Como 'caixa de Pandora' da Lava Jato ajuda a explicar a bomba do Capitólio candango?

Brazil's President and candidate for re-election Jair Bolsonaro and former Minister of Justice Sergio Moro attend a Presidential Debate ahead of the national election, in Rio de Janeiro, Brazil, October 29, 2022. REUTERS/Ricardo Moraes
Jair Bolsonaro e Segio Moro. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Quem assistiu, agora com imagens em detalhes reveladas pelo Fantástico, da TV Globo, a quebradeira promovida por radicais bolsonaristas no dia 8 de janeiro corre o risco de imaginar que o barril onde foi guardado tanto ódio antes da fagulha começou ontem – mais precisamente entre a derrota de Jair Bolsonaro (PL) nas urnas e a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ou, um pouco mais atrás, no momento em que o então presidente da República subiu ao palco de uma manifestação da avenida Paulista e condicionou, no dia 7 de setembro de 2021, a paz social à adoção do voto impresso na eleição do ano seguinte.

Mas o buraco é mais embaixo, como bem mostrou, em entrevista à Folha de S.Paulo, o pesquisador Fábio de Sá e Silva, doutor em direito, política e sociedade pela Universidade Northeastern (EUA) e professor de estudos brasileiros da Universidade de Oklahoma (EUA). Sá e Silva é autor de estudos de referência sobre a Laja Jato.

Um ponto de origem que leva, em pegadas, até a intentona golpista em Brasília, segundo ele, começa justamente na ação e no discurso da força-tarefa de Curitiba – o que, aparentemente, soa estranho, já que a turba bolsonarista serve justamente a um líder responsável por desmontar e anunciar a morte da Lava Jato em seu governo.

É que tem início em Curitiba o que o especialista chama de processo de mudança no qual o centro da gravidade política se move à direita e se consolida como extrema-direita.

Isso porque a Lava Jato tinha como uma de suas premissas, assumidas por figuras como o procurador Deltan Dallagnol, envolver a sociedade no combate à corrupção, o que poderia ser importante, segundo o entrevistado, se esse envolvimento não descambasse em jogar a opinião pública contra os tribunais superiores.

O caminho é conhecido de lá pra cá é assim resumido pelo professor: “Num primeiro momento, o sistema de Justiça cede. Cometem-se barbaridades na Lava Jato, como o grampo ilegal da ex-presidente Dilma Rousseff com o atual presidente Lula. O (Sergio) Moro pede escusas e não perde a jurisdição dos processos. Mas, quando a Lava Jato sofre alguns reveses, há uma subida de tom contra os tribunais. E, com isso, ela acelera e fomenta uma indisposição de parte da sociedade contra os poderes instituídos. Ela reforça a ideia de que as instituições estão contaminadas pela corrupção, de que os tribunais superiores são coniventes com isso. Não só contra o Supremo, mas também contra o Congresso."

Não por acaso, não só a sede do novo governo como também os edifícios do Congresso e do STF também foram vandalizados na rebelião de 8 de janeiro. Parte dos agressores de fato assimilou o discurso de que o STF precisava ser sitiado e que uma intervenção militar no sistema judicial era necessária (vide a minuta da carta golpista armada pelo então ministro da Justiça Anderson Torres).

No Brasil, lembrou o pesquisador, ganhou tração a mentira de que Lula só concorreu à Presidência em 2022 por conta de uma trama, com o STF, para tirá-lo da prisão. “E aí tem as digitais de Moro e do Dallagnol. Já na política, eles usaram a soltura do Lula como uma plataforma para acusar o STF de beneficiar indevidamente o (então) ex-presidente”.

Bolsonaro se apropriou desse discurso mesmo depois que Moro havia deixado seu governo atirando (dois anos antes de voltar com o rabo entre as pernas para pedir votos e promover uma nova dobradinha com o ex-chefe).

O professor afirma que a soltura e a elegibilidade de Lula não tinham nada de ilegítimo nem de armação. São decorrencias, afirma ele, de três fatores: a decantação de algumas questões jurídicas, as trapalhadas da Lava Jato e a ida de Moro ao governo Bolsonaro, quando se torna um agente e fiador da política armamentista e da perseguição a adversários impetrada pelo governo.

Dallagnol e a família Moro se tornam atores políticos vendendo-se, segundo Sá e Silva, como o remédio para um sistema político doente.

O interesse político da ação jurídica –no caso de Dallagnol, turbinada pelo discurso religioso e salvacionista que agora arrebata fanáticos em uma causa violenta – fica evidente quando se volta algumas casas para entender como o país chegou até onde chegou.

O lavajatismo e o bolsonarismo têm hoje pontos de colisão evidentes e não seria um descuido dizer que o primeiro foi engolido pelo segundo. Também não se pode dizer que o segundo não teria existido sem o primeiro.

Rosângela Moro, mulher do ex-juiz recém-eleita deputada por São Paulo, costumava dizer, no auge do casamento entre o marido e o capitão, que Bolsonaro era Moro e Moro era Bolsonaro. Uma coisa só.

O movimento que ambos conduziram tomaram vida própria.

A criatura tomou forma, fagocitou os criadores e agora perambula como ameaça. É um espírito solto que não vai voltar para a Caixa de Pandora tão facilmente.