Comida boa no lixo: o desperdício que poderia alimentar milhares de famílias

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Na semana que marca o Dia Mundial da Alimentação — celebrado dia 16 de outubro —, o Yahoo Finanças inicia uma série de vídeos de receitas que trazem muito mais do que apenas um prato: trazem todo o ato político que há em comê-lo. "Comer: Ato Político" é apresentada pelo chef e gastrólogo Zeh Barreto, que comanda a cozinha com receitas prática e dicas preciosas para você economizar e melhorar a qualidade da sua alimentação e bem-estar. Até sábado (23), O Yahoo publicará seis episódios diários com os temas: Inflação dos alimentos; Vegetarianismo; Alimentos ultraprocessados; Dicas para evitar o desperdício; Como reduzir o delivery; e Como fazer o descarte correto.

Acompanhem!

por Ethieny Karen e Thalya Godoy

Cerca de 40% dos produtos cultivados a nível mundial não são consumidos, sendo o desperdício correspondente a 10% dos gases causadores do efeito estufa que provocam o aquecimento global, alerta o Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

No Brasil, das 140 milhões toneladas de alimentos produzidos, 26 milhões são jogados no lixo, segundo dados da Embrapa. São alimentos descartados durante toda a cadeia do plantio até o prato dos brasileiros.

Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta que em 2019, 931 milhões de toneladas de alimentos vendidos aos varejistas, restaurantes, famílias e outros serviços foram desperdiçados.

Segundo o PNUMA, do total de 211,7 milhões de pessoas, 116,8 milhões sofrem com algum grau de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave). 

Um grande paradoxo brasileiro: 26 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados, enquanto 19 milhões convivem com a fome. (Ethieny Karen/Yahoo Finanças)
Um grande paradoxo brasileiro: 26 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados, enquanto 19 milhões convivem com a fome. (Ethieny Karen/Yahoo Finanças)

Destes, 43,4 milhões não contavam com alimentos suficientes para atender suas necessidades, se alimentando uma ou duas vezes por dia e cerca de 19 milhões de brasileiros convivem e enfrentam a fome.

Um estudo realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), aponta os principais fatores que levam aos altos índices de desperdício no Brasil. Sendo os principais os problemas nos equipamentos de transporte, armazenamento, exibição dos alimentos, padrões rígidos de aparência e manuseio incorreto dos alimentos.

Camila Moraes, autora da pesquisa e professora, aponta que a cultura brasileira em relação ao manuseio desses alimentos auxilia no alto indíce.

“A gente quer ver no supermercado aquela gôndola cheia de batatas e cenouras, queremos tocar, amassar o alimento e não levar ele. Quando você vai comer na casa de alguém é comum ouvir ‘melhor faltar do que sobrar’. Não temos planejamento de compras, gostamos das coisas em abundância. Mesmo sendo um país que voltou para o mapa da fome, a gente joga muita comida fora”.

O que é e de onde vem o desperdício

De acordo com os resultados do estudo realizado pela ONU, “Índice de Desperdício de Alimentos 2021” a maior parte do desperdício dos alimentos, cerca de 61%, vem das famílias.

O desperdício inclui alimentos como frutas que passaram do tempo e não foram utilizadas, comidas que vão para o lixo depois de preparadas e que alguém colocou no prato e não quis comer, a alimentos processados que ficaram no armário tempo demais e mofaram.

As outras causas de desperdício estão no setor de serviço de alimentos (26%), como restaurantes, hotéis ou estabelecimentos de ensino e 13% vêm do comércio, como supermercados ou pequenas lojas. Esse desperdício, segundo o estudo, sugere que 8 a 10% de emissões globais de gases de efeito estufa está associado a esses alimentos que foram para o lixo.

Luiz Guilherme, 37 anos, é gestor público e aproveita bem todos os alimentos evitando o desperdício e economizando dinheiro. Ele utiliza principalmente frutas, legumes e verduras para fazer outros pratos, usando até a casca.

Frutas, hortaliças e vegetais não vendidos são colocados em sacolas e jogados no lixo ao fim do dia.
Frutas, hortaliças e vegetais não vendidos são colocados em sacolas e jogados no lixo ao fim do dia. (Foto: Getty Images)

“A economia é gigante com esse aproveitamento integral dos alimentos. Esse é um termo que a gente tem usado muito, que é o aproveitamento, não o reaproveitamento”.

Como combater o desperdício

Medidas como ter controle do que falta de alimentos na residência, a quantidade a ser comprada, verificar a data de validade, utilizar toda a fruta, legume e verduras e não colocar no prato quantidade a mais que não irá consumir são pequenas medidas que mitigam o desperdício.

A dor de quem teve fome e recorreu ao lixo

Jaciane Santos, 42 anos, vive nas ruas desde pequena. Ela transita entre algumas das vias mais conhecidas de Salvador (BA), entrando e saindo de albergues. Ela acaba se alimentando apenas três vezes por semana e já teve que recorrer a comida vinda do lixo

“Eu vejo o desperdício como um ato de ruindade. Eles não querem dar para a gente e depois jogam tudo fora e a gente fica com fome”, desabafa.

Segundo o relatório da PNUMA, a região do Nordeste é a que mais sofre com a insegurança alimentar. Cerca de 7.685 milhões de pessoas padecem com a insegurança alimentar grave, como é o caso de Jaciane e Cristiane.

Cristiane Da Silva, 29 anos, está em situação de rua há três anos. Ela vive de doações que consegue pelas ruas da cidade e vendendo alguns doces no semáforo. Sua alimentação ocorre apenas em três dias, quando grupos de voluntários oferecem comida para as pessoas em situação de rua que dormem na Praça da Piedade. 

“Nenhum restaurante me dá um prato de comida, eles negam. Eles preferem jogar fora do que me dar”, desabafa.

O desperdício e as perdas de alimentos fazem parte dos obstáculos para “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”, conforme propõe os dezesseis objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Em 2020, 116,8 milhões de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos, segundo pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

A região do Nordeste é a que mais sofre com a insegurança alimentar. Cerca de 7.685 milhões de pessoas padecem com a insegurança alimentar grave.
A região do Nordeste é a que mais sofre com a insegurança alimentar. Cerca de 7.685 milhões de pessoas padecem com a insegurança alimentar grave. (Foto: Alexandre Schneider/Getty Images)

Legislação tentou flexibilzar doações, mas não emplacou

No mesmo ano, para tentar mitigar esse problema e permitir que bares, restaurantes e supermercados pudessem doar alimentos, a lei 14.016 foi publicada com o intuito de acabar com o receio que se tem em realizar as doações de comida às pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Mesmo com a lei tendo mais de um ano, são poucos os estabelecimentos que direcionam os alimentos que sobram e que estão fora do padrão para a venda. A pesquisadora Camila Moraes aponta que para supermercados e produtores doar nem sempre compensa.

“A política nacional de resíduos sólidos é muito legal aqui no Brasil. Se fosse realmente utilizada teria um potencial gigantesco. Há dez anos ela foi criada e nada se utiliza. Na visão do supermercado, compensa ainda jogar fora do que doar porque não tem nenhuma lei, nenhuma fiscalização”.

'Fruta Imperfeita' e o delivery da conscientização

Foi observando as dificuldades que os pequenos produtores, incluindo os próprios pais, tinham para acessar tecnologias e escoar a produção que Robert Matsuda criou a Fruta Imperfeita. 

O primeiro delivery de frutas e legumes ‘imperfeitos’ que tem como intuito a redução do desperdício de alimentos e disseminação do consumo consciente.

A iniciativa começou em 2015, quando Roberto notou que alimentos pequenos, tortos ou feios acabavam indo para o lixo depois que supermercados e consumidores não os compravam. 

“A gente viu que não resolveria o problema apenas comprando dos pequenos produtores e mandando para uma indústria. Ele tinha que ser entregue diretamente ao consumidor final para que ele pudesse ser conscientizado sobre o problema”.

Os clientes, segundo Roberto, são pessoas que buscam alimentos mais baratos, mas também são mais conscientes e querem saber como funciona todo o processo do vegetal chegar até ao prato. “A gente viu que eles realmente estão procurando um consumo mais consciente, procurando consumir aquilo que faz sentido e que faz bem pro planeta”.

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