Explicar o Brasil para um estrangeiro já era difícil. Em 2022 ficou impossível

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An Indigenous protester takes part in a march to protest against Brazil's President Jair Bolsonaro and for land demarcation and increase of goldmining in indigenous territories in Brasilia, Brazil, April 11, 2022. REUTERS/Amanda Perobelli
Protesto de indígenas contra Jair Bolsonaro. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Quem tem amigos estrangeiros já deve ter percebido que de um tempo pra cá ninguém mais pergunta como estão os humores tupiniquins direcionados para a bola de futebol. Mesmo em ano de Copa do Mundo.

Faz pelo menos três anos que as conversas sobre o ludopédio foram substituídas por um mesmo e recorrente questionamento: como anda aquele maluco que vocês elegeram?

Outro dia um desses gringos me escreveu para compartilhar suas impressões sobre o atacante Endrick, jovem promessa das categorias de base do Palmeiras que brilhou em um torneio na França nesta semana. Até estranhei.

A gente mesmo mal acompanhou, eu respondi, quase envergonhado.

Talvez porque estivéssemos ocupados demais em voltar do choque depois de ouvir o presidente do Superior Tribunal Militar dizer que os áudios com descrição de detalhes das torturas realizadas nos tempos da ditadura não estragaram a Páscoa de ninguém.

Esse amigo fã de futebol acompanha as notícias do Brasil à distância –não só geográfica. De vez em quando se fixa numa manchete publicada em seu país sobre índices de desmatamento na Amazônia, ameaças de rompimento institucional, ataques a embaixadores chineses ou primeira-dama francesa, alianças com Vladimir Putin às vésperas dos ataques à Ucrânia e por aí vai.

As notícias dos rapapés que definem nos bastidores as grandes tragédias nacionais quase nunca chegam por lá. E então uma simples conversa sobre um possível futuro craque da seleção vira uma oportunidade de observar os atropelos domésticos pelo olhar estrangeiro. Recomendo o exercício.

Meu amigo aproveitou a deixa e quis saber se o Congresso estava também na mira do governante de plantão. Até estava, expliquei. Mas aí mudou o comando da Câmara e a paz foi selada com base em nomeações para postos-chave e controle sobre o orçamento.

O novo melhor amigo do presidente, contei, é um integrante do que, por aqui, chamamos de Centrão –um grupo de parlamentares de interesses amorfos que têm em comum a capacidade de detectar gotículas de sangue em água salgada.

Não era um termo novo.

Meu amigo se lembrou do dia em que um general amigo do capitão dançou ao som de uma paródia de Bezerra da Silva. A gente mesmo mal se lembrava disso.

Pois agora gritaram pega Centrão e o Centrão como resposta pega os braços, as pernas e as verbas para escolas fake, kits robótica comprados acima do valor de mercado, estradas mal feitas, obras que beneficiavam uma empresa desconhecida até outro dia e por aí vai.

Foi em uma viagem para o Brasil que esse amigo aprendeu a expressão toma-lá-dá-cá. Aprendeu também o conceito de ironia.

Meu amigo quis saber se aquele rapaz bom de marketing que saltou da prefeitura de São Paulo para o governo do estado terminaria o mandato dessa vez.

Contei que o rapaz já tinha deixado o posto. O rapaz bom de marketing quer agora ser presidente da República. Difícil foi explicar que ele trocou o governo do estado mais populoso do país para se arriscar em uma disputa na qual largava com 2% das intenções de voto.

E que ganhou o direito de perder a disputa após vencer as prévias de seu partido.

'Mas prévias internas costumam fortalecer uma candidatura assim, não?"

Não quando o candidato é do PSDB, partido em que o postulante derrotado sai por aí à luz do dia costurando apoio ao lado do maior desafeto interno do presidenciável oficial. Um ex-candidato a presidente que meteu o louco depois de perder a eleição e que acabou engolido pelos próprios monstros que ajudou a alimentar.

O gringo quis saber se era o mesmo ex-candidato a presidente que fez troça quando um adversário sofreu uma tentativa de assassinato em 2018.

Não, puxa. Isso foi em outra eleição. Pouca gente se lembra disso.

Mas ele se lembrava. Estava de férias no Brasil quando ainda repercutia a declaração de Geraldo Alckmin, então pré-candidato tucano, ao saber que o ônibus da caravana do pré-candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva havia sido baleado por um extremista.

“Acho que eles estão colhendo o que plantaram”, disse Alckmin ao comentar a ação.

Espantado, meu amigo apostou na ocasião que aquela declaração desastrosa seria o fim da linha para os planos eleitorais do ex-governador paulista. Até foi. Ele terminou com menos de 5% dos votos, mesmo tendo a mais ampla aliança entre os concorrentes.

Estou em dúvida se conto ou não que o autor da declaração é agora o candidato a vice do alvo daquele atentado. E que outro dia mesmo rasgou o figurino e soltou a voz ao anunciar que estava ao lado da maior liderança popular do país.

O Brasil definitivamente não é para iniciantes.

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