'Como eu iria chamar a polícia se ele é a polícia e estava armado?’, questiona vítima agredida por ex em delegacia

Na semana em que duas mulheres foram assassinadas brutalmente por ex-companheiros e que o ex-chefe de investigação da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Jacarepaguá, Marcos André de Oliveira dos Santos, de 50 anos, virou réu por lesão corporal, injúria, ameaça e violência psicológica contra uma ex-companheira, mais uma história estarrecedora é descoberta. Uma técnica de enfermagem, de 45 anos, denuncia que foi agredida a tapas, socos e por barra de ferro pelo ex-companheiro, o inspetor da Polícia Civil Mário Sérgio Gonçalo Coelho, de 65. A sessão de espancamento teria acontecido dentro da 74ª DP (Alcântara), após ele pedir para conversar com a ex-companheira — que não aguentava mais ser agredida. Machucada, a vítima foi salva por agentes do 7º BPM (São Gonçalo), que patrulhavam a região no momento das agressões.

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O caso está sendo investigado pela Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de São Gonçalo. Mas a vítima afirma que o policial segue trabalhando normalmente na 74ª DP. Enquanto isso, a Justiça do Rio — a pedido da Deam — expediu uma medida protetiva contra o agente.

O que era para ser flores, se transformou em pesadelo. Foi assim que a mulher definiu o relacionamento. Ela diz que conheceu o suspeito há cerca de três anos quando ela esteve na delegacia para registrar um boletim de ocorrência. Quem a atendeu foi Mário Sérgio.

— Tive um problema e fui registrar um boletim de ocorrência. Lá, ele foi muito gentil e disse que aquela situação era algo que ele iria resolver pessoalmente. Como ele já tinha uma idade, eu me senti segura, acolhida. Passamos a conversar e quatro semanas depois já estávamos morando juntos. Era tudo muito especial. Ele era cuidadoso. Mas meses depois ele já começou a me agredir psicologicamente. Dizia que eu não precisava trabalhar, que eu era muito bonita e que mulher dele não trabalhava. Eu fazia um curso de enfermagem e tive que largar — diz a mulher, que por medo e vergonha não se identifica.

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Ela conta também que meses depois pediu a separação. Mas, convencida por Mário Sérgio, reatou novamente. Entre idas e vindas, o casal completaria três anos de união no próximo mês. Até frequentar a academia e visitar os parentes, a técnica de enfermagem diz ter sido proibida pelo homem.

— Entre agosto e setembro do ano passado, eu estava muito feliz, animada. Ele falou que eu estava proibida de ir para a academia. O meu corpo é bonito e chama a atenção. Parei de ir para a academia, ele dizia que eu só tinha que ficar em casa. Ele tinha ciúmes até da minha família. Ele mandava dar desculpas para eles, que eu trabalhava em três empregos para não frequentar a casa deles. Eu não poderia ter amigos no condomínio, me relacionar com meus vizinhos — conta chorando.

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O relacionamento chegou ao fim quando a mulher descobriu que Mário Sérgio mentiu que era solteiro. A técnica de enfermagem descobriu que ele era casado e pediu a separação.

— Nos separamos, e mesmo assim ele ficou frequentando aqui em casa. Mas, como eu não queria mais, troquei a fechadura da porta. Mesmo assim, ele voltou aqui e ficou entre os dias 15 e 17 de julho. Eu mandei ele ir embora — diz a mulher, que não imaginava que iria ser espancada horas após o policial civil deixar sua casa.

— No dia 17, eu fui no Calçadão de Alcântara e ele estava lá com duas sacolas. Ele me abraçou e me beijou e disse que era para eu ir com ele lá na 74ª DP para a gente conversar. Eu me senti segura, porque lá é uma delegacia, onde as pessoas registram boletins de ocorrência e, teoricamente, estão protegidas. Chegando lá, vi que tinha um outro agente. O meu ex mandou ele ir almoçar e pediu para eu sentar. Ele começou a dizer que eu pertencia a ele e começou a me bater com um porrete que é metade de madeira e metade de ferro. Ele me deu quatro pauladas e eu corri até a porta de vidro da saída. Nisso, eu avistei agentes da PM e gritei que estava sendo agredida. Ele ainda me bateu mais três vezes. As câmeras dos policiais flagraram. Em seguida, esses agentes chamaram uma viatura da 7º BPM (São Gonçalo) e fui para o Hospital estadual Alberto Torres, em São Gonçalo. Em seguida, fui levada para a delegacia de Neves (73ª DP).

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Em nota, a Polícia Militar "informa que, no último dia 17 de julho, uma mulher abordou equipe do 7º BPM (São Gonçalo) comunicando que havia sido agredida, em Alcântara. Na 74ª DP, a responsável pelo acionamento envolveu-se em um desentendimento com um policial civil. Após conter as partes, os policiais conduziram a vítima ao Hospital Estadual Alberto Torres, no Colubandê. Posteriormente, o fato foi registrado na 73ª DP".

A técnica de enfermagem lembra que chegando no local ela ainda viu o policial civil Mário Sérgio Gonçalo Coelho rindo e conversando com os colegas de corporação. Ele foi liberado após prestar esclarecimentos. Na 73ª DP, os investigadores solicitaram um corpo de delito, que teria comprovado as agressões.

— No IML o rapaz perguntou se ele havia ficado preso, por conta das agressões e do jeito que elas foram feitas. Mas infelizmente ele está solto e trabalhando normalmente. Quando ele me agrediu, eu liguei para a filha dele e contei o que estava acontecendo. A filha dele falou que era para eu chamar a polícia. Mas como eu iria chamar a polícia se ele é a polícia e estava armado durante as agressões? — desabafa a mulher.

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Por ser Central de Flagrante, na segunda-feira (18), a 73ª DP enviou o inquérito para a Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de São Gonçalo, que apura o caso. De acordo com a delegada Carla Conceição Guimarães Tavares, “a vítima foi ouvida, e ela solicitou uma medida protetiva”. Ainda de acordo com a policial, “para proteger a vítima, o caso está em sigilo”.

— Considerando a profissão de um dos envolvidos, para preservar a vítima e sermos isento na apuração, o caso está em sigilo. Esse inquérito foi aberto pela 73ª DP e o delegado transferiu para a Deam de São Gonçalo. Eu ouvi os dois novamente, ela solicitou a medida protetiva e agora a gente aguarda as testemunhas do policial. Ele fala que a versão não é bem essa. Vamos ouvir as pessoas que ele vai trazer durante a próxima semana e vamos relatar o inquérito. Os PMs que a socorreram já prestaram depoimento e o exame de corpo de delito já está pronto — disse a delegada.

O GLOBO não conseguiu contato da defesa do policial civil. Em depoimento, ele afirmou que não agrediu a mulher e que apenas a conteve para que ela não quebrasse os computadores da delegacia. As câmeras de segurança de distrital foram solicitadas. Procurada, a Polícia Civil ainda não respondeu sobre o caso.

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