Comentarista de TV atribui sucesso da Alemanha ao Holocausto: "É só assaltar todos os judeus que o Brasil enriquece também"

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Chairman of Yad Vashem Holocaust Museum Dani Dayan (L) presents German Chancellor Angela Merkel (R) with a painting depicting the Biblical scene from the book of Deuteronomy (32:49) with a verse reading in Hebrew, English, and French
Em outubro de 2021, Angela Merkel esteve no museu do Holocausto em Jerusalém, o Yad Vashem, onde foi recebida pelo presidente do local, Dani Dayan (Foto: COHEN-MAGEN/AFP via Getty Images)
  • Comentarista José Carlos Bernardi ironizou sucesso econômico da Alemanha e afirmou que país teve sucesso após assaltar e matar "todos os judeus"

  • Bernardi também fez comentários islamofóbicos, acusando, sem provas, muçulmanos de estuprarem mulheres alemãs

  • A chamada "solução final", que determinou a morte sistemática de judeus em territórios conquistados pela Alemanha nazista, foi decretado em 1942 e durou até o fim da guerra, em 1945

O comentarista da Jovem Pan News José Carlos Bernardi chamou atenção nas redes sociais após associar o sucesso econômico da Alemanha com o Holocausto, quando foram assassinados cerca de 6 milhões de judeus e 10 milhões de pessoas no total. 

Em uma discussão com a comentarista Amanda Klein, Bernardi criticou a chanceler alemã Angela Merkel e a chamou de "globalista" - termo comum entre os seguidores de Olavo de Carvalho - e acusou países europeus de estarem tentando interferir na soberania da Amazônia, argumento já usado previamente pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

Amanda Klein, então, respondeu: "Quem dera o Brasil chegar aos pés do desenvolvimento econômico da Alemanha", e ressaltou a igualdade social no país. 

O colega de emissora associou o sucesso econômico do país ao Holocausto. "É só assaltar todos os judeus que a gente consegue chegar lá. Se a gente matar um monte de judeus e se apropriar do pode econômicos dos judeus, o Brasil enriquece. Foi o que aconteceu com a Alemanha pós-guerra", declarou José Carlos Bernardi. 

O comentarista foi criticado por Amanda, que chamou as ideias dele de "reacionárias, obscurantistas e erradas", e também nas redes sociais, por disseminar acusações falsas, sem relação direta. Bernardi, então, se defendeu. 

"O pessoal precisa aprender a interpretar texto. Ouvem palavras soltas e tiram conclusões erradas. Volta a gravação e ouça novamente", declarou. 

Além da fala contraditória sobre a Alemanha, o comentarista também fez comentários islamofóbicos. Bernardi criticou Angela Merkel por "abrir as portas para o mundo árabe" e, sem problemas, acusou muçulmanos de estarem "estuprando mulheres alemãs em praça pública". 

Alemanha paga pensões até hoje

O período nazista na Alemanha durou de 1933, quando Adolf Hitler chegou ao poder, até 1945, quando foi libertado o campo de Auschwitz. A solução final, implementada em 1942, foi a institucionalização da morte sistemática de judeus que viviam nos territórios conquistamos pela Alemanha nazista. 

Ainda hoje, o país paga pensões para sobreviventes do Holocausto. Segundo dados divulgados pela Deutch Welle em 2019, desde 1952, o governo alemão pagou mais de 80 bilhões de dólares em pensões e pagamentos de assistência social a judeus que sofreram sob o regime nazista. Há dois anos, o benefício passou a ser pago também para os cônjuges de sobreviventes, após a morte destes. Em 2021, envolvidos no cerco de Leningrado também começaram a ser beneficiados, adicionando 6,5 mil pessoas aos pagamentos feitos pela Alemanha. 

Visita de Angela Merkel a Israel

Em outubro de 2021, Angela Merkel esteve em Israel, onde visitou o museu do Holocausto em Jerusalém o Yad Vashem. Ela recebeu uma homenagem do presidente do museu, Dani Dayan. "Toda visita ao Yad Vashem toca meu coração", disse na ocasião. "Os crimes contra judeus documentados aqui são uma permanente lembrança da responsabilidade que nós alemães carregamos - e também um aviso."

Críticas por parte da Confederação Israelita

A Confederação Israelita do Brasil (Conib) repudiou a fala do comentarista. Em nota oficial, a entidade afirmou que " forma como essa narrativa foi colocada à imensa audiência da JP gerou justificada consternação e revolta na comunidade judaica. Em atenção ao nosso compromisso de zelar pela memória e dignidade das vítimas do Holocausto e de seus descendentes, entendemos ser de fundamental importância alertar aos formadores de opinião que a comparação de situações contemporâneas com os horrores do Nazismo e do Holocausto, para qualquer finalidade, é extremamente dolorosa ao povo judeu".

"O Holocausto foi um ato sem paralelo na história humana e representa o capítulo mais trágico da história do nosso povo, que culminou no extermínio cruel de 6 milhões de judeus indefesos, dentre os quais 1.5 milhões de crianças judias. A preservação dessa memória é fundamental para que horrores como aqueles não se repitam e é uma das prioridades das comunidades judaicas em todo o mundo. Nesse sentido, informamos que temos como slogan da nossa luta e permanente campanha as palavras 'Não compare o incomparável', que traduzem a gravidade do assunto."

O que dizem o comentarista e a Jovem Pan

O tuíte inicialmente publicado pelo comentarista José Carlos Bernadi foi apagado. Mais tarde, ele divulgou uma nota oficial, em conjunto com a Jovem Pan, pedindo desculpas e alegando ter sido "mal entendido". 

"Por meio desta nota, o jornalista José Carlos Bernardi pede desculpas após posicionamento feito no Jornal da Manhã, transmitido em 16/11/2021, em uma discussão com a comentarista Amanda Klein. 'Peço desculpas pelo comentário infeliz que fiz hoje no Jornal da Manhã, primeira edição, ao usar um triste fato histórico para comparar as economias brasileira e alemã. Fui mal-entendido. Não foi minha intenção ofender a ninguém, a nenhuma comunidade, é só ver o contexto do raciocínio. Mas, de qualquer forma, não quero que sobrem dúvidas sobre o meu respeito ao povo judeus e que, reitero, tudo não passa de um mal-entendido. Obrigado', diz José Carlos Bernardi. O grupo Jovem Pan reforça que as visões de seus comentaristas não refletem necessariamente a opinião da empresa."

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