Milhares marcham em Washington pela ciência e contra 'fatos alternativos'

Por Jean-Louis SANTINI
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Participantes da marcha pela ciência em Nova York, em 22 de abril de 2017

Na esteira de um grande número de marchas pela ciência no mundo todo, milhares de pessoas se reuniram neste sábado (22) pela manhã, em Washington, para defender a pesquisa científica, que consideram ameaçada pelo governo de Donald Trump.

Dezenas de cientistas discursaram, como Nancy Roman, responsável pelos programas de astronomia da Nasa, e grupos musicais se apresentaram durante cinco horas sobre uma tribuna instalada na esplanada do National Mall, em frente à Casa Branca.

Depois, começou uma marcha para o Capitólio, sede do Congresso americano, na qual a maioria dos manifestantes carregava cartazes com mensagens como "Ciência, não ideologia", ou "Os fatos científicos são os que contam".

Outras cidades americanas, como Nova York e Los Angeles, registraram mobilizações semelhantes, e mais de 500 marchas foram realizadas no mundo todo.

Trump reagiu em um comunicado publicado pela Casa Branca neste sábado: "Uma ciência rigorosa é essencial para os esforços de uma administração para cumprir o duplo objetivo de crescimento econômico e proteção ambiental".

"Minha administração está vinculada ao avanço da pesquisa científica, que permite uma melhor compreensão do nosso meio ambiente e dos riscos ambientais", acrescenta o comunicado, publicado minutos depois de a limusine presidencial cruzar com os manifestantes em Washington.

Pouco depois de assumir a presidência, Trump assinou decretos para revogar regulações ambientais promovidas por seu predecessor democrata, Barack Obama, e nomeou o cético do clima Scott Pruitt para a direção da Agência de Proteção Ambiental (EPA).

"Estou preocupada com a retórica anticiência dessa administração e com sua falta de conhecimento científico", diz à AFP a bioquímica Kathy Ellwood, que participava da marcha.

- A ciência ameaçada -

Kara Lukin, de 45 anos, professora de imunologia da Universidade Western Governors, espera "que esta marcha represente o início de uma mudança nos Estados Unidos, onde a ciência e a educação foram desvalorizadas nos últimos anos".

Esses cientistas ecoam as afirmações de Rush Holt, presidente da Associação Americana pelo Avanço da Ciência (AAAS), a maior organização científica do mundo, com 120.000 membros.

Na quinta-feira, Holt disse que "os pesquisadores percebem cada vez mais que os fatos científicos são ignorados com frequência nos debates públicos e substituídos por opiniões e crenças ideológicas".

Esse fenômeno apareceu há várias décadas e se agravou recentemente, segundo esse cientista nuclear e ex-deputado, que aponta que o orçamento geral de pesquisa representa hoje menos da metade que nos anos 1960, em porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB).

Ao longo da campanha, Trump defendeu que as mudanças climáticas eram "um mito" e prometeu tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, o qual prevê a redução de emissões de gases de efeito estufa. Essa decisão continua sendo debatida por seus conselheiros.

Seu primeiro projeto de orçamento propõe uma redução de 31% dos fundos destinados à EPA e cortes nas subvenções aos institutos nacionais de saúde.

A ideia da marcha pela ciência nasceu no dia seguinte da posse de Trump, quando foram organizadas em todos os Estados Unidos e em outros países marchas das mulheres em defesa dos direitos cívicos, que mobilizaram mais de dois milhões de pessoas.

- "Fatos alternativos" -

Em Londres, centenas de pessoas marcharam do Museu da Ciência até o Parlamento, com cartazes com mensagens como "A ciência é sexy" e "Menos invasões, mais equações".

A marcha contou com a presença do ator Peter Capaldi, que interpreta o personagem do "doctor Who" na série televisiva homônima, um cientista que viaja no tempo.

Em Gana, cientistas ofereceram uma palestra em um hotel de Acra sobre temas ambientais de interesse local, como o impacto de resíduos plásticos no meio ambiente.

"Estão matando nossos peixes. Temos inundações nas nossas comunidades, temos um aumento das doenças ambientais", disse Cordie Aziz, ativista americano especializado em reciclagem de plásticos.

Em Sidney, os manifestantes marcharam com jalecos de laboratório brancos.

"Precisamos de pensadores", dizia um cartaz.

Houve também concentrações em outras cidades australianas e em Wellington e Auckland, na Nova Zelândia.

"Hoje em dia há muitas notícias falsas e 'fatos alternativos' circulando e é importante recordar que a ciência é o que construiu a sociedade que conhecemos", disse à AFP Parissa Zand, que estava na marcha de Sidney com sua mãe, que é bióloga.

No Twitter, circularam fotos de marchas em Helsinki, Munique, Bonn, Estocolmo e outras cidades europeias.

Em Paris, manifestantes exibiam um cartaz com a legenda: "Somos a resistência à ameaça laranja em Washington! Defenda a ciência!".

Outras manifestações foram realizadas, ou estavam programadas para ocorrer, no Brasil, Canadá, Japão, México, Nepal, Nigéria e Coreia do Sul.