'Como capitão que salva vidas, deveria tê-lo socorrido', diz irmão de ciclista morto

Rafael Nascimento de Souza
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RIO — “Como capitão e que salva pessoas, ele deveria ter dado o respeito. Deveria ter pelo menos socorrido o meu irmão”. O desabafo é do aposentado Rogério Leite da Silva, de 63 anos, irmão do taxista aposentado Claúdio Leite da Silva, 57, morto no fim da madrugada desta segunda-feira após ser atropelado pelo capitão do Corpo de Bombeiros João Maurício Correia Passos, de 34 anos. Rogério se despediu do irmão no sepultamento no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. O atropelamento aconteceu na Avenida Lúcio Costa, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio, a 200 metros da casa da vítima.

Por conta da pandemia de Covid-19, cerca de 20 pessoas acompanharam o enterro, que não teve velório. O corpo foi sepultado pouco depois das 14h com caixão fechado.

Rogério lembrou que o irmão, por medo de ser atropelado, não pedalava aos fins de semana.

— Em dias de sol ou de chuva, ele fazia mais de 100 quilômetros. Saía do Recreio, passava pela Praia da Macumba, Prainha, Grumari e ia até Guaratiba. Depois voltava pelo mesmo trajeto. No entanto, ele não ia aos sábados nem aos domingos. Ele tinha medo de ser atropelado por alguém bêbado.

Ainda de acordo com o irmão, no ano passado, Cláudio pedalou mais de 22 mil quilômetros pela cidade.

— Após ele ter um problema pulmonar, o médico o aconselhou a praticar um esporte. Ele escolheu pedalar e tomou gosto. Infelizmente, ele morreu fazendo o que ele mais gostava.

Mulher de bombeiro está com os pais

Abalada e com dificuldades para falar, a desempregada de 44 anos, mulher do capitão do Corpo de Bombeiros João Maurício Correia Passos, de 34, contou que teme ter um segundo Acidente Vascular Cerebral (AVC) “com tudo o que está acontecendo”. Desde ontem, seu marido foi preso. Sem ninguém para ajudá-la, ela deixou o apartamento em que morava e está na casa dos pais.

— Minha neurologista falou que não é para eu ficar falando dessas coisas porque se não eu posso ter outro — afirmou a mulher. Segundo ela, o AVC foi consequência do acidente automobilístico que ela e João sofreram em 2018. Na ocasião, o capitão estava alcoolizado e dirigia o carro.

A mulher e os dois filhos — dois meninos de 11 e 8 anos — deixaram o apartamento que viviam em um bairro da Zona Norte. Ela e o oficial do Corpo de Bombeiros vivem juntos há 13 anos.

— (Desde ontem) estou dopada de remédio, por isso não posso falar muito.

Segundo a Polícia Civil, mesmo com as sequelas acarretadas pelo acidente, João Maurício agredia a companheira. A informação foi revelada pela “Revista Época”, nesta terça-feira.

De acordo com as investigações da 23ª DP (Méier), a que a revista teve acesso, por volta de 22h30 do dia 11 de dezembro do ano passado, policiais militares foram chamados para socorrê-la em casa. Cadeirante, ela relatou ter sido agredida por ele com tapas e socos, principalmente no rosto, e chegou a receber atendimento no Hospital Municipal Salgado Filho.

Em depoimento, ela contou ser ameaçada frequentemente pelo marido, que diz, na frente das crianças, que ela não serve para nada e tem que morrer. Ela afirmou ainda que João Maurício já foi agressivo em outras ocasiões e é usuário de drogas. Ela solicitou medidas protetivas, que foram concedidas.