Comércio de jegue para China aumenta em meio a risco de extinção

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  • Vendas de jegue para China aumentam, mas vendas podem acelerar extinção;

  • Abate de jegue aumentou para produção de remédio na China;

  • Negócio de exportação de jegues é bilionário;

Uma atividade polêmica no Nordeste brasileiro está se tornando cada vez mais comum e começando a se tornar pilar econômico de algumas cidades na região: o abate de jegues para produção de remédio na China. Segundo reportagem investigativa da BBC, em Amargosa, cidade do centro-sul da Bahia, funciona o Frinordeste, o principal frigorífico de abate de jumentos do país, cuja planta industrial pertence à JBS, mas foi arrendado por dois cidadãos chineses e um brasileiro. 

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De acordo com reportagem da BBC, os animais são mortos com tiro de ar comprimido entre os olhos. Posteriormente, o couro é retirado e enviado para a China, onde é transformado em uma gelatina que é usada para produzir o ejiao, um produto medicinal bastante popular e lucrativo. A carne, normalmente é separada e exportada para o Vietnã, de acordo com a mídia. Neste frigorífico, cerca de 1,2 mil animais são abatidos todas as semanas para posterior exportação ao país asiático.

Negócio do comércio de jegue é bilionário, mas traz riscos

O negócio movimenta bilhões por ano, por exemplo, uma peça de couro pode ser vendida na China por até US$ 4 mil (cerca de R$ 22,6 mil), enquanto uma caixa de ejiao sai por R$ 750. No Brasil, os valores do comércio são bem menores: jumentos são negociados por R$ 20 no sertão, e depois repassados aos chineses, de acordo com a BBC Brasil.

Devido ao preço barato, o país começou a ser mirado por empresários chineses que trabalham com o medicamento e progressivamente aumentam a atividade na região. Entre 2010 e 2014, o Brasil abateu 1 mil jumentos, já entre 2015 e 2019, foram 91,6 mil. Hoje, esse número é maior. Apenas em Amargosa, são 4,8 mil animais por mês, totalizando 57,6 mil por ano.

Segundo o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT), o setor é o terceiro maior empregador da cidade, atrás só da própria prefeitura e de uma fábrica de sapatos. Essa importância foi o principal argumento da cidade ao entrar na Justiça para tentar liberar o abate, que havia sido suspenso após denúncias de maus-tratos, em 2018. 

Na época, quem decidiu o caso foi Kassio Nunes Marques, hoje ministro do STF e à época, desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Em decisão de pouco mais de duas páginas, Nunes Marques concordou que a liminar da Justiça baiana que suspendeu o setor prejudicava a economia da Bahia, de acordo com a BBC Brasil.

Três vezes por semana, cerca de 400 jumentos chegam ao Frinordeste em caminhões fechados, 50 por veículo. Funcionários, que ganham em média R$ 1.300, relatam que, diante do calor, de viagens de até 500 km e da condição física debilitada, animais chegam a desembarcar na empresa machucados ou até mortos. Os animais são recolhidos em vários pontos do Nordeste, como nos arredores de cidades. Eles são pegos ou comercializados por agricultores pobres que trabalham no setor para fugir da fome, sob a supervisão de fazendeiros.

O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia (CRMV/BA) acredita que, sem uma cadeia produtiva, o ritmo dos abates e a demanda chinesa pelo ejiao podem praticamente dizimar a população de jumentos no Nordeste em poucos anos, diagnóstico compartilhado também por entidades de defesa dos animais da região.

(Com informações da BBC Brasil e da agência Sputnik)

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