Comemoração por Oscar de 'Parasita' une partidos de oposição, fãs de k-pop e cineastas da Coreia do Sul

Thiago Mattos Moreira e Tiago Canario

SEUL — Melhor Filme, melhor Diretor, melhor Filme Internacional e melhor Roteiro Original. Foi assim, com quatro vitórias para seis indicações recebidas, que Bong Joon-Ho fez história no Oscar com seu "Parasita", na noite deste domingo. Um momento marcante não apenas para o cinema coreano, pela primeira vez indicado e premiado nessas categorias, mas também de rara celebração mundial uma obra: desde 1955, com "Marty", um filme não recebia os prêmios principais em Cannes e no Oscar. E o resultado, como esperado, teve grande repercussão no país asiático.

Sem polarização

Apesar de tratar de forma caricata — e profundamente crítica — aspectos menos invejáveis da sociedade sul-coreana, como a desigualdade social, o sucesso foi recebido com alegria no país. O presidente Moon Jae-in celebrou a vitória pelo Twitter com uma menção ao centenário do cinema coreano, ocorrido ano passado: “Estou muito feliz que os filmes sul-coreanos possam começar novos 100 anos em pé de igualdade com o melhor do cinema mundial". O principal partido de oposição, o conservador Jayu Hanguk Dang, emitiu nota oficial dizendo que a notícia era “bem-vinda como a chuva na seca”, para um país “deprimido, estagnado e desesperado” com o pânico pelo coronavírus.

Park Chan-wook, um dos primeiro cineastas sul-coreanos a chamar a atenção no exterior, com filmes como "Oldboy" (2003) e "A Criada" (2017), conhecido no país pela rivalidade com Joon-ho, também elogiou o colega: “uma enorme bênção trabalhar na mesma indústria que uma pessoa tão talentosa quanto Bong e poder chamá-lo de amigo”, disse em entrevista ao jornal "Munhwa Ilbo".

O tom na imprensa local foi de exaltação. O jornal "Don-a Ilbo" repercutiu a aclamação pela mídia internacional com a manchete “Por um evento maior… Hollywood acende a chama do progresso”. Já o "Chosun" destacou como o desempenho de "Parasita" reescrevia, a cada estatueta anunciada, a história do cinema coreano — e, com o anúncio do Melhor Filme, reescreveu a própria história do Oscar, que pela primeira vez premiou uma obra não produzida em inglês.

O reconhecido jornal liberal "Kyunghyang" comemorou a vitória, pontuando a falta de diversidade nas indicações, onde prevalecem diretores homens, anglófonos e brancos. "Parasita", assim, foi celebrado também pela capacidade de quebrar a barreiras culturais e triunfar sobre os concorrentes.

Esperança para o k-pop

Na Universidade Yonsei, uma das mais prestigiosas da Coreia do Sul, os membros de um clube de cinema co-fundado por Bong Joon-ho há mais de 20 anos, quando ele cursava sociologia, reuniram-se para assistir à premiação e celebrar as vitórias. “Uma honra para todos os coreanos!”, comemoraram.

Mesmo os fãs de K-pop celebraram a conquista de “Parasita” como se fosse sua. Para os amantes da cultura pop coreana, que cresce como uma febre global, a vitória do filme simboliza o reconhecimento do movimento entre o público internacional, confrontando principalmente o domínio cultural dos Estados Unidos.

Se o cinema sul-coreano conseguiu pela primeira vez triunfar sobre suas fortes barreiras protecionistas, fãs de K-pop em todo o mundo vibravam na expectativa de que seus grupos favoritos consigam o mesmo. Apesar de quebrarem recordes de execuções e vendas de ingressos para shows, as bandas de K-pop seguem esnobadas pelas principais premiações internacionais, como o Grammy. Agora, cresce a esperança de que a vitória do Oscar seja uma nova porta de entrada para o mercado ocidental.

* Thiago Mattos Moreira é especialista em Ásia, Mestre em Relações Internacionais pela UERJ e em políticas públicas pelo Korean Development Institute (KDI)

* Tiago Canario, jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA) e doutorando em Cultura Visual (Korea University).