De retroescavadeira a veterinário na Saúde: quem explica o Brasil?

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A person gestures out of a car's window as supporters of Brazil's President Jair Bolsonaro protest against the quarantine measures, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in Sao Paulo, Brazil May 17, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli     TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Como explicar o que está acontecendo no Brasil a um estrangeiro?

O exercício é recorrente quando tentamos olhar em perspectiva o nonsense com pé na tragicomédia que se tornou o Brasil desde que...bem, desde que a família real portuguesa decidiu trazer A CORTE INTEIRA num navio até aqui.

Desde então, traduzir o Brasil tem sido tarefa das mais fantásticas -- e ingratas.

Senti o drama no dia em que, estando a 12 mil quilômetros de casa, tentei traduzir a uma amiga indiana a notícia que acabava de chegar a mim pelo celular. Ela tentou entender meu assombro e eu, com meu inglês mambembe, não conseguia explicar que um senador do meu país acabava de ser baleado após avançar contra amotinados quebrando um portão com uma retroescavadeira.

E a polícia?, ela me perguntou.

A polícia estava do outro lado do portão.

De um tempo pra cá, traduzir este país é um dos muitos desafios de quem escreve sobre nossas pulsões mais delirantes e doentias, como afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo a psicanalista Maria Homem. Para ela, “ou sentamos à mesa e explicitamos o que estamos fazendo, quem somos nós, ou vamos ser deixados fazer inconscientemente”.

Antes de traduzir o Brasil, é necessário entendê-lo. E isso exige a remoção de um senso comum, travestido de ditado, que ronda nossa experiência pessoal como a pedra de Drummond. Esse falso dilema diz que os otimistas estão ou mal informados ou não entenderam nada. Pura falácia: os rebotes da ignorância uma hora batem à porta, ou em forma de medo do desconhecido, ou dos desajuste de conexão, que nos fazem viver infelizes no segundo país, entre 28 nações, com menos noção de realidade, segundo uma pesquisa Ipsos Mori. O que, se não a ignorância, nos permite ser tão violentos sem sequer admitir que somos?

O jornalismo tem uma função na elaboração de respostas a esta pergunta. Não por acaso, está sob ataque. Não é preciso envelhecer e deixar tudo passar para saber e entender o que aconteceu ou está acontecendo.

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Dias atrás, soube que dez organizações jornalísticas independentes, entre elas a Ponte Jornalismo, se reuniram para criar um canal, de nome Reload, com o objetivo de descomplicar notícias e ampliar o acesso dos jovens às informações. Para isso, o canal trouxe para a conversa 12 influenciadores de diferentes origens e partes do Brasil.

Fui um dos jornalistas convidados a conhecer o conteúdo da plataforma antes do lançamento oficial, neste 1º de agosto.

Já no primeiro vídeo, sobre o que está rolando no MEC, percebi como, mesmo para nós, formados há alguns anos, com hábito de ler ao menos um jornal por dia, é difícil lembrar e entender tudo o que se passa em temas que muitas vezes passam batidos, mas que batem fundo em leitores em idade escolar, sobretudo os da fase pré-vestibular.

As notícias estão por aí, aos montes, esperando um anzol da curadoria para ganharem contexto e força. Assistir ao resumo da coisa toda, com as devidas pontuações e exclamações, ajuda a perceber não só os absurdos das notícias, mas nossa disposição em naturalizar absurdos conforme criamos outros.

(Já parou para dizer em voz alta que estamos no sexto mês de uma pandemia e que neste período um ministro da Educação precisou sair fugido do Brasil após manifestar em reunião a vontade de prender juízes? E que desde então estamos no terceiro titular da pasta sem saber exatamente o que vai ser do ano letivo? Ou que o atual ministro da Saúde, sem especialidade na área, só assumiu o posto após dois antecessores especialistas serem fritados porque se negavam a receitar um remédio que o presidente, e não os médicos, queria que o país tomasse? E que este ministro eternamente interino acaba de nomear um VETERINÁRIO para o departamento de imunização? E o que dizer de um país que quer taxar livros e liberar armas como resposta aos desafios contemporâneos?)

O fim da história não está próximo, mas buscar suas origens e relembrar como chegamos até aqui é uma forma de pensar em saídas. E também de trazer ao debate, com novas linguagens, uma parcela importante da população que quase nunca é chamada para a conversa, menos ainda para opinar -- também não por acaso, a escola, sob os olhares vigilantes dos fundamentalismos vigentes, tem se transformado em trincheiras onde discutir atualidades, direitos ou investigar dilemas virou “doutrinação”.

Ao que tudo indica, a participação de eleitores com 16 e 17 anos no pleito municipal de novembro será a menor em uma eleição brasileira desde 1990. Segundo levantamento do jornal O Globo no Tribunal Superior Eleitoral, cerca de um milhão de eleitores deste grupo etário estão aptos a votar, número 55% inferior ao registrado em 2016.

A curiosidade é que, de lá para cá, a impressão é que o Brasil se politizou e passou a discutir mais política dentro de casa. Para quem está começando a vida adulta agora, esta conversa já está empoeirada.

Tirar esse poeira e exige entender onde está, o que pensa, com quem se identifica, o que consome e como se comunica este grupo que terá uma vida pela frente para transformar o mundo. Trata-se de uma multidão sedenta por notícias e mudanças e que têm nas redes sociais, sobretudo o Instagram, a principal fonte de informações.

O alcance pode acontecer por vídeo, rap, HQ e poemas complementares a reportagens de fôlego. Mas uma coisa parece certa: ninguém vai trazer ninguém para a conversa falando de cima para baixo. Este foi o erro dos nossos pais, avós, bisavós e por aí vai. Que seja diferente no século que já escreve a própria história.

Em tempo. Na coluna passada, questionei por aqui que, por medo da falência ou da polícia, o embate com o governo central poderia custar caro a gestores municipais e estaduais. No mesmo dia, o governador interino do Rio, celebrou um telefonema do senador Flávio Bolsonaro que pode selar o alinhamento automático com o governo do pai, que em breve poderá aprovar ou um pedido de renovação do Regime de Recuperação Fiscal (RRF).

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