Combate ao PCC vira trunfo político de governos federal e estaduais

In this Sept. 14, 2017 photo, drug addicts chat next to a wall tagged with the acronym PCC for First Capital Command, Brazil’s most powerful criminal gang, in an area popularly known as "Crackland" in downtown Sao Paulo, Brazil.  These days, Brazil is among the world's largest markets for crack cocaine, and Crackland is its flagship outpost. (AP Photo/Nelson Antoine)
Fuga em massa envolveu e foi encabeçada por membros do PCC. (Foto: AP Photo/Nelson Antoine)

O combate a criminosos do PCC (Primeiro Comando da Capital) virou questão política e tem frutos disputados pelo governo Jair Bolsonaro e gestões estaduais.

A fuga de 75 criminosos da facção de uma prisão no Paraguai trouxe o assunto à tona novamente, e será um teste para o governo que vem propagandeando a segurança pública como um de seus trunfos. Conforme a bandeira anticorrupção do governo é afetada por escândalos, o foco para esta área tem aumentado.

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A fuga gerou manifestação do ministro da Justiça, Sergio Moro, sobre o assunto, fazendo alusão a transferências de presos para prisões federais."Estamos trabalhando junto com as forças estaduais para impedir a reentrada no Brasil dos criminosos que fugiram de prisão do Paraguai. Se voltarem ao Brasil, ganham passagem só de ida para presídio federal", escreveu Moro no Twitter.

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A fala tem como referência a transferência, em fevereiro do ano passado, do líder do PCC, Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola, mais 21 integrantes, de penitenciárias paulistas para presídios federais.

Embora fosse uma demanda antiga da Promotoria e uma ordem da Justiça, a transferência foi capitalizada tanto pelo governo federal quanto pelo governo paulista de João Doria (PSDB).

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya afirmou que ambas as esferas, no entanto, só forneceram a logística para a realização da transferências e, no caso do governo federal, as vagas nas prisões.

Operações da Polícia Federal, porém, têm mirado o PCC.

Clothes are seen in a tunnel entrance at Pedro Juan Caballero city jail in Paraguay, Sunday, Jan. 19, 2020. Dozens of inmates escaped from this prison early morning, mostly of Brazil's criminal group PCC, "Capital First Command." (AP Photo/Marciano Candia)
Roupas deixadas no túnel utilizado pela fuga em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. (Foto: AP Photo/Marciano Candia)

Em agosto do ano passado, a Operação Cravada, da Polícia Federal junto dos governos do Paraná e São Paulo, mirou o núcleo financeiro do PCC e prendeu mais de 20 pessoas. Segundo as investigações, o grupo era responsável por recolher, gerenciais e financiar recursos para cometer crimes em sete estados. Mais de 400 contas bancárias de suspeitos foram identificadas e bloqueadas.

Durante as investigações da operação, a Polícia Federal interceptou uma ligação em que um integrante da facção, Alexsandro Roberto Pereira (conhecido como Elias), diz temer as atitudes do atual governo contra o grupo.

"Esse Moro aí, esse cara é um filha da puta, mano. Ele veio para atrasar. Ele começou a atrasar quando foi pra cima do PT".

Elias afirmou na mesma conversa que a facção tinha um "diálogo cabuloso" com o PT. Segundo investigadores ouvidos pela Folha de S.Paulo, no entanto, o criminoso é pouco expressivo na facção e não tem cargo de relevo.

No ano passado, uma parceria da PF com a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas expediu 110 mandados de prisão contra integrantes da facção em oito estados, e prendeu mais de 80 pessoas. O alvo era o chamado "tribunal do crime", operações de justiçamento em que bandidos são punidos (por vezes mortor) por descumprirem as regras da facção.

ORIGENS

Para o pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a fuga no Paraguai é uma espécie de revisita ao que a facção fazia nos anos 1990 em São Paulo.

"O lema do PCC é 'paz, justiça e liberdade'. A fuga sempre foi ponto de honra. Essas fugas aconteciam muito aqui em São Paulo no começo dos anos 1990, com tecnologia de túneis. Depois a inteligência mudou para outras áreas, como assalto a banco. Com os presídios de segurança máxima [no Brasil], isso ficou mais difícil", diz ele."

Paes Manso é um dos autores do livro "A Guerra: a Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil". Ele diz que a chegada da facção no Paraguai, a partir de 2008, mudou a dinâmica do crime na região, que tinha até então uma relação mais orgânica. O pesquisador cita Jorge Rafaat Toumani, um dos traficantes mais famosos de Pedro Juan Caballero morto pelo PCC em 2016. "Era uma espécie de governador local", diz.

"Quando o PCC chega e tem uma postura de confronto, como é no Brasil, isso tem um impacto grande, porque o Paraguai não estava preparado para lidar com isso. E aí o PCC acabou tendo essa brecha para voltar a trabalhar como fazia nos primórdios dos anos 1990, em São Paulo."

"Chegam num país onde não há todo esse aparato de repressão e violência, tanto das quadrilhas quanto da polícia, e agitam a região. O próprio assassinato do Rafaat foi traumático para o país. E a presença do PCC nas prisões tem causado uma turbulência na política."

da FolhaPress