Como Boris pretende usar a vacina para se livrar do confinamento na Inglaterra

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Ao anunciar um novo confinamento rigoroso na Inglaterra, o premiê Boris Johnson acenou com a possibilidade de começar a relaxar as medidas a partir de meados de fevereiro. Para prometer essa luz no fim do túnel, o primeiro-ministro se baseia nos planos de imunização contra a Covid-19. São as vacinas a principal diferença entre este lockdown e o anunciado em março do ano passado, disse ele, na segunda, após acompanhar vacinação de Brian Pinker, 82. O britânico foi primeira pessoa no mundo a receber uma dose do produto desenvolvido pelas britânicas Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca após autorização por uma agência de saúde. O Reino Unido já havia sido pioneiro da vacinação no ocidente, com o imunizante da Pfizer, mas a vacina Oxford/AstraZeneca pode acelerar o processo porque é mais fácil de armazenar e transportar, além de mais barata. Boris afirmou na noite de segunda que, nas próximas seis semanas, planeja ter vacinado os 4 primeiros dos 9 grupos prioritários estabelecidos pelo governo, o que permitiria começar a relaxar restrições. A previsão é inocular a vacina em 13 milhões de idosos e pessoas mais vulneráveis, ou 20% da população britânica. Para acelerar essa meta, o Reino Unido mudou sua estratégia de vacinação, adiando a administração da segunda dose para garantir a injeção da primeira delas no maior número de pessoas possível. Entenda mais sobre o confinamento na Inglaterra e a vacinação no Reino Unido. * Por que Boris Johnson decretou confinamento na Inglaterra? Porque o Reino Unido vem registrando recordes sucessivos de novos casos de Covid-19. Nas últimas 24 horas entre domingo e segunda, o país registrou 58.784 novos casos de Covid-19, maior número diário e sétimo dia consecutivo com mais de 50 mil novos doentes por dia. Por que o contágio se acelerou no Reino Unido? O número de infecções vinha crescendo no último mês, mas a transmissão se acelerou com o surgimento de uma nova variante do Sars-Cov-2, conhecida como B117 e até 70% mais transmissível. Na última semana, o número de novos casos deu um salto de 50% em relação à anterior, com um número equivalente de pessoas testadas. A nova variante é mais perigosa? Não, mas o aumento no contágio, que por si só já eleva o número de pessoas em risco de desenvolver doença grave, também reduz a capacidade de atendimento nos hospitais, causando mais mortes desnecessárias. Desde o começo da pandemia, já morreram no país mais de 75 mil pessoas, o que coloca os britânicos ao lado dos italianos no topo do ranking de óbitos por coronavírus na Europa. De domingo para segunda, houve mais 407 mortes, e as taxas semanais têm crescido. Em relação à população, o Reino Unido registra desde o começo da pandemia 111 mortos por 100 mil habitantes, a nona maior taxa no continente europeu. Como o confinamento evita o aumento de mortes? Segundo autoridades de saúde e cientistas, já está demonstrado que o contágio é propiciado principalmente pelo encontro de pessoas e sua circulação. O objetivo do confinamento é impedir que pessoas com o coronavírus cheguem perto de outros ainda não contaminados, disseminando a doença. Esse também foi o motivo pelo qual aulas presenciais foram suspensas. Embora a nova variante do coronavírus não seja mais perigosa para crianças, que dificilmente adoecem, o governo quer evitar que elas sejam contaminadas e, mesmo sem sintomas, levem o vírus para suas casas, espalhando a doença. Como a vacinação pode ajudar a relaxar o confinamento? O imunizante evita que o coronavírus provoque doença grave e leve à morte. O governo britânico espera poder relaxar as restrições quando as pessoas mais vulneráveis, cerca de 20% de sua população, estiverem protegidos. A imunização dos funcionários de saúde também aumenta a capacidade de atendimento nos hospitais, reduzindo mortes desnecessárias que podem ser causadas por excesso e demanda e falta de pessoal. Por fim, cientistas acreditam que, quando 70% da população estiver vacinada, atinge-se a chamada imunidade de rebanho, em que a transmissão do vírus é controlada pois cai muito a chance de ele inocular alguém indefeso. No entanto, esse patamar ainda deve levar meses para ser atingido, e a circulação internacional de pessoas faz com que seja necessário uma razoável universalização das vacinas. Como repetem os especialistas, "ninguém estará a salvo enquanto todos não estiverem a salvo". Quem será vacinado primeiro? Em ordem de prioridade, o plano é começar com cerca de 500 mil idosos que moram em asilos e número equivalente de funcionários dessas instituições. Na segunda etapa, segundo membro do governo ouvido pelo site jornalístico Politico, serão vacinados 3 milhões de pessoas com mais de 80 anos e 2,5 milhões de profissionais da linha de frente de atendimento à Covid-19. A terceira etapa inclui 2,2 milhões de residentes com mais de 75 anos, e, na quarta fase, chega a vez de 3,3 milhões de maiores de 70 anos e 1,4 milhões de pessoas com complicações de saúde que as tornam vulneráveis. Segundo o governo britânico, vacinar esses 13 milhões de pessoas, ou 20% da população, significa evitar 88% da mortes que seriam potencialmente causadas pela Covid-19. Qual a lista completa de grupos prioritários no Reino Unido? 1. Residentes em lares de idosos e seus cuidadores 2. Pessoas com 80 anos ou mais e assistentes sociais e de saúde da linha de frente 3. 75 anos ou mais 4. Pessoas com 70 anos ou mais e indivíduos clinicamente extremamente vulneráveis 5. 65 anos ou mais 6. 16 a 64 anos de idade com graves problemas de saúde subjacentes 7. 60 anos e mais 8. 55 anos ou mais 9. 50 anos e mais Segundo o governo, eles representam entre 90% e 99% das pessoas em risco de morrer de Covid-19. Quantos já foram vacinados no país? Cerca de 1 milhão de pessoas, segundo o governo britânico. É o maior número de pessoas na Europa, e a maior porcentagem da população, embora ainda represente apenas 1,4%. O que o governo britânico está fazendo para acelerar a vacinação? O Reino Unido aprovou a vacina da Pfizer e iniciou seu programa de imunização há cerca de um mês, muito antes de outros países europeus, e foi o primeiro a autorizar o uso da vacina da Oxford. Além disso, autoridades de saúde das quatro nações que compõem o Reino Unido (Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte) aprovaram o adiamento da segunda dose da vacina, que agora passa a ser dada 12 semanas depois da primeira dose, em vez de 4 semanas, como anteriormente prescrito. Por que a segunda dose da vacina foi adiada? A ideia é proteger o maior número de pessoas no menor tempo possível. As autoridades de saúde se basearam em dados do Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido, que afirma que a primeira dose garante "proteção substancial, em particular para Covid-19 grave, dentro de duas a três semanas de vacinação". Segundo eles, o reforço é mais importante para a duração da proteção que para a eficácia da vacina. Há riscos em adiar a segunda dose da vacina? Ainda não se sabe, pois não houve testes clínicos com esse intervalo entre as doses. Em comunicado conjunto, Pfizer e BioNTech afirmaram que não há respaldo científico para o maior espaçamento entre as doses da vacina. Segundo a fabricante alemã, os ensaios clínicos aplicaram duas doses com 21 dias de intervalo, e só é possível tirar conclusões sobre segurança e eficácia do produto nesse esquema de dosagem. A mesma afirmação foi feita pela Agência Europeia de Medicamentos, que aprovou o imunizante para uso na UE, ao jornal britânico Financial Times. "Qualquer alteração em relação ao espaçamento entre as doses exigiria uma variação da autorização de comercialização, bem como mais dados clínicos para apoiar tal mudança. Caso contrário, seria considerado como 'uso off label' (sem recomendação específica)", afirmou a agência. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e maior autoridade no assunto dos EUA, disse à CNN que o país não vai seguir o exemplo britânico de adiar a segunda dose. Cientistas também têm dúvidas sobre se o regime diferente de vacinação poderia aumentar o número de mutações, já que a eficácia da vacina seria reduzida.