Ucrânia intensifica contraofensiva e pede que AIEA evite desastre nuclear

A Ucrânia continuou sua contraofensiva militar contra as forças russas no sul, nesta terça-feira (30), e pediu aos inspetores da ONU que "façam todo o possível" para evitar uma catástrofe na usina nuclear de Zaporizhzhia, ocupada por tropas de Moscou.

Fortes explosões foram registradas na madrugada desta terça-feira na região de Kherson, uma cidade tomada pelos russos pouco após o início da invasão, no final de fevereiro. "Praticamente a totalidade" da área se tornou um cenário de confrontos intensos, indicou a Presidência ucraniana.

Em Kiev, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, recebeu os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que preparam uma missão para a central de Zaporizhzhia, que russos e ucranianos se acusam mutuamente de bombardear há semanas.

Diante dos inspetores, liderados pelo diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, Zelensky pediu à comunidade internacional que busque um acordo para "uma desmilitarização imediata" da central nuclear", a maior da Europa, ocupada pelas tropas russas desde março.

De acordo com Zelensky, o acordo deve incluir "a retirada de todos os militares russos com todos os explosivos e todas suas armas" e a recuperação plena do controle ucraniano da usina.

- "Fortes ataques de artilharia" -

Em Bereznehuvate, uma cidade 70 km ao norte de Kherson, a AFP testemunhou um fluxo constante de blindados ucranianos, em meio a fogo de artilharia nas proximidades.

"Acertamos eles com força", gaba-se Víctor, um soldado de infantaria de 60 anos.

Seu comandante, Oleksandre, veterano soviético da guerra do Afeganistão (1979-1989), prevê que a reconquista de Kherson será "longa e complicada".

A contraofensiva, que começou na segunda-feira, permitiu a destruição de "um certo número de depósitos de munição russos" e "todas as grandes pontes" que permitem às pessoas atravessar o rio Dnieper de carro, disse a Presidência ucraniana.

Desse modo, a Ucrânia espera cortar os canais de suprimento desde a península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.

De acordo com o Ministério da Defesa britânico, "a maioria das unidades [russas] ao redor de Kherson provavelmente está com falta de pessoal e depende de um fornecimento frágil por balsas e pontes flutuantes".

A Rússia disse esperar que a inspeção seja realizada efetivamente.

A operadora das usinas nucleares ucranianas, Energoatom, denunciou que os soldados russos "pressionam os funcionários da usina para impedi-los de revelar evidências dos crimes do ocupante".

- Bombardeios em Kharkiv -

A Rússia afirmou na segunda-feira ter repelido várias "tentativas ofensivas" ucranianas na região de Kherson e em Mikolaiv, mais a oeste.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que a contraofensiva da Ucrânia "fracassou" e provocou "muitas baixas" para as tropas de Kiev, cerca de 1.200 em um dia.

O Comando Sul do exército ucraniano disse que os russos dispararam 16 mísseis antiaéreos S-300 contra Mikolaiv na segunda-feira, causando danos "significativos" e deixando dois mortos e 24 civis feridos.

Nenhuma dessas informações pôde ser verificada com uma fonte independente.

De qualquer forma, o bombardeio russo não parou ao longo da linha de frente, que se estende do nordeste ao sul da Ucrânia.

No centro de Kharkov, a segunda maior cidade do país (no nordeste), pelo menos cinco pessoas foram mortas em um bombardeio russo, segundo autoridades locais.

Os ministros da Defesa da União Europeia (UE) concordaram nesta terça-feira, em Praga, em iniciar os trabalhos preparatórios para o treinamento de soldados ucranianos pelos países do bloco.

- A arma do gás russo -

O conflito continua impactando o mercado de energia e as cadeias de fornecimento de grãos.

A gigante russa Gazprom anunciou um novo corte de abastecimento de três dias através do gasoduto Nord Stream, que transporta o fluido para a Alemanha, de onde é distribuído para outros países europeus.

A Gazprom citou "necessidades" de operações de manutenção, que devem ser realizadas "a cada mil horas".

O diretor da Agência Alemã de Redes de Energia, Klaus Müller, considerou que essas obras são "incompreensíveis do ponto de vista técnico".

Segundo Müller, a Rússia "toma uma decisão política após cada suposto 'trabalho de manutenção'" de seus gasodutos, cujo objetivo, segundo ele, é acentuar a pressão sobre os aliados da Ucrânia.

À noite, a Gazprom anunciou a suspensão a partir de quinta-feira do fornecimento de gás à empresa francesa Engie, por não ter pago as entregas de julho.

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