Como e por que Arsenal desafia domínio de City e Liverpool na Inglaterra

Uma caminhada de 600m separa o Emirates Stadium do condomínio construído no local onde ficava o antigo campo de jogo do Arsenal, o Highbury. A distância simbólica entre os dois pontos, porém, é infinitamente maior. No antigo estádio, demolido em 2006, o time londrino viveu suas maiores glórias, foi campeão nacional invicto apenas dois anos antes da mudança de casa. Já no Emirates, à época o estádio mais moderno da Inglaterra, os Gunners, em vez de crescerem ainda mais, encolheram. Nunca mais viveram uma temporada como aquela de 2003-2004. Mas pode ser que isso mude em breve.

Ontem, o time recebeu o Manchester United na última partida do primeiro turno do Campeonato Inglês. Venceu de forma emocionante, por 3 a 2, com dois gols do jovem Nketiah, um aos 45 do segundo tempo, e manteve a vantagem para o Manchester City, segundo colocado, em cinco pontos — com uma partida a menos. Em 19 jogos, sofreu apenas uma derrota.

Nketiah, de 23 anos, é só um dos jovens que formam maioria no líder do melhor campeonato do mundo. A média de idade do elenco é de 23,5 anos. A da equipe titular, ainda menor: 22,4. Ao longo das últimas temporadas, o grupo foi sendo rejuvenescido, com veteranos sendo gradativamente negociados: David Luiz, Willian, Aubameyang, Lacazette. Sobraram os meninos que têm sido trabalhados pacientemente: mesmo tão jovens, os jogadores da base titular possuem em média três temporadas no clube.

O responsável por isso é Mikel Arteta, espanhol que há quatro temporadas treina o Arsenal. Entre os seis grandes da Inglaterra, apenas Manchester City e Liverpool possuem trabalhos mais duradouros, ambos muito mais vitoriosos e, consequentemente, com manutenção mais óbvia. United, Chelsea e Tottenham trocam de treinador com mais frequência e pagam o preço disso.

Arteta, ex-auxiliar de Pep Guardiola, levou para o Arsenal um estilo parecido com o do já lendário treinador do City. A conhecida obsessão pela posse da bola de Guardiola não é tão marcante na equipe de Arteta, mas também acontece. A preferência por jogadores bons na troca de passes tem pautado escolhas do treinador em todas as posições. Mas o que tem feito a diferença a favor dos londrinos é o desejo de vencer, acredita Guardiola. Os 19 anos sem vencer a Premier League dão aos jogadores do Arsenal um senso de competitividade acima dos rivais.

De fato, o jejum tem seu peso na campanha do líder. A recorrente aposta em jovens é antiga e já levou os torcedores do time, um dos mais populares da Inglaterra, à loucura. Os investimentos há duas décadas estão sempre aquém dos principais adversários domésticos e isso teve efeitos na comparação com os rivais. O Chelsea, que historicamente foi um time menos vencedor de Londres, emplacou duas Champions League, enquanto o Arsenal tem apenas um vice, em 2005-2006. Nas competições domésticas, o time conquistou quatro Copas da Inglaterra e quatro Supercopas da Inglaterra nos últimos dez anos. Pouco, perto das 14 taças do Manchester City no mesmo período, cinco da Premier League.

Agora, o vento sopra a favor e o mais interessante é que os Gunners conseguem a ótima campanha no meio do caminho entre a política dos investimentos majoritariamente feito em jovens, ainda em vigor, e um ligeiro aumento no valor gasto com contratações. Para reforçar o grupo para a atual temporada, gastou cerca de 156 milhões de euros — os últimos 24 milhões para contratar o atacante belga Leandro Tossard, que entrou realmente nos planos somente depois da lesão no joelho esquerdo de Gabriel Jesus. O valor é consideravelmente mais baixo quando comparado às fortunas gastas por Manchester United (240 milhões de euros) e Chelsea (425 milhões). Rival do norte de Londres, o Tottenham também gastou mais — 169 milhões de euros.

Entretanto, o Arsenal superou as investidas de Manchester City (139 milhões de euros) e Liverpool (137 milhões de euros). Isso ajuda a explicar porque diminuiu a diferença para a dupla que se reveza no topo da Premier League há cinco temporadas