Como a big data pode prever quem vai ganhar as eleições em outubro

(Pixabay)

Por Lucas Reginato / Agência Plano

A três meses das eleições no Brasil, quem não gostaria de conhecer antecipadamente os eleitos? Neste exato momento um batalhão de profissionais está empenhado em recolher e processar informações capazes desenhar possíveis resultados que venham das urnas em outubro. Por outro lado, as pesquisas de opinião influenciam diretamente o andamento da campanha, favorecendo com maior exposição midiática os candidatos que lideram as previsões, e influenciando eleitores que não tenham a cabeça feita.

Assim foi em todas as disputas eleitorais desde a redemocratização, em 1985. Neste período, contudo, o surgimento da internet revolucionou a comunicação, e o comportamento das pessoas, de modo a oferecer, atualmente, um retrato digital da sociedade. Inclusive nas tendências políticas. É o que investiga a pesquisadora Luísa Godinho, Phd em Economia e Ciências Sociais pela Universidade de Genebra, na Suíça, e professora da Universidade Autônoma de Lisboa. Ela comparou dados recolhidos da rede em Portugal com os resultados das eleições europeias em 2014. “Podemos considerar a Big Data como uma enorme e variada base de dados, impossível de ser estudada pelas tradicionais técnicas de análise de conteúdo, o que obriga a novos métodos de análise”, ela explica. “Se virmos bem, o mundo contemporâneo, centrado nas chamadas economias da informação, tende a gerar um volume gigantesco de dados, criados pelas empresas, pelas organizações, pelas pessoas. Estima-se que este universo digital duplique de tamanho a cada dois anos e atinja, no ano 2020, os 44 triliões de gigabytes. A World Web é, neste âmbito, uma dessas bases de dados e creio que uma das mais significativas, porque tem dimensão global, é atualizada em permanência e é passível de ser acedida a partir de qualquer lugar.”

“No que se refere à compreensão dos fenómenos sociais, uma das correntes de trabalho, em que eu me incluo, interessou-se por investigar a relação entre os mundos online e off-line, em particular em saber se o online anteciparia alguns fenómenos que pudessem vir a ocorrer off-line, como se as pessoas tendessem a comunicar antes de agir. No fundo, trabalhamos sobre o legado da chamada “sabedoria das multidões” (wisdom of the crowds), abordagem que defende que as pessoas são capazes de tomar, em conjunto, uma decisão quase ótima, muitas vezes superando a que resulta da inteligência individual. Isto quer dizer que a multidão, entendida como um ser inteligente, é mais dotada do que a maioria das suas componentes humanas entendidas singularmente. Ora, a internet tem similitudes com uma multidão, já que os seus agentes são diversos e independentes e possui uma estrutura descentralizada. É justamente esta similitude que, de certo modo, legitima os estudos preditivos a partir do universo online”.

“Vejamos o exemplo de um ato eleitoral: o fato de uma maioria de pessoas falarem de uma determinada força política na web, confere a esta candidatura toda uma força comunicativa muito improvável de ocorrer antes de existir esse acesso massivo à Internet. Esta força comunicativa não tem um centro de controle, depende de uma dinâmica mais ou menos anárquica e que, talvez por isso, é passível de ter maior alcance e de impactar mais pessoas. Este impacto tão expressivo traduz-se, depois, em votos. É esta a lógica que está na base dos estudos preditivos, embora também encontremos alguns autores que são céticos quanto a esta questão. Mas a ciência faz-se assim mesmo, pela diversidade e pelo debate”.

Como argumentos favoráveis à sua tese ela apresenta os resultados do trabalho recentemente publicado. “Através da análise dos conteúdos disponíveis na web, tornou-se possível prever os resultados das eleições europeias de 2014. Efetivamente, conseguiu-se prever quais as candidaturas que viriam a ficar em primeiro, segundo e terceiro lugares, embora não tivesse sido possível indicar com total precisão as percentagens de voto que cada uma delas obteve, o que, aliás, é um desafio que se coloca a boa parte dos estudos nesta área”, ressalta.

“Do ponto de vista científico, o resultado da pesquisa foi muito encorajador porque permitiu corroborar a tese do potencial preditivo dos dados disponíveis na World Wide Web”, a professora destaca que colegas ao redor do mundo têm estudos que apontam para o mesmo sentido. “De fato, parece que estamos a encontrar um paralelismo entre os mundos online e off-line, entre o mundo na rede e o mundo real, o que faz algum sentido porque, na verdade, as pessoas tendem a comunicar na World Wide Web  aquilo que pensam, através da linguagem que naturalmente utilizam. Esta é uma grande vantagem da rede para as ciências sociais: é que nela as pessoas tendem a expressar-se com alguma naturalidade, sem grandes entraves cognitivos, e isso permitir-nos-á aceder mais facilmente às suas opiniões e sentimentos”.

Apesar disso, ela afirma a necessidade de maiores estudos que explorem essa capacidade preditiva da Big Data. “A ciência é um caminho em aberto”, diz, “podemos antever que os estudos sobre o potencial preditivo da Internet evoluam, embora seja impossível prever em que sentido. Podem vir a confirmar o potencial preditivo mas também podem vir a negá-lo”. Até lá, a tradição das pesquisas eleitorais tende a se manter no Brasil, e a professora comenta que “não devemos olhar para os estudos preditivos com base em Big Data como uma alternativa aos estudos com base em métodos tradicionais de investigação social. Devemos entendê-los como complementares, mostrando-nos diferentes abordagens da realidade. A riqueza analítica advém justamente daqui”.