Como a presença de Sergio Moro pode embaralhar o jogo para 2022

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Brazil's President Jair Bolsonaro gestures near Brazil's Justice Minister Sergio Moro during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil December 18, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro e seu ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Não tenho provas, mas tenho convicções de que a presença confirmada de Sergio Moro na festa de filiação ao Podemos tem tudo para bagunçar o coreto das eleições de 2022.

O partido anunciou que a ficha do ex-juiz será assinada em 10 de novembro.

Isso indica que ele estará em campo. Não se sabe em qual posição.

Em maio, uma pesquisa Datafolha mostrou que ele largaria com 7% das intenções de voto caso se candidatasse a presidente. À frente dele estariam Luiz Inácio Lula da Silva, que mandou prender no processo já anulado da Lava Jato, e Jair Bolsonaro, seu desafeto desde que deixou o governo pela porta dos fundos.

Até outro dia Moro era visto como uma figura central na trajetória dos dois favoritos. A condenação do petista o tirou do jogo em 2018, mas o ressuscitou pouco depois. O revés da decisão nas instâncias superiores o recolocou em campo e deu a ele a pecha de líder perseguido e injustiçado, enquanto Moro tropeçava para explicar os diálogos indevidos com os acusadores do processo, com quem não poderia se misturar.

A ascensão de Bolsonaro era também atribuída ao cenário de terra arrasada com portão destroçado deixado pela Lava Jato. A simbiose era tanta que Carla Zambelli (PSL-SP), deputada da tropa de choque do presidente, numa troca de conversas estranhas com o ex-juiz, prometeu até negociar uma vaga no Supremo Tribunal Federal para o então ministro da Justiça caso ele permanecesse no governo. Dizia que, sem ele, o governo acabava.

Bolsonaro perdeu aqui e ali apoiadores que em 2018 viam nele o candidato mais identificado com a Lava Jato, então a maior força política do país. Bolsonaro acabou com a Lava Jato e seu governo não acabou quando Moro chamou uma coletiva para dizer que o presidente tinha planos para interferir na Polícia Federal e colocar em xeque o combate à corrupção.

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Os dois não se falam desde então. Não dá para dizer que foi por esse motivo que a popularidade do capitão entrou em declínio. Na fila do desencanto está, acima de tudo, sua total incapacidade de gerenciar a crise da pandemia.

Moro jogou uma carreira na magistratura para o alto quando largou a toga e aceitou trabalhar como ministro do candidato que ajudou a eleger. Depois saiu da vida pública e foi trabalhar em uma consultoria privada que ajudava a reconstruir as empresas que ele ajudou a emparedar. Agora a porta giratória rodou novamente e o jogou para eleições de 2022.

A aposta mais arriscada é a que mira a Presidência. Sua candidatura seria motivo de preocupação para Bolsonaro e para quem sonha em se vestir de terceira via. Embora na margem de erro, ele tinha em maio mais intenções de voto do que Ciro Gomes (PDT) e João Doria (PSDB), por exemplo. Mas não faria arranhão ao favoritismo de Lula ou Bolsonaro.

Como o diabo mora nos detalhes, chama a atenção que o antigo PSL, hoje fundido com o DEM, tenha anunciado que irá prestigiar a filiação do ex-juiz. Seus dirigentes querem repetir a fórmula que os levaram a formar uma das maiores bancadas do Congresso trazendo Bolsonaro para o jogo. Dessa vez, sem Bolsonaro, que agora chamam de "farsa".

O União Brasil hoje tem bancada mas não tem um nome forte para a disputa. Moro pode ser esse nome.

A outra, e mais provável, possibilidade é que o ex-juiz desfile como candidato ao Senado. Nesta disputa, ele já largaria como favorito em qualquer praça —e garantiria oito anos de mandato e exposição em Brasília. Fica a deixa para 2026, quando aí sim poderia concorrer a presidente sem ter nada a perder, diferentemente das outras vezes em que mudou de ramo e de rumo.

Mais do que isso, sua presença em uma eventual coalização visando à terceira via daria um outro peso para ela.

Moro está longe de resgatar o prestígio avariado com a exposição de suas condutas pela Vaza Jato. No posto que vislumbrar, estará exposto sempre à incoerência e à contradição por ter afirmado, anos atrás, que sua migração para a política estava descartada. Outros tempos. Essa fantasia ele já rasgou quando topou servir a Bolsonaro.

Pelo quadro atual, ele tem baixa capacidade de tirar votos dos candidatos à esquerda, caso entre de sola na corrida presidencial. Os de Lula não migram para ele por motivos óbvios. Ciro, por sua vez, foi sempre um crítico das decisões de Moro na Lava Jato, sobretudo às relacionadas ao processo do petista.

O que não se sabe é qual seria o potencial de estrago de uma eventual candidatura presidencial de Moro na base bolsonarista. Parte dela voltaria ao flerte lava-jatista que a levou a Bolsonaro por ilusão ou falta de opção? Ou permaneceria fiel ao presidente por afinidades e/ou pragmatismo?

A primeira hipótese parece mais provável. Entre os candidatos já em campo, é Bolsonaro quem tem mais razões para se preocupar. O ex-juiz que o ajudou a chegar até onde chegou pode ser o fator de desequilíbrio para lhe tirar do posto. Ou como adversário direto ou como principal aliado de seu adversário. Pode ser cedo para dizer, mas é possível que a (até agora) fantasia da terceira via só agora tome corpo. Com o reforço, ela pode tirar Bolsonaro da pista e vislumbrar, pela via do lavajatismo hoje em sono profundo, a reedição de uma disputa com o PT. Sim, é improvável. Mas não é impossível.

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