Como eu superei meus medos e passei a usar uma bengala para pessoas cegas

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Gustavo, um um homem de pele clara e cabelos curtos castanhos, empunha uma bengala para pessoas cegas.
Entendi que a bengala era um símbolo de autonomia. Passei a me sentir cada vez mais confortável. (Foto: Acervo Pessoal)

Descrição da imagem: Gustavo Torniero é um homem de pele clara, cabelos curtos e castanhos e cavanhaque curto, também castanho. Está em pé e de frente. Ele usa camisa cinza, calça jeans e tênis pretos. Sorri e empunha uma bengala para pessoas cegas, apontando-a para a frente. Atrás dele, uma porta de vidro com uma sala ao fundo.

Muitas pessoas cegas rejeitam o uso da bengala por vergonha, medo ou desconfiança de que ela possa trazer algum benefício substancial em suas vidas. Eu era uma dessas pessoas até os 18 anos de idade - quando, efetivamente, aceitei que tinha chegado a hora de quebrar esse tabu.

Em grande parte, minha desconfiança tinha relação com o fato de ser visto como uma pessoa com deficiência visual a partir do momento que eu passasse a me locomover com a bengala.

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Eu me sentia, de certa forma, exposto e vulnerável. Com o uso desse recurso, eu realmente seria identificado facilmente pelas pessoas ao meu redor. Mas o que eu não sabia era que isso estava longe de ser um malefício: era, sim, um símbolo da minha autonomia e da minha presença nos diferentes espaços.

Quando tinha uns 14 anos, cheguei a fazer algumas poucas aulas em casa. Para saber andar com segurança em lugares públicos e privados com a bengala é necessário aprender técnicas específicas, ensinadas por um especialista em orientação e mobilidade.

O professor vinha de muito longe e as aulas eram de 15 em 15 dias. Foi um curto período no qual eu pude começar a me desafiar. Mas ainda não estava totalmente preparado.

A verdade é que eu sempre tive um suporte familiar e a comodidade de poder ser levado para os lugares que eu gostaria de ir. Eu utilizava esse artifício para me adiar o quanto fosse possível o uso da bengala.

Tudo mudou em 2014. Naquele ano, entrei na faculdade de jornalismo. Incomodado cada vez mais com minhas questões de autonomia e independência, decidi que tinha chegado a hora de tomar alguma atitude prática. Eu queria ter a possibilidade de escolher como eu ia para os lugares e voltava para casa, sem depender dos pais ou de outra pessoa.

Mas ainda não sabia bem como fazer isso. Até que uma coincidência atravessou meu caminho. Beto, um grande amigo com deficiência visual, vivia me dizendo para eu fazer as aulas.

Um dia, indo para a casa dele de ônibus, encontramos com uma professora de orientação e mobilidade da Fundação Dorina, uma das principais instituições que oferecem serviços para pessoas cegas. Dois dias depois eu estava passando pelo processo de triagem para começar a ser atendido pela entidade.

Foi assim e naquele ano que eu passei efetivamente a fazer as aulas e a praticar. Pouco a pouco superando meus medos e meus questionamentos. Entendi que a bengala era um símbolo de autonomia. Passei a me sentir cada vez mais confortável.

Ela me identificava, sim, mas por bons motivos. Para que as pessoas soubessem que eu existo e que eu preciso ser respeitado. E que, eventualmente, preciso de ajuda. E isso foi um salto enorme na minha autoestima. E, por isso, passei a ter orgulho de utilizá-la.

Antes eu não tinha a autonomia de decidir. Hoje eu posso saber se quero ou se preciso levar a bengala para onde eu for. E isso faz muita diferença. Nem sempre estou com ela quando saio acompanhado, mas sozinho ela sempre me faz companhia.

Seja para detectar desníveis, degraus ou objetos, para atravessar ruas e entrar nos vagões de trem e metrô com segurança. Ou simplesmente para mostrar quem eu sou e porque estou ali.

A bengala é tão importante para pessoa com deficiência visual que temos até um dia para falar sobre ela: dia 15 de outubro é o Dia Mundial da Bengala Branca. Essa data foi instituída para conscientizar as pessoas sobre o que eu demorei 18 anos para entender, que a bengala é, também um símbolo de independência

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