Como é o trabalho psicológico para tirar o Botafogo da zona de rebaixamento

Igor Siqueira
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Vitor Silva/Botafogo

Bruno Lazaroni ainda era técnico do Botafogo quando o elenco assistiu a uma palestra motivacional pela última vez. A filosofia da empresa contratada é inspirada no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e trouxe aos jogadores a mensagem de companheirismo para sair das dificuldades. Mas os resultados não vieram. Lazaroni foi demitido, Ramón Díaz nem chegou a assumir de fato e, agora com Eduardo Barroca, o alvinegro chegou à lanterna do Brasileirão.

O time enfrenta o Coritiba neste sábado, às 21h, no Couto Pereira, no desfecho da primeira semana do ano na condição de último colocado da Série A. A posição coloca um peso a mais sobre os ombros alvinegros. Mais do que nunca, o grupo necessita de equilíbrio psicológico para sair do buraco. Se vencer, o Botafogo passa o próprio Coritiba.

A recomposição motivacional do time passa pelo trabalho do técnico Barroca, pelo discurso de dirigentes, como o gerente de futebol Tulio Lustosa, mas tem no psicólogo Paulo Ribeiro uma pedra fundamental.

— O que mais importa no momento desse é fazer com que o grupo esteja entendendo que tem um propósito maior a se superar a cada jogo, de acolher o colega, fazer um jogo coletivo. Esse contágio emocional positivo precisa ocorrer dentro de um grupo que passa por uma situação dessa — diz o psicólogo alvinegro.

No discurso, o “jogo a jogo” substitui a meta — ainda em vigor — de vencer oito dos 13 jogos restantes para sobreviver na Série A. Mas como a distância para isso ainda é grande, internamente a opção foi focar no horizonte mais próximo.

O tratamento psicológico considera uma diversidade de fatores que levaram o Botafogo à última linha da tabela. E não só o mau desempenho técnico. O trabalho mental no alvinegro tem um grau de dificuldade maior porque o elenco não foi formado de uma vez só. Foram 26 reforços ao longo de 2020. Então, os níveis de engajamento com o clube e dentro do próprio grupo são diferentes.

Além disso, trata-se de um time jovem. E lidar com isso traz algumas peculiaridades. Não adianta passar livro para ler ou um filme aleatório com lição de moral. A palestra com a filosofia do Bope já tinha sido usada em 2018, por exemplo. Mas não está nos planos para a reta final do Brasileirão atual.

Para além da promessas de recompensas financeiras em caso de fuga do rebaixamento, o tiro a essa altura do campeonato precisa ser certo. E se valendo de ferramentas tecnológicas que fazem mais sentido para a geração: mensagens e vídeos.

— O que atrai muito o jogador, principalmente os mais novos, é se comunicar com pelo celular. Quando você tem a ideia de um tema e consegue passar para o atleta, a resposta é mais rápida — explica Paulo.

Papel dos experientes

Honda e Kalou, de 34 e 35 anos, respectivamente, fogem à regra em termos de faixa etária no Botafogo. Diego Cavalieri, de 38, é outro exemplo. Mas os dois estrangeiros, titulares hoje contra o Coritiba, demandam um esforço ainda maior em termos de comunicação porque não falam português ainda. O intérprete os acompanha, menos na hora de jogar, claro.

Só que as lideranças em termos de discurso no Botafogo não são os estrangeiros. Há outros jogadores que cumprem esse papel. Honda e Kalou são mais introvertidos, segundo o GLOBO apurou. Deles se espera a tranquilidade na hora do jogo, evitando afobamento ou nervosismo dos demais.

O meio-campista tem uma preocupação em relação à parte mental. No Twitter, Honda postou em japonês ao longo da semana: “Estou passando meus dias de azar agora. Você pode mudar muito, dependendo da sua maneira de pensar”.

Internamente, o discurso é de que o time evoluiu em termos mentais desde a goleada de 4 a 0 para o São Paulo. A apatia gerou incômodo. Tanto Túlio Lustosa quanto Barroca elogiaram o comportamento do grupo no jogo contra o Internacional, apesar da derrota de virada. A sensação é que há indignação no vestiário e não uma zona de conforto. O desafio é transformar isso em boas atuações.

— A gente precisa dar um salto de qualidade maior. Estou otimista pela semana de trabalho. Os jogadores responderam muito bem a todos os estímulos. Vamos aproveitar as coisas boas do jogo contra o Inter. Que esse jogo seja uma marca da nossa virada — disse Barroca.