Combate ao coronavírus sela cooperação entre israelenses e palestinos

DANIELA KRESCH

TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) - Uma trégua improvável está sendo selada entre israelenses e palestinos, que estão colaborando para evitar o aumento da contaminação pelo novo coronavírus na Terra Santa.

Nas últimas três semanas, representantes dos dois lados têm se encontrado para combinar medidas em um escritório de monitoramento conjunto -cujo endereço é mantido em segredo.

"A saúde de todos os cidadãos da região está acima de tudo e é nossa principal prioridade. Continuaremos a agir em colaboração com a Autoridade Palestina, em um esforço conjunto", diz o major Yotam Shefer, chefe do departamento internacional da administração civil israelense na Cisjordânia.

Israel anunciou que enviará 20 toneladas de desinfetante para a Cisjordânia, além de 400 kits para diagnóstico do novo coronavírus e 500 kits de equipamentos de proteção para as equipes médicas e as forças de segurança palestinas.

Há workshops conjuntos entre equipes médicas dos dois lados. Também está sendo montado um hospital de campanha na fronteira de Israel com a Faixa de Gaza.

A mais recente medida foi o anúncio da permissão para que 70 mil trabalhadores palestinos cruzem a fronteira com Israel para manter seus empregos no país. A maioria trabalha em setores como construção civil, agricultura, indústria e serviços.

O número permitido durante a pandemia é um pouco menor do que o normal -100 mil palestinos costumam trabalhar diariamente em Israel. Mas a crise econômica causada pelo vírus já diminuiu os postos de trabalho.

A rotina também será diferente, porque esses trabalhadores palestinos não poderão voltar para casa no fim do dia -a fronteira com a Palestina será fechada nesta quinta-feira (19), com exceção da passagem de doentes e equipes médicas.

Os palestinos terão que permanecer em Israel por um ou dois meses e deverão ser hospedados pelos empregadores israelenses em residências temporárias.

Caso haja suspeita de contaminação pelo novo coronavírus, os empregadores precisam dar condições para que o trabalhador fique em quarentena por 14 dias. Se algum palestino adoecer e precisar ser hospitalizado, será atendido em hospitais locais.

A medida tem como objetivo manter a economia israelense parcialmente em funcionamento para evitar uma crise econômica mais profunda. As autoridades acreditam que 400 mil pessoas já perderam ou vão perder o emprego nas próximas semanas.

Israel contabiliza, até esta quarta-feira (18), cerca de 500 contaminados (cinco deles em estado grave). Não houve nenhuma morte atribuída à Covid-19.

Para tentar conter a disseminação do vírus, o governo proibiu reuniões com mais de dez pessoas e ordenou a manutenção de apenas 30% da força de trabalho em repartições públicas e empresas privadas. Lojas (com exceção de supermercados e farmácias) e todo o setor de entretenimento estão fechados.

O anúncio mais polêmico, no entanto, foi o da utilização de tecnologia avançada para rastrear os telefones celulares de pacientes com coronavírus e indivíduos suspeitos de estarem infectados. Até hoje, o sistema era usado apenas pelo Serviço de Segurança (Shin Bet).

O major Shefer elogiou os esforços dos palestinos para contar a epidemia na região. "Eles estão levando tudo a sério", afirmou, apontando medidas como a proibição das rezas em mesquitas e igrejas.

Os "muezim" (encarregados de anunciar em voz alta, do alto dos minaretes, o momento das preces) têm repetido as palavras "rezem em casa, rezem em casa". O vaivém de pessoas diminuiu drasticamente nas cidades palestinas, que mantêm apenas serviços básicos abertos.

Até esta quarta-feira, o Ministério da Saúde palestino havia registrado 44 doentes com Covid-19, a maioria (40) em Belém. A cidade foi colocada em quarentena e está fechada para turistas, assim como a Igreja da Natividade.

Israelenses e palestinos colaboraram para retirar mil estrangeiros da cidade.

Três infectados com o novo coronavírus são palestinos que voltaram do exterior pela ponte Allenby, na fronteira entre a Cisjordânia e a Jordânia. E há um caso de um trabalhador palestino de construção civil que teria sido contaminado pelo contato com um empreiteiro israelense.

A liderança do grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, proibiu a entrada e a saída no enclave, fechando a fronteira com o Egito.

Na Esplanada das Mesquitas (onde fica a sagrada mesquita de Al-Aqsa), em Jerusalém, as rezas ainda são realizadas. Mas líderes religiosos da Jordânia -que têm autoridade sobre a esplanada, apesar de ela ficar em Jerusalém- emitiram diversas orientações para que os fieis não fiquem próximos uns dos outros e para que rezem do lado de fora da mesquita, que tem sido constantemente esterilizada.

Segundo uma pesquisa do Instituto Truman para Paz da Universidade Hebraica de Jerusalém, 63% dos israelenses acreditam que Israel deve ajudar os palestinos durante a crise do novo coronavírus. "A maioria dos israelenses acredita que, quando houver necessidade, o governo deve traçar medidas preventivas para ajudar os palestinos durante a epidemia da Covid-19", disse Vered Vinitsky-Serousse, presidente do Instituto.