Com torneiras secas ou geosmina na água, cariocas improvisam para matar a sede

Lucas Altino, Ludmilla de Lima e Rafael Nascimento de Souza
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Da cansativa ‘maratona’ com balde para encher a caixa d’água até bomba para retirar a água do mar, passando por um mecanismo caseiro de dupla filtragem instalado no banheiro até o velho e custoso caminhão-pipa. Os cariocas têm improvisado para matar a sede, cozinhar e manter a casa e a si próprio limpos.

Enquanto moradores da Região Metropolitana do Rio reclamam de falta d’água e de alterações no gosto e no odor da água que sai das bicas, o presidente da Cedae, Edes Oliveira, afirmou ontem, em entrevista à TV Globo, que bebe água de torneira em casa. Segundo ele, a concentração de geosmina — substância que se prolifera mais no calor e na presença de esgoto — detectada até agora é pequena, o que não representa dano à saúde.

— Eu bebo água da torneira. Eu confio plenamente nos técnicos da Cedae, na Estação de Tratamento do Guandu. Fui gerente do Guandu, sei o trabalho que se realiza lá. Para mim, na minha região, não está chegando água com gosto e odor. Vocês devem estar percebendo que algumas regiões estão reclamando e outras, não. Isso é muito da percepção. Porque cada um tem uma percepção olfativa diferente — alegou.

Mas a percepção dos moradores da Freguesia é a pior possível. O bairro, que consta como sendo endereço de Edes Oliveira, tem recebido água com cheiro e sabor fortes, características da geosmina.

— Sinceramente, duvido que o presidente da Cedae tome água direto da torneira. Só se for uma torneira com dupla filtragem — afirmou o empresário André Fonseca, diretor da Associação de Moradores da Freguesia (Amaf), e morador da Rua Comandante Rubens Silva. — Estamos com um problema crítico na Freguesia, não só da qualidade da água, mas da falta dela em algumas ruas. Desde a crise do ano passado, eu afirmo que a água nunca mais foi a mesma.

A Cedae não informou onde mora do presidente da estatal e, na vizinhança, ninguém soube informar. Síndico do prédio em que reside, Fonseca disse que sua mulher apresentou piora na sua rinite, no mês passado. Após seguir a sugestão do seu alergista de trocar a água encanada por água mineral, o quadro de saúde melhorou.

O analista de sistemas Alex Pereira, também morador da Freguesia, conta que seu filho percebeu a alteração no gosto da água muito antes das notícias nos jornais.

— Não temos condições de tomar água da torneira, o gosto de terra está absurdo. Até para escovar dente estou usando água filtrada — afirma Pereira, que compra pelo menos 12 garrafas de 1,5 litro por semana.

Outro morador da Rua Comandante Rubens Silva, o empresário Christian Mattos vem comprando um galão de 20 litros por semana. Além do cheiro ruim, que incomoda até no banho, ele relata problemas de falta d’água na região.

— Meu pai mora num condomínio próximo em que a falta de água é crítica. Aqui, nos primeiros dias de janeiro também faltou, e a toda hora precisamos avaliar a cisterna.

Três meses sem água

Enquanto as empresas se preparam para o leilão de concessão da Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae), os quase dez mil moradores de Pedra de Guaratiba não recebem uma gota de água há três meses. Cansada de insistir com a companhia para resolver o problema de abastecimento na sua casa, a comerciante Flávia Cristina Souza da Costa comprou uma bomba sapão e retira três vezes por semana água do mar para limpar a casa. O armazenamento é feito em três reservatórios.

— Eu não moro no alto, moro no baixo, e nem assim a água chega. Como manter uma casa suja com uma criança de 7 anos morando nela? São quatro pessoas que moram na minha residência. Então, tive que recorrer à bomba e ao mar — contou Flávia, mostrando a pilha de roupas à espera de lavagem.

Na região, é preciso pagar em torno de R$ 400 por 10 mil litros de água em caminhão-pipa. Quem não tem dinheiro se vira como dá. A ambulante Fátima dos Santos Costa, de 70 anos, mora no alto do bairro, onde caminhão não sobe, e abastece sua caixa d’água levando balde.

— A gente desce mais de 20 vezes por dia para buscar. É um sofrimento, porque usamos pelo menos 30 baldes pequenos. Às vezes, quando falta, não temos nem para beber — conta.

Cedae: 15 empresas interessadas em leilão

pesar do problema da geosmina e da falta de água enfrentada na Região Metropolitana, a concessão da Cedae já despertou interesse de 15 empresas. Nove agendaram visitas técnicas, que começaram semana passada e vão ocorrer nas instalações da companhia em 35 municípios. A entrega das propostas vai até 27 de abril. O leilão será dividido em 4 blocos, numa modelagem feita pelo BNDES, e a previsão é de investimentos de R$ 30 bilhões em 35 anos, com objetivo de quase universalizar coleta e tratamento de esgoto e o fornecimento de água.

Além das que já agendaram visita, declararam interesse as chinesas China Gezhouba, State Grid Brazil e China Communications Construction; a coreana GSI Inima; a brasileira Vinci Partners; e a Canadian Pension Plan Investment Board.