Começa na França o terceiro julgamento de 'Carlos, o Chacal' por atentado de 1974

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O venuelano Ilich Ramírez Sánchez em 9 de dezembro de 2013 em tribunal de Paris (AFP/Bertrand Guay)

O venezuelano Ilich Ramírez Sánchez, conhecido como "Carlos, o Chacal", compareceu nesta quarta-feira (22) ao tribunal de Paris, que deve determinar a pena pela sua responsabilidade no atentado a uma galeria comercial em 1974, deixando dois mortos e 34 feridos.

Este julgamento representa "a última rodada judicial" para um "veterano do terrorismo" e "um velho conhecido da Justiça francesa", nas palavras do jornal Le Parisien e sobre quem já pesam duas prisões perpétuas por outros crimes.

Sua chegada ao banco dos réus nesta quarta comprovou a experiência diante dos tribunais desta figura da luta armada "anti-imperialista" dos anos 1970-1980 e na prisão na França desde sua detenção em 1994 no Sudão.

O homem de 71 anos, vestido com jaqueta escura e com a máscara debaixo do nariz, cumprimentou sorridente seus advogados e outros conhecidos na sala. Nas mãos, o acusado levava um livro sobre ele mesmo.

Quando o presidente do tribunal pediu que confirmasse sua identidade, profissão e endereço, ele respondeu: "Estou de férias forçadas há 27 anos e meio". Também denunciou a revista de sua roupa por parte dos policiais.

No caso do atentado promovido há 47 anos no centro de Paris, a Justiça já confirmou sua culpa, mas em novembro de 2019 o Tribunal de Cassação ordenou a revisão da pena imposta, uma terceira prisão perpétua.

Em apelação, este ex-membro do Frente Popular para a Libertação da Palestina foi declarado culpado dos assassinatos e tentativas de assassinato por "efeito de uma potência explosiva" e por transportar "um dispositivo explosivo sem motivo legítimo".

No entanto, o Tribunal de Cassação considerou que o transporte da granada era "uma operação preliminar necessária para cometer os outros crimes" e estimou que ele havia sido condenado duas vezes pelo mesmo fato.

- "Preso político" -

Depois de criticar uma "arqueologia judicial" neste caso, "um dos mais antigos em julgamento" na França, sua advogada Isabelle Coutant-Peyre pediu, no primeiro dia do julgamento, a anulação da acusação de transporte de artefato explosivo.

No entanto, seguindo a opinião do promotor e após um recesso, o presidente do tribunal rejeitou a demanda, ao defender que os fatos já foram julgados e agora deve-se estabelecer a pena, com base no contexto da infração e de sua personalidade.

Para isso, os sete magistrados começaram a interrogar as testemunhas. Um psiquiatra que o examinou em 2013 e em 2021 afirmou que o acuasdo não apresenta nenhum tipo de transtorno mental e que se apresenta como um "preso político em um ambiente hostil".

O jornalista interrogado defendeu essa ideia e destacou o início de sua atividade na Venezuela, onde nasceu e foi criado em uma família politizada. "Para afastá-lo dos movimentos revolucionários", seus pais decidiram tirá-lo de lá.

Sua companheira no momento do atentado afirmou que ele não era uma pessoa violenta. "Não o via como uma pessoa capaz de fazer isso", disse a mulher de 74 anos, que passou seis meses em prisão preventiva por esses fatos e que tentou "se esquecer" para poder seguir em frente.

O ataque na Drugstore Publicis aconteceu em 15 de setembro de 1974, na capital francesa. Por volta das 17h10, uma granada em um restaurante localizado no andar de cima explodiu no térreo da então popular galeria comercial.

Para a acusação, o atentado buscava facilitar a libertação de um japonês detido em Orly, membro do Exército Vermelho japonês, um grupo armado de extrema esquerda que, simultaneamente, sequestrou reféns na embaixada francesa em Haia.

Na ausência de amostras de DNA e de uma confissão, o venezuelano foi condenado por uma série de acusações, entre elas o depoimento de um ex-companheiro de armas arrependido, o alemão Hans-Joachim Klein.

Segundo a investigação, a granada usada na Drugstore procedia do mesmo lote roubado de uma base militar na Alemanha, assim como algumas encontradas na casa da amante de Carlos e abandonadas na tomada de reféns em Haia.

O julgamento contra Carlos "O Chacal", que negou ter dado uma entrevista em 1979 à revista El Watan Al Arabi na qual reconhecia esta ação, deve durar até sexta-feira (24).

Ramírez Sánchez já foi condenado duas vezes à prisão perpétua por um assassinato triplo em 1975 em Paris e quatro atentados com bomba cometidos na França em 1982 e 1983 (11 mortos e 191 feridos).

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