Como Arrascaeta refugou dos cavalos e deu salto no Flamengo com Jesus

Diogo Dantas, Marcello Neves e Marvio dos Anjos
ESP Rio de Janeiro (RJ) 04/12/2019 - O meio campista Arrascaeta, do Flamengo, fala com exclusividade ao GLOBO. Foto de Gabriel de Paiva/ Agência O Globo

Seu Leopoldo viveu os últimos vinte anos em uma cadeira de rodas após sofrer uma queda de um cavalo de corrida. Mesmo assim, viu o filho Daniel, pai de De Arrascaeta, seguir o mesmo caminho, enquanto a família humilde vendia pão em Nuevo Berlín, pequena cidade no Uruguai onde nasceu o meia do Flamengo, que por pouco não virou jóquei. Giorgian, aliás, era o nome do cavalo mais vencedor da família. Hoje, a tatuagem na panturrilha e os animais comprados para o pai cuidar não são as únicas lembranças dessa trajetória desviada pela bola de futebol. Como diz a outra tatuagem, que o jogador tem no braço direito: “Minha mãe me deu a vida, o futebol o meio de viver”.

Se não fosse o futebol você seria o quê?

Jóquei, com certeza.

Seu pai te influenciou?

Meu pai sempre preferiu que eu inclinasse para o futebol. Porque os cavalos são especiais. Ele viu meu avô ficar de cadeira de rodas. E quebrou o braço. Eu vi meu pai se machucando. Isso me assustou um pouco. Meu pai estava por dentro, o outro cavalo peitou, e ele quebrou o braço. É perigoso. Por isso me inclinei mais pelo futebol.

Seu pai viu teu avô cair do cavalo?

Ele começou antes do acidente. Era meio de trabalho para viver. Ele e minha mãe fizeram de tudo para não faltar nada pra mim. Faço o mesmo hoje.

Você ouvia muito sobre seu avô?

Seguiu o exemplo dele. Meu pai fala que os filhos dele seriam o retrato do pai. Foi criado em família humilde. Era bom na corrida de cavalo e o seguiu como ídolo.

Mas a corrida para você é uma paixão?

Novinho sempre treinava com meu pai. Mas cai muitas vezes. Peguei medo.

Como sua mãe Vitória moldou sua personalidade?

A minha personalidade é da minha mãe. Sou mais parecido com meu pai de rosto. Minha mãe é mais tranquila. Meu pai fala o dia todo.

Então você diria que é tímido?

Minha personalidade não muda, sou o mesmo cara. Tenho minhas intimidades. Não vão me pegar indo para a balada. Para outras pessoas sou um cara mais tranquilo, quieto. Com meus amigos, não.

Como foi sair do Cruzeiro e ser tão bem recebido? Fez o certo?

Tomei a decisão de vir para o Flamengo porque achava que era um ascenso na minha carreira. Quando falaram da possibilidade eu achei interessante. Chegar aqui e conquistar tudo isso, fica mais que claro que tomei a melhor decisão.

Verdade que você veio de carro fugido de Belo Horizonte por causa de ameaças?

Sim, estava com meu agente e outros caras. Tivemos que vir de carro. Demoramos um pouquinho. Foi longa a viagem.

No fim das contas o negócio mais caro do Brasil foi bom para quem?

Era o que eu queria, o que era melhor pra mim. Precisava desse crescimento. A pessoa para ficar bem com a torcida diz que eu não dei certo, não era necessário. Fiquei agradecido com o clube e a torcida lá. E retribui com títulos.

Quem foi seu maior idolo?

Riqueilme. jogava muito. Era fenômeno. acompanhava ele no Boca.

Vê semelhança de jogo com o seu? Sem tanta velocidade, mas tecnicamente acima da média?

Riquelme nao foi um cara muito intenso, jogava com a bola no pé, deixara os caras na cara do gol. Jogou muito na Espanha, no Villareal.

Como você equilibra técnica e intensidade? É a maior meta?

Tento melhorar. Sou assim. Preciso de mais intensidade. Tem caras que são mais intensos. Para o futebol daqui minhas características são muito boas. Pode ser que eu não seja capaz de jogar na Europa, por questão de intensidade. Mas você pode trazer um cara da Europa para cá e não se adaptar. Ou alguém que vá para lá e não consegue jogar.

E o jogador brasileiro que mais gosta?

Gosto do Neymar. Fora de série. Só que só joga quando ele quer. Tomara que um dia possa ser parte do nosso grupo. É muito decisivo. O cumprimentei uma vez durante chamada com Suarez e outra com Gabigol.

Europa não está nos planos?

Hoje não iria para qualquer time de lá. Lógico que tenho vontade de jogar em alguns times. Mas vejo com outros olhos essa possibilidade.

Cavani combinaria com Flamengo?

Nunca falei com ele nem com caras da seleção para jogar aqui. Ele está em alto nível, é goleador, vai ser uma grande contratação se vier.

Cavani e Suarez ou Bruno Henrique e Gabigol?

Você quer me ferrar com os caras. São fenômenos. Uns na Europa e outros os melhores do Brasil. Eles podem conquistar tudo que conquistaram lá fora. Que possam jogar em um grande clube da Europa também.

Além da Vista Chinesa e da Barra, quais os lugares preferidos no Rio?

Não tenho saído. Fui conhecer Buzios. Mas sair só para jantar, andar de bicicleta na praia. Querem me levar para conhecer, mas JJ (Jorge Jesus) não dá uma folguinha, risos. Quando tem folga, no dia seguinte de jogo, melhor ficar em casa descansando.

O que voce achou do Rio? Qual seu Rio?

Bem diferente do que pensava quando cheguei aqui. A gente cria uma imagem mais agressiva do que parece. Tenho curtido com minha namorada. A gente mora na Barra, perto da praia, da par curtir muito as manhaes, tomar chimarrão, andar de bicicleta. Amigos e família curtem também quando vem. Sair para jantar. A cidade é incrível. Ate falo com amigos que jogam na Europa, e eles invejam muito. A cidade lá é muito fria, o tempo castiga.

Está trazendo alguém pro clube?

Vou tentar trazer…risos. Não tenho falado com ninguém. Mas todo mundo já conhece o Flamengo nesses últimos anos. Agora está em nível de contratar jogadores até da Europa.

Como seu futebol hoje repercute na seleção uruguaia?

Alguns jogadores trabalharam com ele (Jesus), como Coates. Eles perguntam. Eles falam: “Ele é meio doido, né?” Mas a gente sabe lidar com ele. Não mudou muito a ideia que os caras tem de mim lá. Falo com o treinador da seleção, ele sempre me mostra o que eu posso melhorar. Mas a Copa América para mim já foi boa, comecei jogando alguns jogos, depois só tivemos amistosos. Preciso ir bem no meu clube primeiro.

Alguma semelhança entra Tabarez e Jesus?

Caracteristicas de jogo diferentes. Na parte psicológica são caras que chegam muito no jogador, e focam no respeito. Têm um grande vestiário. Aqui é incrível e lá também. Um maestro na seleção, o fundamental é o respeito ao companheiro.

Lembra de alguma conversa marcante com o Jesus?

No dia que cheguei aqui ele me perguntou onde eu gostava de jogar. Falei a posição que eu normalment jogava. Ele falou: aqui você joga muito bem, nesta outro aparte você nao sabe jogar, precisa melhorar aqui.

Que parte?

Na parte centralizada, no meio-campo, de costas, falava que eu teria mais dificuldade do que na beirada. Na parte tática, ele diz que tenho que estar posicionado assim, para assistir o companheiro, não perder a bola. Me ajudou muito. Se ano que vem ele estiver com a gente vai ser ainda melhor.

O que você aprendeu com Jesus que não sabia que era capaz?

Faltava conhecimento, né. Ele fala para nós, sobre a parte tática. Se perder a bola, não pressiona no momento. Se chegar na linha de fundo não toca para trás. Um dos melhores treinadores que já tive. A gente não tinha conhecimento da parte tática, com linhas altas, zagueiro lá em cima para tirar referência, deixando a gente mais perto do gol. Nunca tinha jogado em um time com tanto tempo com a posse de bola.

Você diria que Jesus tem que percentual no sucesso do Flamengo?

Difícil avaliar percentual. Ele chegou, nos deu uma ideia, ferramentas. Se a gente não aprendesse rápido, não tinha conseguido. Foi um conjunto o principal. Jogadores e treinador.

Caso se rompa esse elo, caso ele va buscar outros desafios, o Flamengo ficaria órfao?

Sim, a gente não sabe do futuro. Mas certamente se ele sair daqui, a gente vai ficar com aprendizado grande, e o cara que vier vai ter que ser muito bom.

Flamengo criou novo nível a ser copiado?

Os outros times tem que tirar coisa positiva dos melhores. Fizemos um grande ano, temos boa estrutura. Podemos continuar crescendo. Estamos bem, mas tem que melhorar. E isso pode acontecer com outros clubes. O futebol brasileiro eu tive vários treinadores, mas a forma do Jorge é muito diferente do que eu jogava com o Mano no Cruzeiro. Trabalhei com Paulo Bento e jogava parecido, mas não igual. Fazia e levava muito gol. Aqui tem um cara muito diferenciado. Ele vive o futebol o dia todo. A gente chega, tem palestra, treina, acaba tem outra palestra. Prepara pré-jogo. Antes do jogo tem outra palestra. Todo mundo sabe o que tem que fazer. É como uma escola.

Na Copa América você ainda não tinha sequência como titular. Quando voltou tudo mudou. Por que?

O jogador tem momentos, e tem que aproveitar. Tem momento que não é bom, outros excelentes. Na Copa América eu estava bem, ganhei confiança, e depois voltei bem. Focado no que tinha que fazer. Jesus me deu muita confiança, sempre acreditou no meu trabalho, e eu dei sequência.

Você começou no banco, teve lesões, com lidou com isso?

Isso faz parte do futebol. A gente se prepara da melhor forma possível, no Brasil o calendário é de jogo a cada três dias. Chega um momento em que o corpo não aguenta. São muitos jogos. O corpo cansa. Se não parar, acontece isso. A maioria começa a se machucar. Mas fizemos um grande trabalho. Tive uma lesão muscular, um edema na coxa, e se não tivesse machucado o joelho, seria a única lesão. Como aquela que tive no menisco acontece com muitos jogadores. Mas me sinto muito bem fisicamente.

Foi o melhor ano da carreira mas foi difícil pra você, mais que pro Gabigol…

A gente tem que lidar com isso. Nos grandes clubes têm muito jogador bom. Tem momento que se pode ser titular, mas em outro momento outro jogador está melhor que você, e tem que respeitar isso. Todo mundo estava focado, querendo em comum. Hoje estou bem, amanhã vai ser outro cara que vai jogar.

Você pensou em dar o passe para o Gabigol na final da Libertadores?

Passa pela característica do jogador. Sempre gosto de servir os companheiros. Gabi é muito artilheiro, tem outras coisas positivas, sempre sabe onde a bola vai. Eu já sabia que ele estaria ali. Foi o lance que arrancou para aquela virada histórica.

Em algum momento do jogo você teve certeza que seria campeão?

Percebemos que o time deles ia ficando mais cansado depois de não deixar a gente jogar no primeiro tempo. A gente chegou um pouco mais. Em dois lances fizemos dois gols. Tem que estar ligado o jogo todo.

O gol contra o Ceará é para Puskas?

Foi bonito, mas ainda tem o ano todo para sair gol de todo jeito. Esse gol foi magnifico. Acho que pode estar.

E o Liverpool? Da pra não pensar neles?

A gente pensa mais em nós do que neles. Tem que desfrutar. Tem responsabilidade, mas tem que desfrutar desse torneio. Não vamos disputar todo ano. Tem que passar ainda pela semifinal, e se chegar em uma final será algo magnifico. É um dos melhores times do mundo.