Comissão do Congresso convida diretores da Anvisa e do Butantan para explicarem suspensão de testes da CoronaVac

Isabella Macedo
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Leopoldo Silva/Agência Senado/10-07-2019
Leopoldo Silva/Agência Senado/10-07-2019

BRASÍLIA — Após mais um episódio de acirramento político envolvendo a vacina contra a Covid-19 em estudo no Instituto Butantan, a comissão mista do Congresso que acompanha as ações de combate à doença aprovou nesta quarta-feira convites para que os diretores do Butantan e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) esclareçam a suspensão dos testes. A agência anunciou a suspensão dos testes do imunizante na noite de segunda-feira após a morte de um dos voluntários que participava do estudo clínico.

O estudo foi paralisado por quase dois dias e teve a autorização para ser retomado na manhã de hoje. Mesmo assim, o diretor do Butantan, Dimas Covas, e da Anvisa, Antonio Barra Torres, serão ouvidos pela comissão sobre o tema na próxima sexta-feira.

A CoronaVac, que está em desenvolvimento pelo Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, está no centro de uma disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O Butantan é ligado ao governo paulista. A disputa tem origem na manifestação dos dois políticos da pretensão de disputar a presidência da República em 2022.

Ontem, Bolsonaro comemorou a paralisação dos testes por causa do falecimento do voluntário como uma vitória contra Doria. Em uma rede social, o presidente comemorou o que disse ser “mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

Nesta manhã, os parlamentares reclamaram da politização do imunizante, que ainda não está pronto. A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) disse estar indignada com a postura de Bolsonaro ao comemorar a paralisação dos testes ontem. Ela ressaltou que todo o mundo aguarda os testes e a efetividade das vacinas em estudo.

— Trouxe-me muita indignação o que nós presenciamos nos últimos dias, sobretudo o chefe maior do Executivo federal, o presidente da República, comemorar a suspensão de um estudo que é a maior expectativa hoje do mundo. Nós temos mais de 1,2 milhão de pessoas que vieram a óbito em todo o mundo. No Brasil, mais de 162 mil pessoas. Milhões de famílias em todo o mundo aguardam a efetividade e, portanto, o início da vacinação em massa. E, aqui, no Brasil, os estudos estavam caminhando, e, de repente, nós temos aí uma suspensão que não era esperada e, sobretudo, uma comemoração. É algo que nos traz revolta e indignação — disse a senadora.

Para o senador Esperidião Amin (PP-SC), a disputa em torno do imunizante não se trata de “mocinho contra o bandido” por entender que a politização da vacina está sendo feita por ambas as partes.

— Não quero demonizar nem o que A falou, nem o que B falou sobre a vacina. Mas eu acho que esta comissão tem a responsabilidade e autoridade para convocar tanto a Anvisa quanto o Butantã para aqui termos uma confrontação de ideias e de informações que hoje a sociedade brasileira não tem. Ninguém aqui é ingênuo para achar que só um lado é que está politizando. Vamos com calma. Porque está havendo politização e exagero, sim, mas não venham dizer que é o mocinho contra o bandido, que é o bom contra o mal. Está havendo politização, sim, e, como toda a politização radical, de ambas as partes — afirmou o catarinense.

Líder do PSDB no Senado e vice-líder do governo até setembro, Izalci Lucas (PSDB-DF), classificou como lamentável a situação em torno da vacina. Ele destacou que a ciência não tem colorações partidárias e “não pode sofrer o que está sofrendo”.

— Não dá para fazer o que fizeram. E eu lamento muito a posição da Anvisa, sinceramente. Nós sabatinamos há pouco a diretoria da Anvisa. Eu acho que eles foram negligentes e politizaram, porque a informação chegou à Anvisa na sexta-feira. E o Butantan soube pela imprensa — reclamou.

Segundo o Butantan, a informação do evento adverso grave foi comunicada à Anvisa no dia 6 de novembro, e que soube da suspensão dos testes após nota da agência noticiada pela imprensa. A agência afirmou, em entrevista coletiva ontem, que as informações repassadas pelo instituto só foram recebidas no dia 9 por causa do hackeamento de órgãos públicos na semana passada e que os dados enviados não estavam completos.

A morte do voluntário foi classificada como um “evento adverso grave”, que levou a Anvisa a suspender os testes. Boletim de ocorrência registrado na capital paulista aponta suicídio como a causa da morte.