vencedor do primeiro concurso de beleza do mundo para homens trans, Bernado Rabello, de 25 anos, responde às criticas que se disseminaram nas redes sociais de que a escolha não contemplou a diversidade, deixando de fora potenciais candidatos negros, e de que ele, branco e já mastectomizado, segue um "padrão estético". O prêmio principal era justamente a oferta de uma cirurgia de mastectomia. Porém, assim como Bernardo, parte dos finalistas já tinha passado pelo procedimento.

Escolhido pelo júri, Bernardo entende que há desconhecimento e afirma que toda a pluralidade de corpos trans esteve representada na disputa. Ele diz que o vencedor da região Sudeste, Natan Santos, é negro e tem seios.

— As pessoas precisam se informar mais. O objetivo do concurso foi justamente mostrar a pluralidade e que a gente pode estar em qualquer lugar. Precisamos acreditar na nossa beleza e quebrar tabus — afirmou Bernardo, que atribui as críticas à falta de conhecimento sobre o tema.

Ao contrário do que as pessoas que contestam o resultado estão dizendo - para muitos, Natan foi o vencedor na eleição popular -, Rabello não se vê como padrão de beleza da sociedade. Atacado por uns e enaltecido por outros, ele teve o apoio do padre Júlio Lancellotti, conhecido pelo trabalho social que faz em São Paulo e que posou para foto ao lado dele, com a faixa de campeão. Em sua rede social, o padre deu os parabéns a Bernardo pela vitória.

— O padrão é o cis, não sou padrão. Ganhei também pela postura, pela dedicação. Estudei oratória, passarela. Tudo foi aprendizado e o mais importante foi justamente conhecer histórias diferentes — conta ele, que é agenciado pela mesma empresa que administra a carreira de Cauã Reymond.

Filho de pai militar e morador de Rezende (RJ), Rabello se formou em educação física e trabalha há quatro anos na linha de produção de uma fábrica de pneus. Depois de fechar contrato com uma agência de modelos em 2019, ele começou a estudar artes cênicas e sonha ser ator.

Outro fato considerado polêmico, que também é contestado, é de que o concurso teria sido organizado por homens cis, ou seja, se identificam com seu "gênero de nascença". Um dos idealizadores, Esteban Rodrigues diz que é homem trans e que seus parceiros de empreitada foram uma mulher trans e um homem não binário. De tudo que tem sido dito sobre o concurso, ele admite apenas que houve baixo número de inscrições, o que atribui à pandemia. Não foi possível fazer etapas eliminatórias estaduais, o que teria aumentado o leque de candidatos, inclusive negros. A única que pôde ser realizada foi em Mato Grosso.

Na reta final, foram apenas 24 participantes. Por falta de patrocínio, muitos não tinham recursos para se deslocar para São Paulo ou não conseguiram pagar a taxa de inscrição de R$ 750.

Prometida aos candidatos, a cirurgia de mastectomia (retirada dos seios) foi ofertada por uma médica parceira do evento porque a operação, por questões éticas do Conselho Regional de Medicina, não pode ser tratada como prêmio. Como vários dos ganhadores já tinham feito a cirurgia ou não pretendem fazê-la, a possibilidade de realizar o sonho de muitos homens trans será entregue ao candidato que ficou em sétimo lugar.

Dos 24 finalistas 14, de acordo com Rodrigues, ainda não fizeram a mastectomia. Muitos acharam que eles tinham sido mastectomizados porque usavam uma faixa de compressão nos seios, o que é muitas vezes necessário não só por uma questão estética mas tambem devido ao forte preconceito ainda existente.

—Usar a faixa é uma questão de segurança. O uso é necessário para que para não ser alvo de violência na rua. Uma pessoa com barba e seio é atacada na rua.

Sobre a questão racial, Rodrigues afirma que vários participantes se declararam negros e lembrou que o Brasil tem a característica do "colorismo", que são os vários tons de pele, muitos deles identificados como "pardos" por terceiros. O que vale, porém, é a autodeclaração.

Rodrigues ressalta que ter feito o primeiro concurso de beleza de homens trans no mundo é muito importante, independentemente das dificuldades.

— Querendo ou não é um evento político. Foi uma aula e uma troca de experiência entre todos nós. A ideia é aumentar o alcance e a visibilidade — diz ele.

Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI, afirma que há outras polêmicas em curso no país, como a mulher trans que quer disputar o título de "rainha do gado" na feira agropecuária de Parintins (AM) - Priscilla Mollinary Soares, de 24 anos - e a primeira mulher trans a chegar na final do concurso Miss Brasil, a goiana Rayka Vieira, 26 anos.

— Somos muito binários. Ou é oito ou oitenta, ou é preto ou é branco. Tenho certeza, tanto como acadêmico quanto como ativista, que temos 50 tons em todas as áreas. Temos de fazer concurso de beleza, pois beleza é para se mostrar. Não vi polêmica nisso - afirma.

Reis lembra que, sempre que se muda um júri, pode mudar também o resultado de qualquer concurso, porque "a beleza está nos olhos de quem vê". Ele acredita que todos estão bitolados e que, daqui a 10 ou 15 anos, tudo terá mudado:

— Querem colocar que existe só pênis e vagina, mas entre os dois tem tanta fantasia e percepção no mundo...Estamos vendo tanta feiúra na sociedade, temos de ver muitas belezas.O primeiro colocado receberá R$ 4 mil ao longo de um ano. Além disso, uma das parceiras do evento, uma loja de acessórios para homens trans, como cuecas especiais, faixa (binder) e prótese peniana, por exemplo, também ofereceu um kit de produtos.

Em seu perfil no Twitter, Natan Santos, que aparece como @durag influencer, se manifestou sobre o debate e agradeceu o apoio de quem o considera o verdadeiro vencedor: "Vão ter que engolir corpos plurais e reais sim. Não fui ganhador do nacional por motivos óbvios mas trouxe o regional para Niterói. O mister trans do Sudeste é o king aqui".

Críticas a concursos de beleza têm sido frequentes nas redes sociais. Em 2017, Monalysa Alcântara, recém-eleita Miss Brasil, foi vítima de racismo. Em junho deste ano, em Santo Antonio do Amparo (MG), uma jovem negra, de 19 anos, ganhou um concurso de beleza e foi eleita rainha da cidade. Logo depois, viralizou o áudio de uma mulher incomodada com a vitória e com a inclusão.

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