Comissão do Congresso convida presidente da Anvisa a explicar suspensão de estudos da Coronavac

RENATO MACHADO E DANIELLE BRANT
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A comissão mista do Congresso que acompanha as ações de enfrentamento à Covid-19 aprovou nesta quarta-feira (11) requerimentos de convite ao diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, para explicar a suspensão dos estudos da vacina Coronavac. O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, também foi convidado a prestar esclarecimentos sobre o assunto. A audiência com a participação dos dois foi marcada para esta sexta-feira (13). O convite é diferente de uma convocação, em que ministros ou titular de órgão subordinado à Presidência são obrigados a comparecer perante uma comissão ou ao plenário. No convite, não há essa obrigatoriedade. A vacina contra a Covid-19, desenvolvida na China e que, se for eficaz, terá produção conjunta com o Instituto Butantan, teve seu ensaio clínico de fase final suspenso na noite de segunda (9). O motivo foi o relato de um evento adverso grave, no caso a morte de um dos 13 mil voluntários do programa do imunizante no Brasil. De acordo com o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, a morte não teve relação com a vacina. A principal suspeita dos investigadores ouvidos é a de que a pessoa, um químico de 32 anos, tenha cometido suicídio ou tido uma overdose. O boletim de ocorrência, obtido pelo jornal Folha de S. Paulo, registra o caso como "suicídio consumado". Nesta quarta, a agência autorizou a retomada dos testes da Coronavac. A suspeita de politização da vacina, em embate que opõe o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), levou congressistas a protocolarem os requerimentos solicitando esclarecimentos à Anvisa e ao Butantan sobre a suspensão. Um dos requerimentos propostos para convidar Barra Torres foi protocolado pelo líder do PT, senador Rogério Carvalho (PT-SE). Ele quer que o diretor-presidente da Anvisa explique tecnicamente os motivos que levaram à decisão de paralisar os estudos referentes à vacina Coronavac, parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac. "Precisa explicar o que levou a essa decisão, de uma maneira técnica. E também precisa explicar todo o prejuízo que está sendo causado à imagem da Anvisa, um órgão técnico que ao que indica está sofrendo ingerência", afirmou o senador à Folha na terça-feira. O parlamentar também acusa Bolsonaro de interferir na agência. "Acho que o presidente comete ato de improbidade gravíssimo e atenta contra a vida das pessoas. O ato de improbidade é porque usa instituições, como a Anvisa, para benefícios eleitorais próprios", completa. Na reunião desta quarta, os congressistas criticaram o uso político da vacina. "Está havendo politização e exagero, sim, mas não venham dizer que é o mocinho contra o bandido, que é o bom contra o mau. Está havendo politização, sim, e, como toda a politização radical, de ambas as partes", afirmou o senador Esperidião Amin (PP-SC). Já o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), do partido do governador Doria, disse lamentar a posição da Anvisa de determinar a suspensão dos estudos. "Eu acho que eles foram negligentes e politizaram, porque a informação chegou à Anvisa na sexta-feira. E o Butantan soube pela imprensa. Então, é lamentável esse episódio", afirmou. Na avaliação dele, o episódio só aumenta a desconfiança da população em relação à vacina, que vai ser aprovada em um tempo muito mais curto. "Essas vacinas estão sendo e serão aprovadas num tempo recorde, mas que trará, com certeza, muita dúvida dos pacientes, das pessoas", ressaltou. "Porque o que vale no Brasil não é o fato, é a versão, e a versão que se coloca hoje é essa aí, quer dizer, traz muita dúvida." A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) também questionou a autonomia da Anvisa. Ela defendeu que, se a avaliação é de que a morte do voluntário não teve relação com a vacina, os estudos prossigam. "Sob pena de que a agência não estaria agindo do ponto de vista técnico, mas, sim, do ponto de vista político e ideológico. Isso realmente nós não podemos admitir", afirmou. O diretor-presidente da Anvisa argumenta que a decisão de suspender os testes da vacina Coronavac foi técnica e ocorreu após a agência receber informações incompletas do Instituto Butantan, o que teria deixado dúvidas sobre o caso. Após o anúncio da suspensão dos estudos, o presidente da República postou em suas redes sociais: "Mais uma que Jair Bolsonaro ganha".