Com vacinação da Covid acelerada, Sérvia atrai turistas em busca de doses

PATRICIA PAMPLONA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com vacinas de cinco fabricantes diferentes e doses suficientes para seus quase 7 milhões de habitantes, a Sérvia tem se destacado com uma campanha de imunização contra a Covid-19 num continente em que vários países enfrentam dificuldades no fornecimento dos imunizantes. E isso com uma economia muito menor --o PIB per capita do país dos Balcãs corresponde a 21,2% do valor da União Europeia e a 17,5% do número do Reino Unido, líder na região. Os britânicos ocupam a primeira posição na quantidade de doses aplicadas a cada 100 habitantes na Europa, com uma taxa de 59, segundo dados do Our World in Data até esta quarta (14). Mas a Sérvia figura entre os seis primeiros no continente, com um índice de 42,3. O governo sérvio diz já ter garantido 15 milhões de doses --das quais já aplicou quase 2,7 milhões. E enquanto os europeus travam uma batalha para garantir que haja vacinas suficientes --a quantidade de doses distribuídas aos países membros da UE equivale a menos de um quarto da população do bloco--, os sérvios possuem um cardápio de escolha de cinco fabricantes, de diferentes países. Cabe a pessoa que vai receber a vacina escolher, em formulário disponível no site do governo, se prefere a da Pfizer/BioNtech, a Sputnik V, a da Moderna, a da Sinopharm ou da AstraZeneca. A abundância vem de uma decisão do presidente Aleksandar Vucic de não apostar em um só fornecedor. Ele comprou vacinas europeias, russas e chinesas e ainda assinou acordos para produzir as duas últimas no país. A variedade tem ajudado a lidar com o ceticismo da população quanto às vacinas. O país é um terreno fértil de teorias da conspiração --41,5% dos sérvios acreditam em alguma das histórias sem embasamento ligadas à Covid-19, segundo um estudo de outubro do ano passado do Biepag (Grupo Consultivo dos Balcãs na Europa, na sigla em inglês). Entre elas estão a de que o vírus foi desenvolvido em um laboratório chinês e a de que Bill Gates está usando a doença para forçar uma vacina com um microchip capaz de rastrear as pessoas. A pesquisa também mediu, antes de as doses estarem disponíveis, a aceitação às vacinas. Na Sérvia, cerca de 50% dos entrevistados disseram que certamente ou provavelmente não aceitariam ser imunizados. Segundo especialistas, a variedade disponível ajuda nessa questão. "Se as pessoas preferem as potências orientais, como China ou Rússia, ou as ocidentais, como a UE e os EUA, isso influencia na sua escolha de vacina", disse o professor associado na Faculdade de Ciências Políticas de Belgrado Milan Krstic ao jornal britânico The Guardian. Ainda assim, o país vê mais doses disponíveis do que cadastros para recebê-las, e há regiões com uma forte resistência, como em Novi Pazar, cidade de maioria muçulmana localizada em uma região rural a 267 km da capital. A taxa de vacinação está bem abaixo da média nacional, e apenas 8 doses haviam sido administradas a cada 100 habitantes no fim de março, segundo o Guardian. Sefadil Spahic, chefe do centro de saúde pública regional, disse à agência de notícias Reuters que fóruns online e rumores questionando a segurança e eficácia da vacina minaram a campanha de imunização na cidade. Ele relatou que há inclusive trabalhadores da área da saúde que dizem coisas negativas sobre as injeções. Além disso, o imã Muhamed Demirovic afirmou que alguns estudiosos islâmicos estavam relutantes em promover as vacinas. "Com base nas informações científicas e nos princípios da Sharia [lei islâmica], não estamos em posição de determinar ou dizer às pessoas se a vacinação é obrigatória ou está proibida", afirmou à Reuters. A hesitação levou a uma súplica do presidente sérvio para que a população se vacine. "Eu estou implorando a vocês, liguem para se vacinar", afirmou Vucic durante pronunciamento no mês de março. "Temos [as injeções] e teremos muito mais. Eu estou implorando a vocês como um deus, tomem." Enquanto os sérvios hesitam, milhares de estrangeiros têm visitado o país para serem imunizados. Como não há impedimentos para estrangeiros se vacinarem e o próprio formulário de cadastro do governo contempla não-sérvios e não-residentes, moradores de países vizinhos e de outros lugares da Europa têm ido para lá receber as injeções. Assim que soube que a Sérvia estava vacinando estrangeiros gratuitamente, Elma partiu de carro da vizinha Bósnia com a mãe e o irmão. Ao chegar, encontrou centenas de conterrâneos, assim como pessoas vindas de Montenegro, Albânia e Macedônia do Norte, todos atrás das doses. "Eu vim aqui porque as vacinas não vão chegar à Bósnia", afirmou ela, que não quis informar o sobrenome, à Reuters. "Eventualmente vão chegar, mas será muito tarde." Segundo a agência de notícias, a Sérvia tem doado vacinas para Bósnia, Montenegro e Macedônia do Norte desde janeiro. O psiquiatra alemão que mora na Suíça Daniel Bindernagel também aproveitou a vacinação sérvia. Ele viajou após se cadastrar no site do governo para receber o imunizante. "Eu tentei na Suíça e na Alemanha. Sou médico e não consegui." Elma e Daniel são dois entre milhares. O site de notícias árabe Al Jazeera publicou que, apenas no último fim de semana, 22 mil estrangeiros foram vacinados na Sérvia. A aplicação de tantas doses foi um movimento pragmático, já que havia entre 20 mil e 25 mil injeções da AstraZeneca que venceriam no início de abril, segundo afirmou a primeira-ministra Ana Brnabic. A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford tem sido fortemente rejeitada pelos sérvios --e sua reputação na Europa também enfrenta obstáculos. Enquanto vacina sua população, a Sérvia enfrenta uma alta de casos e mortes por coronavírus. Em dois meses, o país passou de uma média móvel de infecções de 1.670 para cerca de 4.000. As mortes seguiram o mesmo movimento, subindo de 14 no início de fevereiro para por volta de 40 no início de abril. Ivan Kostic, cirurgião na cidade de Cacak (141 km de Belgrado), afirmou à revista britânica The Economist que muitos sérvios não respeitam medidas de precaução, como uso de máscaras e evitar aglomerações, em especial quem já recebeu a primeira dose. Diferentemente de outros países europeus, não houve longos lockdowns adotados na Sérvia. E, apesar de hoje colher os louros de uma campanha de vacinação avançada, no ano passado o presidente enfrentou pressão popular por sua gestão da pandemia. As autoridades impuseram medidas rígidas de bloqueio nos estágios iniciais do surto, mas depois levantaram todas as restrições quando o país se aproximava da eleição parlamentar. Passado o pleito, o presidente reimpôs três dias de confinamento total em Belgrado, o que motivou a revolta popular em julho. Muitos acusaram o governo de fraudar os dados oficiais e minimizar o risco para realizar a eleição.