De fakes sobre vacina à 'fraude' eleitoral: como desarmar a bomba da ignorância?

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Sócrates, filósofo que viveu entre 469 e 399 antes de Cristo, foi levado a julgamento, aos 70 anos, sob acusação de colocar a moralidade de Atenas e a crença nos deuses em risco. Ele havia colecionado inimizades desde que, numa conversa com os sábios da época, notou que todos ali acreditavam ter conhecimento profundo sobre tudo, mas não tinham.

Para ele, a sabedoria era justamente não ter ilusões sobre o próprio saber. Foi com essa premissa que ele entrou para a História ao dizer “só sei que nada sei”. Na sentença, revelava que o conhecimento é sempre o que ainda está por vir e ainda não alcançamos. O contrário, diria outro filósofo contemporâneo, era morrer abraçado àquela velha opinião formada sobre tudo.

Em seu julgamento, Sócrates declarou, antes de ser morto, que a vida irrefletida não valia a pena ser vivida.

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Muitos séculos depois, é essa premissa que leva um cidadão minimamente interessado em conhecer o mundo e a si mesmo a buscar informações sobre o mundo através de filmes, livros, páginas de jornais ou portais de notícias minimamente sérias. Nadam contra a maré pela qual as redes sociais e seus canais assumidamente dispostos a vender realidades paralelas assassinam a máxima do filósofo grego ao levarem seus seguidores a concluírem: “só sei que tudo sei”.

Levada ao limite, essa perspectiva da própria noção, de si e da realidade, resulta em diversos impasses na sociedade atual. Dos invasores do Capitólio que prometem botar fogo em tudo até a realidade se curvar à própria convicção (no caso, a de que Donald Trump não sofreu uma derrota nas urnas, mas uma fraude eleitoral) ao parente azedo e ignorante da própria ignorância que passa os dias apontando a burrice de todo mundo que não acompanha seu raciocínio ou se nega a se curvar à verdade que leu no Zap ou nos posts presidenciais mais alucinados.

Nesta segunda-feira 11, a Folha de S.Paulo publicou, em sua manchete, o resultado de uma pesquisa que coloca em dados o que, muitas vezes, é só percepção. Realizado em parceria com cientistas políticos da Universidade da Carolina do Norte-Charlotte, nos EUA, da UFMG, da UFPE e da consultoria Quaest, o estudo concluiu que o acesso ao jornalismo profissional de qualidade reduz consideravelmente a chance de um eleitor acreditar em fake news. Isso talvez explique tanta vontade de alguns líderes políticos em desacreditá-los e destruí-los.

Da pesquisa participaram 1.000 voluntários, que tiveram de responder a perguntas consideravelmente simples a respeito das eleições municipais realizadas em novembro do ano passado, tais como: qual era o candidato apoiado por Jair Bolsonaro na corrida paulistana; quem era o candidato que havia disputado a eleição para governador em 2018; quem era o vice de Bruno Covas (PSDB) e quem era o candidato apoiado pelo governador João Doria (PSDB). Reparem que para cada pergunta existe apenas uma resposta --ninguém perguntou, por exemplo, se algodão doce é bom ou ruim, o que levaria a uma infinidade de respostas a partir de qualquer ponto de vista e opinião.

A média de acerto foi de 2,6 (a nota máxima era 4).

Entre eleitores que aprovam a gestão de Jair Bolsonaro a nota foi de 2,2. Mas, ao serem questionados, diziam que iriam acertar 2,8 e que os demais participantes fariam apenas 2,1. Em outras palavras, conforme pontuou o jornal, diariamente atacado pelos grupos bolsonaristas a mando do presidente, eles sabiam menos do que achavam, mas acreditavam que os outros eram piores. (Os que desaprovam o governo, na verdade, acertaram 2,8).

Os dados levaram os pesquisadores a citar o chamado efeito Dunning-Kruger, fenômeno que leva indivíduos com pouco conhecimento sobre um assunto a acreditar que sabem mais que outros, mesmo que os outros sejam mais bem preparados. Por exemplo, alguém sem formação médica dizer como os médicos devem trabalhar e quais medicamentos devem indicar em tempos de pandemia.

Se esse descolamento da realidade acontece em perguntas simples, o que acontece quando o assunto é vacinação, imunização, RNA mensageiro e vírus inativados? Basta pegar as correntes sobre os perigos da alteração genética do cidadão imunizado e a queda no índice dos que pretendem se vacinar para vislumbrar a encrenca.

Na invasão do Capitólio, podia-se acusar os agressores de tudo, menos de não ter convicção de que faziam o que, para eles, era a “coisa certa” --ainda que a “coisa certa” beneficiasse quem passou quatro anos distorcendo a realidade e que precisou ser bloqueado das redes sociais para deixar de usar seus apoiadores, dispostos a matar ou morrer por seu líder, como títeres.

Talvez essa bomba fosse devidamente desativada com um grau maior de informação e discernimento, itens destroçados sistematicamente pela lógica das redes e dos algoritmos em busca de engajamento. A ignorância é um projeto. Se as gigantes da tecnologia, que se tornaram plataformas desses projetos autoritários, não agirem contra os engenheiros do caos com a mesma firmeza que agem quando alguém posta fotos de mamilos, serão igualmente engolidas no futuro breve.

Antes que se tornem casos de polícia, essas pessoas devem ser trazidas de volta à realidade e à maior lição de humildade que alguém disposto a encontrar conhecimento deve ter em mente: só sei que nada sei.

Como isso será feito sem aprofundar fissuras (chamar de “gado” não resolve) é o grande desafio.

O resto é certeza absoluta. E de certeza absoluta o mundo está cheio --e à beira do caos.

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