Comissão visita Lula e diz que consultará Glenn, Moro e Deltan sobre mensagens

KATNA BARAN
***ARQUIVO***CURITIBA, PR, 26.04.2019 - O ex-presidente Lula concede entrevista exclusiva à Folha e ao jornal El País, na sede da Polícia Federal, em Curitiba (PR), onde o petista está preso. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Membros do CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) estiveram com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na manhã desta terça-feira (17) para ouvi-lo num procedimento que apura possíveis violações em processos da Lava Jato, incluindo o que o levou à prisão.

A denúncia, feita pela defesa do próprio petista em junho, é baseada principalmente nas conversas entre o ex-juiz, atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, reveladas pelo site The Intercept Brasil em conjunto com a Folha de S.Paulo.

Segundo os conselheiros, o próximo passo da investigação é convidar Moro, o chefe da força-tarefa, Deltan Dallagnol, e o jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, para falar sobre o caso.

"Isso só não acontecerá se eles entenderem não ser pertinente", afirmou o relator do procedimento no CNDH, Leandro Scalabrin.

O CNDH existe desde 1964 e é responsável por apurar violações de direitos humanos no Brasil. Como não é ligado a nenhum dos Poderes, possui função independente, mas também não vincula outros órgãos às suas recomendações.

Lula está preso desde abril em 2018 em Curitiba, cumprindo pena por condenação por corrupção e lavagem no caso do tríplex de Guarujá (SP), no âmbito da Lava Jato, que já foi julgado em três instâncias.

Ele também foi condenado por corrupção e lavagem em primeiro grau no processo do sítio de Atibaia (SP), que está sob recurso no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Além dos dois casos já sentenciados, Lula é réu em outras sete ações penais no Paraná, DF e em São Paulo.

A denúncia feita pela defesa de Lula ao CNDH cita relatos de possíveis violações em outros momentos das ações da Lava Jato, como na condução coercitiva do ex-presidente, em março de 2016, e quando o juiz federal Rogério Fraveto, do TRF4, concedeu liberdade ao petista, mas teve a decisão revogada no mesmo dia, em julho do ano passado.

"Desde aquele momento [da condução] nós demonstramos que ele [Lula] é vítima da falta de um devido processo legal, é vítima de um processo injusto e que ele acabou sendo condenado, está preso, em razão desse processo injusto, que não reuniu nenhuma prova de culpa e desprezou as provas de inocência", afirmou o advogado do petista, Cristiano Zanin.

A defesa está elaborando também uma petição para "atualizar" o Comitê de Direitos Humanos da ONU sobre o processo de Lula, incluindo as conversas divulgadas e "outras provas inéditas".

No ano passado, o comitê apontou que o petista teria direito a ser candidato à presidência, mas a decisão não vincula os órgãos brasileiros.

Lula foi ouvido por mais de duas horas na Superintendência da Polícia Federal. Além do relator, participaram da oitiva o presidente da instituição, Leonardo Penafiel, e o conselheiro Ismael José Cesar.

Como revelou a Folha de S.Paulo no domingo (8), conversas de Lula gravadas pela Polícia Federal e mantidas sob sigilo desde 2016 colocaram em xeque a tese de que sua nomeação como ministro pela então presidente Dilma Rousseff (PT) tinha como objetivo principal obstruir as investigações da Lava Jato.

Durante a visita do CNDH, o ex-presidente confirmou o conteúdo dessas conversas.

"O conselho também ouviu e recebeu essa denúncia neste momento", disse Leonardo.

Na ocasião, Moro abriu acesso aos áudios de grampos telefônicos entre Lula e Dilma, que encaminhava um termo de posse ao companheiro de partido para que ele usasse em "caso de necessidade".

Em seguida, o ministro Gilmar Mendes suspendeu o documento, afirmando ter visto intenção do político em fraudar investigações sobre ele na Lava Jato.

O relatório final do procedimento no CNDH deve ser submetido até o final deste ano ao plenário do órgão, que decidirá o que fazer com o resultado da investigação.

"[O conselho] pode emitir recomendações, como recomendar a anulação desse processo se chegar à conclusão que não houve direito à defesa e julgamento justo", explicou o presidente. O resultado pode ser levado ainda para comitês internacionais de direitos humanos.