Como Daniela Alves se reinventou para voltar ao futebol

Dani Alves está no Corinthians desde janeiro (Divulgação/Corinthians Feminino)

Por Fran Mariotto

Lembrada até hoje como uma das maiores meio-campistas que o Brasil já teve, Daniela Alves enfrentou muitas dificuldades dentro e fora de campo – a exemplo da maioria das meninas que querem jogar bola no Brasil. Teve uma carreira vitoriosa, mas curta, já que uma grave lesão no joelho a fez se aposentar precocemente. Sem conseguir andar direito, precisou se reinventar e trabalhou até em açougue antes de encontrar no papel de treinadora um caminho para continuar vivendo de sua paixão, o futebol.

Conhecida pela agilidade e qualidade técnica, a ex-jogadora chamou atenção muito cedo, aos 15 anos, quando foi convocada para disputar sua primeira Copa do Mundo, em 1999. Mais tarde viriam outras duas edições do Mundial, três Olimpíadas e um Pan-Americano – este último que rendeu a Daniela uma medalha de ouro e o título de sexta melhor jogadora do mundo pelo ranking FIFA, em 2007.

Assim como muitas de suas colegas, os primeiros toques na bola foram na rua, jogando com meninos, sem aprovação da família. “Não havia meninas querendo jogar futebol, então eu brincava com os meninos na rua. Na minha cabeça, eu era a única mulher no mundo que jogava. Esse preconceito vinha de dentro de casa. Mas como mulher guerreira que sou, não desisti e fui à luta.”

Aos 13 anos, Dani Alves começou a jogar pela Portuguesa, clube pelo qual conquistou seus primeiros títulos, o Campeonato Paulista e a Copa Primavera. Depois disso, sua carreira decolou. Defendeu Saad e São Paulo, e depois se arriscou no futebol internacional, primeiro pelo Saint Louis Athletica, nos Estados Unidos, e depois no sueco Linköpings FC, no qual, aos 26 anos de idade, pendurou precocemente as chuteiras.

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Em 2009, quando atuava na Liga Norte Americana, sofreu uma entrada violenta de Abby Wambach. No lance, Abby acabou rompendo o ligamento do joelho e fraturando um osso de Dani, que precisou se submeter a várias cirurgias para corrigir os problemas. Contudo, ela jamais conseguiu se recuperar completamente.

“Não imaginei que seria meu final, porque nunca havia ficado fora por causa de uma lesão. Tive que fazer cirurgia. Foi muito frustrante, porque sempre fui totalmente independente e, naquele momento, tornei-me dependente da minha mãe para tudo: comer, tomar banho, levantar. Ainda lutei para retornar, mas depois da minha terceira cirurgia seguida resolvi parar, porque tinha sofrido muito. Então senti que isso foi tirado de mim. Não conseguia andar normalmente, o que me afetou muito”, relata.

O trauma dos processos cirúrgicos fez com que ela tomasse a decisão de abandonar os campos precocemente. Para pagar as contas, Dani entrou como sócia no açougue da família, na Zona Sul de São Paulo, no qual trabalhou por cinco anos. Mas mesmo afastada do esporte, o futebol não saía da cabeça da ex-jogadora.

“Não estava feliz assim. Passarinho solto não vive preso. Resolvi largar jogar tudo para o alto, não olhar para trás e voltar para o que mais amo, o futebol”, conta. “Saí do açougue sem levar nada, nenhuma colher que fosse. Então, como moro perto do campo de futebol onde comecei a jogar com outras meninas, o Acadêmicos Cidade Dutra, fui lá na escolinha deles ver se não precisavam de alguém para dar aulas.”

Dani Alves foi auxiliar de Doriva na seleção sub-20 (Lucas Figueiredo/CBF)

Dani passou a dividir as aulas na escolinha com o trabalho de comentarista na Rádio Transamérica e na TV Bandeirantes, às quais chegou com incentivo da jornalista Lu Castro. Em 2016, chamou atenção da CBF e foi convidada pelo coordenador de seleções femininas, Marco Aurélio Cunha, para ser assistente do técnico Doriva Bueno na seleção sub-20.

De lá para cá, ela vem acumulando experiência com a prancheta na mão. No começo do ano, aceitou o convite para ser técnica do time sub-17 feminino do Corinthians, onde hoje disputa o Brasileiro Sub-18 e se prepara para a disputa do Paulistão da categoria. Em maio, a trajetória da ex-jogadora foi exaltada na exposição “Contra-Ataque”, do Museu do Futebol, ao lado de figuras como Sissi, Fanta e Aline Pellegrino. Suas atletas do Corinthians fizeram questão de acompanhar a homenagem.

Dani Alves reconhece todo o esforço de sua história, assim como de suas ex-colegas, pelo espaço conquistado pelas mulheres na modalidade. “É gratificante porque isso tudo [reconhecimento nacional do futebol feminino] está acontecendo porque demos muito a cara a tapa. Tive a oportunidade de começar jovem e fazer parte desse processo. Me sinto realizada, porque essa sempre foi minha causa, fazer com que o futebol crescesse e as meninas de hoje pudessem ter as coisas melhores do que era na minha época.”

Quanto ao futuro, a hoje treinadora se mostra otimista. “O futebol feminino não tem volta. Ele é daqui para a frente. As empresas vão começar a enxergar a modalidade de outra forma. Assim como a Fifa, as confederações já estão mudando, junto com as federações, que estão abraçando essa causa.”