Como as pessoas cegas aprendem e se relacionam com as cores?

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Sete lapis de cor enfileirados em uma mesa branca
Cada pessoa com deficiência visual tem uma experiência sobre o significado das cores, assim como diferentes níveis de interesse pela temática. Amarelo e laranja são cores quentes. Azul é uma cor fria e passa tranquilidade (Foto: Getty Images)

Descrição da imagem: Sete lápis de cor enfileirados em cima de uma mesa branca. Na ordem: laranja, azul, vermelho, rosa, amarelo, vermelho e verde.

Uma das dúvidas mais frequentes sobre pessoas cegas é sobre como nos relacionamos com as cores. E essa resposta depende do grau da deficiência visual. Eu, por exemplo, tenho cegueira legal, o que significa que percebo vultos, luminosidade e cores (essa última depende da intensidade, distância do objeto, entre outros fatores).

Já pessoas que perdem a visão durante a vida podem preservar imagens no cérebro, e, consequentemente, a lembrança visual das cores.

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Mas e pessoas que nascem cegas? Neste caso, o aprendizado e a relação acontece por meio de associações com outros sentidos, vivências, lembranças e experiências, como explica a Professora Dra. Flávia Mayer em sua tese de doutorado sobre conceitos de cor por pessoas com cegueira congênita.

O conhecimento sobre as cores no caso de pessoas cegas de nascença é representado numa região cerebral normalmente associada ao conhecimento de palavras que não têm referências sensoriais, como virtude ou justiça. Foi o que descobriu um estudo publicado na Nature Communications.

O que isso quer dizer? Que cada pessoa com deficiência visual tem uma experiência sobre o significado das cores, assim como diferentes níveis de interesse pela temática. Amarelo e laranja são cores quentes. Azul é uma cor fria e passa tranquilidade. O céu é azul e o sol é amarelo. O verde me desperta cheiro de plantas e me lembra natureza. Perceba a quantidade de informações que temos do ambiente à nossa volta, da nossa experiência e convívio em sociedade.

E tem mais. Já reparou como as percepções táteis, auditivas, gustativas, olfativas e emocionais são utilizadas no processo de aprendizagem das cores desde a infância? Esta pesquisa brasileira, sobre o ensino de cores à cegos de nascença, traz um exemplo de um livro infantil

"Do VERMELHO, Jonas levou o doce de morango, a dor e o gosto de sangue de um cortezinho de nada na ponta do dedo, o forte perfume das rosas. Suco de groselha com açúcar e tomate com sal, uma joaninha atrevida na palma da mão, que é pra dar sorte.”. Jonas e as cores, de Regina Berlim (2007).

Um texto repleto de referências sociais, culturais e associações com outros estímulos e sentidos. É por isso que, de forma geral, falar sobre as cores para pessoas cegas é importante.

São dados culturais relevantes e que contribuem com a formação de repertório. No meu caso, eu gosto de saber quais são as cores de um determinado ambiente, as cores preferidas de um amigo e as cores que mais combinam entre si, por exemplo. Hoje, inclusive, já existe uma série de aplicativos que identificam as cores por meio da câmera do celular para pessoas cegas.

Descrever as cores, falar sobre o tema de forma natural e sem tabus desde a infância também é promover a inclusão.

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