Como convencer as pessoas a lavar as mãos? Causar nojo nelas parece ser o jeito mais eficaz

Zaria Gorvett - Da BBC Future
The British Broadcasting Corporation

Há milhões de pessoas infiltradas entre nós que não lavam as mãos, mesmo com acesso a água encanada e sabão. Mas por que elas não incorporam esse simples hábito de higiene, e como podemos convencê-las?

"Minha resolução de Ano Novo é de dizer no ar mais coisas que eu digo fora da TV: eu acho que eu não lavo minhas mãos há uns 10 anos", revelou o apresentador de TV Pete Hegseth, da emissora americana Fox News. Ante a enorme reação negativa, disse estar brincando.

Se uma década sem lavar as mãos parece ser um recorde, por outro lado encontrar gente que sai do banheiro sem se higienizar é bastante comum. Um estudo em 2015 estimou que apenas 26% das idas ao banheiro para defecar são seguidas de uma lavagem das mãos com sabão.

"Parece ser um comportamento simples", afirma Robert Aunger, especialista em saúde pública da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. "Mas, sabe, estou trabalhando há 25 para fazer as pessoas lavarem mais as mãos, e a frequência ainda é baixa."

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É claro que parte desse cenário pode ser explicado pela falta generalizada de acesso a instalações adequadas e sabonete em diversas áreas carentes ao redor do mundo. Nos países menos desenvolvidos, apenas 27% da população tem acesso a isso. Estimativas de órgãos ligados à Organização das Nações Unidas apontam que quase 3 bilhões de pessoas enfrentam essa falta de estrutura e de sabonete em casa.

Mas mesmo em nações mais ricas, estima-se que apenas 50% das pessoas de fato lavem as mãos com sabonete após usarem o banheiro.

Essas estatísticas são particularmente estarrecedoras quando levamos em conta que lavar as mãos foi uma das invenções que mais salvaram vidas na história da humanidade, contribuindo para ampliar a expectativa de vida das pessoas, que dobrou em alguns países desde a metade do século 19.

E como se precisássemos de motivos para defender esse hábito de higiene, um amplo estudo de 2006 apontou que a lavagem frequente das mãos pode reduzir o risco de contrair uma infecção respiratória entre 6% e 44%.

Desde o surgimento da pandemia do novo coronavírus, cientistas apontaram que a cultura de lavar as mãos em um país é um indicador "muito bom" do grau de espalhamento da doença.

Na maioria das vezes, o vírus infecta as pessoas por meio de partículas suspensas no ar, mas ele também pode entrar no corpo de uma pessoa depois que uma pessoa toca superfícies ou objetos contaminados e tocam o próprio rosto.

E se uma pandemia que já infectou mais de 3 milhões de pessoas, matou mais de 200 mil e levou ao confinamento de bilhões de cidadãos não é suficiente para mudar os hábitos das pessoas, o que será?

Aparentemente, não usar a pia do banheiro não é apenas desleixo. Do estilo de pensamento de uma pessoa ao seu grau de otimismo irracional, à necessidade de se sentir "normal" e à força de seus sentimentos de nojo, vários fatores psicológicos podem subliminarmente desestimular as pessoas a lavarem as mãos.

Ao entender esses preconceitos arraigados, especialistas ao redor do mundo esperam que chamar a atenção para tornar todos nós mais higiênicos, quando for possível.

"Um problema com a lavagem de mãos é que, especialmente em países desenvolvidos, você pode deixar de fazer isso várias e várias vezes sem ficar doente", afirmou Aunger, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Mas quando isso te deixa doente, em geral dias depois, é difícil fazer a conexão entre a falta de higiene e a infecção. "No caso do coronavírus, estima-se que leve cinco, seis dias entre ser infectado e apresentar sintomas."

Cuidado com o otimismo

Um fator que se acredita ter impacto é o otimismo. O "viés do otimismo" trata de acreditar que coisas ruins têm menos probabilidade de acontecer com nós mesmos do que com outras pessoas.

Essa perspectiva irracionalmente positiva é universal, ou seja, encontrada em diferentes culturas humanas e segmentos demográficos, como sexo e idade, e até em alguns animais, como ratos. Isso nos leva a calcular mal nossas probabilidades em uma série de eventos desagradáveis, desde o desenvolvimento de um câncer até um divórcio.

Se nós vemos outras pessoas lavando as mãos no banheiro enquanto estamos ali, somos levados a fazer isso também, mas quando não há ninguém, a pressão é menor.

Essa ilusão pode ser parcialmente responsável por hábitos como fumar. Um estudo de uma grande universidade americana durante a pandemia de gripe suína (H1N1) em 2009 identificou que estudantes com graus mais altos de otimismo irracional tinham uma tendência menor a lavar as mãos. Por outro lado, aqueles que tinha alta confiança de poderem controlar suas próprias vidas eram o oposto.

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O viés do otimismo também foi identificado em estudantes de enfermagem, que tendem a superestimar seus conhecimentos sobre boas práticas de higiene das mãos, e pessoas que manipulam alimentos em seus empregos, que consistentemente subestimam o risco de causarem intoxicação alimentar em outras pessoas.

Normas sociais importam

Uma grande pista da importância da psicologia na higiene das mãos reside no alcance extraordinário dessa prática em diferentes culturas ao redor do mundo. Em um estudo francês, 64 mil pessoas de 63 países foram perguntadas se concordavam com a frase "lavar as mãos com sabão após ir ao banheiro é algo que eu faço automaticamente".

Menos da metade dos entrevistados de China, Japão, Coreia do Sul e Holanda concordaram com isso. Por outro lado, isso ocorreu com 97% das pessoas ouvidas na Arábia Saudita.

Outro estudo, este realizado pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, apontou que as mulheres são duas vezes mais cuidadosas com a higiene das mãos. E uma pesquisa realizada durante a pandemia de covid-19 indicou que 65% das mulheres e 52% dos homens lavam as mãos com frequência.

Aunger explica que essa variação se dá provavelmente em razão de normas sociais, um poderoso conjunto de regras informais que orientam nosso comportamento quando estamos em grupo. "Elas são sistemas psicológicos complexos, que dependem de ver o que os outros fazem, pensar o que os outros esperam de nós e viver a pressão de copiar comportamentos."

Racionalismo vs. pensar vivenciado

Uma das razões para os cientistas se debruçarem tanto sobre o que está por trás da higiene das mãos (ou da falta dela) é que muitas vidas dependem disso. Principalmente a de pacientes em hospitais. Apesar dos vários anos de treinamento para manter pessoas vivas, parte dos profissionais de saúde negligenciam esse hábito simples que podem ajudar a prevenir a disseminação de vírus potencialmente letais e superbactérias como a Clostridium difficile.

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Em 2007, pesquisadores identificaram que médicos de um hospital na Austrália só lavavam as mãos em 10% das vezes em que tocavam os pacientes, e em 30% delas depois de tocá-los. Um estudo mais recente expôs outros dados alarmantes. Em 2019, um estudo em um hospital de Québec, no Canadá, apontou que profissionais de saúde só lavavam as mãos em 33% das vezes.

Há outros fatores envolvidos. Em 2008, um estudo identificou que médicos que afirmam tomar mais decisões intuitivamente lavam muito mais as mãos do que aqueles que dizem pensar de um modo mais racional. Isso pode indicar, por exemplo, que apresentar uma série de argumentos em defesa dessa higiene não necessariamente será o melhor caminho para convencer as pessoas a fazer isso.

Um estudo de março deste ano no Brasil apontou outro elemento importante: conscienciosidade. Os pesquisadores identificaram que pessoas com grau mais alto de conscienciosidade ("um traço de personalidade temporariamente estável que responde pelo modo como a pessoa controla, regula e dirige seus impulsos", segundo o dicionário Michaelis) tendem a fazer mais distanciamento social e lavar mais as mãos.

Por fim, há o nojo. A sua reação ao ver um bife repleto de larvas tem o efeito colateral útil de evitar comê-lo. Da mesma forma, mover-se em um trem na direção oposta à do maquinista segurando um tecido infectado obviamente nos ajudará a evitar respirar patógenos. "Esse 'se afastar' é que é a coisa mais útil", diz Dick Stevenson, psicólogo da Universidade Macquarie, na Austrália.

Mesmo chimpanzés, que frequentemente são vistos comendo suas próprias fezes em zoológicos, se sentem enojados com fluidos corporais de outros indivíduos, sugerindo que o nojo não é apenas um subproduto recente da cultura humana, mas algo que evoluiu para nos proteger.

E assim como ocorre com qualquer outra emoção, a extensão de como vivenciamos o nojo varia bastante de uma pessoa para outra. É uma força oculta poderosa em nossas vidas, que move tanto as nossas decisões políticas (pessoas mais sensíveis ao nojo tendem a votar de modo mais conservador) quanto o nível de aceitação de os outros serem gays, de nós sermos xenófobos ou termos medo de aranha.

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Um estudo sobre higiene das mãos no Haiti e na Etiópia identificou que o grau de conhecimento e noção de uma pessoa sobre questões de saúde não eram tão relevantes para fazê-las lavar as mãos quanto a intensidade do nojo que sentiam.

Manter a higiene

Então o que pode ser feito para superar esses vieses?

Nas últimas semanas, autoridades de saúde pública, instituições de caridade, políticos e membros da sociedade civil integraram a maior campanha já vista em prol da higiene das mãos. Celebridades fizeram vídeos mostrando a técnica correta, memes inundaram a internet e até sites pornôs se envolveram na iniciativa.

O Pornhub se juntou à diretora Ani Acopian e à produtora Suzy Shinn para montar o Scrubhub, um site paródico somente de vídeos de pessoas limpando as mãos, com títulos sugestivos como "Garotas gostosas vão à loucura em público - DESINFETADAS!".

A água com sabão é uma receita poderosa.

Como despertar nojo

Mas, dado o que sabemos sobre nossos preconceitos psicológicos anti-higiênicos, esses esforços bem-intencionados realmente levarão as pessoas a lavarem as mãos?

Em vez de fazer com que essa higiene seja divertida ou sexy, um dos principais focos de pesquisa é o de despertar nojo.

Em 2009, Stevenson e colegas da Universidade Macquarie testaram a ideia em estudantes. Depois de perguntar sobre hábitos deles de lavagem das mãos e sensibilidade de nojo, eles foram convidados a assistir a um dos três vídeos: um vídeo puramente educacional, um com visuais enojantes e um de controle, que era um documentário irrelevante sobre a natureza.

Cerca de uma semana depois, os estudantes foram convidados a voltar e sentaram-se a uma mesa ao alcance de lenços antibacterianos e álcool em gel para as mãos. Eles receberam uma série de objetos bastante anti-higiênicos para manusear. Depois de segurar cada objeto, eles foram convidados a comer uma bolacha de um prato. Os voluntários desinfetariam as mãos antes de tocar na comida?

Como se esperava, os pesquisadores descobriram que as pessoas que assistiram ao vídeo de nojo estavam muito mais propensas a limpar as mãos antes de comer do que as pessoas dos outros grupos. Na verdade, elas limparam mais as mãos do que os outros dois grupos juntos.

Em um outro estudo, a equipe de cientistas confirmou que isso também poderia funcionar no mundo real. Ao monitorar secretamente a lavagem das mãos de pessoas em vários banheiros, descobriram que as pessoas ficavam consideravelmente mais motivadas a se higienizar quando eram lembradas por pôsteres que mostravam fezes em um pão, para mostrar como os germes se espalham se você não lavar as mãos, do que por conteúdos meramente educativos.

"Essa é uma questão importante, porque, a princípio, você precisa continuar motivando a pessoa a lavar as mãos em situações específicas, como cartazes e alertas. E se isso for mantido por tempo suficiente, então o comportamento se tornará um hábito. O que não sabemos é quanto tempo isso leva", afirma Stevenson, da Universidade Macquarie.

Aunger, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, concorda que isso é fundamental. "Temos um contexto muito especial agora, onde milhões de pessoas estão interessadas em lavar as mãos por causa do coronavírus. Mas a questão é: podemos alcançar níveis realmente altos e ficarmos nesses patamares?"

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