Entre o medo de pegar e a vontade de salvar: a vida em uma UTI na periferia de SP após a chegada do coronavírus

Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias

Por Gustavo Basso

Os avisos sonoros e de medições não param um segundo enquanto o médico Marcelo Leonil relata parte do seu cotidiano nos últimos dois meses. “Para nós que estamos todos os dias no tratamento intensivo, perder um paciente acaba se tornando normal; o duro é quando um paciente que parecia bem tem uma pior muito rápida e em cinco dias vem a óbito, isso sim deixa um trauma”. Leonil é um dos médicos plantonistas da UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) do hospital geral da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo.

Localizado no distrito de Cachoeirinha, o hospital é vizinho das regiões com maior número de mortes pela doença na capital paulista, Brasilândia e Casa Verde. A periferia continua concentrando a disseminação da doença, que chegou ao Brasil por meio dos bairros mais ricos do centro expandido de São Paulo. Segundo os dados oficiais mais atualizados, São Paulo perdeu, desde 16 de março, 2.405 habitantes por conta do novo coronavírus. No país inteiro, já são 12.404 mortes, 881 delas somente nas últimas 24 horas.

Uma dessas ocorreu muito próximo da técnica de enfermagem Rosimeire Barbosa, de 45 anos. “Estou aqui, mas minha melhor amiga está enterrando o pai, que morreu aos 68 anos no hospital de Pirituba”, lamenta Rosimeire. Sem perder o controle das telas dos respiradores eletrônicos que a cercam, ela conta como a amiga não exigiu a presença, apenas que a confortasse. “É muito triste essa situação, mas nós temos que manter a distância por segurança; até mesmo meu filho eu não abraço”, conta.

Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias

Rosimeire foi uma dos milhões de profissionais homenageados naterça-feira, 12 de maio, Dia Internacional do Enfermeiro. Foi também o dia em que o Brasil bateu o recorde de óbitos por Covid-19 em um único dia. Atualmente somente nos EUA morrem mais pessoas por infecção do Sars-CoV-2, nome oficial do novo coronavírus, que no Brasil. Uma realidade que assusta até mesmo profissionais que há décadas lidam com doenças terminais e a morte próxima.

“Nunca tive medo de bactéria, vírus, qualquer tipo de contaminação, mas pela primeira vez em 30 anos de profissão estou preocupa comigo, com minha mãe, minha família”, conta a enfermeira Scheila Bissoli, de 47 anos. Aos 17 ela começou a trabalhar em UTIs na Santa Casa, como atendentente de enfermagem, atividade que não existe mais. “Estamos diante de algo completamente diferente; pacientes que estão bem de repente ficam instáveis, alterando todos os parâmetros”, diz ela, apontando para as quatro pacientes presentes na sala, que haviam recém-removidos os tubos que os ligava ao respirador eletrônico.

Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias

Por meio do procedimento de intubação, pacientes com os pulmões prejudicados pela infecção do novo coronavírus são mantido vivos, com injeção de oxigênio a uma pressão maior que a normal, enquanto o organismo tenta combater o vírus. “Desde o começo temos feito muito mais intubações do que extubações, que é a remoção dos aparelhos das pessoas”, conta o médico Leonil. “Infelizmente muitos não sobrevivem”.

Leonil é um dos sobreviventes. Após ser contaminado com o Sars-CoV-2 em um dos hospitais onde trabalha, ficou 15 dias afastado de quarentena. Hoje trabalha menos receoso da contaminação, após exames que apontaram a ausência de infecção e a presença de anticorpos no sangue do médico de 33 anos. Segundo a secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Ribeiro, há atualmente 884 trabalhadores da área registrados no sistema como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), sendo 276 deles hospitalizados. A área do ministério deve começar em breve um levantamento dos profissionais de saúde contaminados e mortos em razão da Covid-19, e lançar um boletim epidemiológico com o detalhamento sobre a situação desses profissionais.

Os números ilustram uma realidade já conhecida pela enfermeira Evangela Lima, coordenadora de enfermagem da UTI do hospital. “Todos nós, profissionais de saúde, conhecemos alguém que ficou doente, e a grande maioria já perdeu alguém próximo - amigo, parente - pela doença”, comenta. “Acaba dando medo em todos nós, porque  vemos que a doença não está em alguém na rua, mas principalmente sobre trabalhadores que fizeram um juramento, e que acaba afastada por causa de um incidente ou descuido”. 

Apesar de todo o equipamento de proteção utilizado pelos profissionais, que além da sempre presente máscara, conta com macacão impermeável e máscara facial, incidentes ocorrem. Enquanto terminava de se paramentar, Francine de Oliveira teve de correr para auxiliar uma das pacientes que engasgava com a remoção do tubo que a ligava ao respirador. O resultado foi uma mordida involuntária na mão ainda sem luva, e minutos lavando os braços de modo incisivo para evitar a contaminação. Como fisioterapeuta de UTI, Francine é a principal responsável pela respiração artificial dos pacientes intubados.

Com a sedação aplicada para o cuidado com respiradores artificiais, todos os músculos dos pacientes permanecem inativos, incluindo o diafragma, substituído temporariamente pela máquina, que lança O2 puro e com pressão para manter o sangue oxigenado, algo vital para a manutenção da vida. Ela conta que cada paciente necessita uma configuração específica de respiração, mas que além disso, exerce um papel que vai além do cuidado físico.

“Precisamos sempre nos lembrar que aquela pessoa naquele leito, independente do que tenha feito, está sozinho, com muito tempo parado, refletindo, longe de casa e, sobretudo, com medo; por isso ‘acalentar’ faz parte do meu trabalho”, diz a profissional de 41 anos, 19 deles dentro de UTIs. Segundo ela, muitas destas com estruturas bem diferentes das encontradas no hospital onde hoje trabalha. “A equipe de enfermagem, na qual me incluo, é muito desvalorizada”, reclama. “Enquanto os médicos sempre tem uma área de descanso, eu já cheguei a trabalhar em hospital dormindo no chão em saco de dormir, imagina em dias frios?”, questiona.

Atualmente ela é responsável, a cada turno, por 11 pacientes em tratamento intensivo, em uma UTI com capacidade para 18 pessoas. Algo muito diferente de outros locais onde diz ter cuidado de 46 por turno. “Já houve vezes em que fiquei 24 horas sem comer; isso me ensinou a me cuidar mais e cuidar dos colegas ao meu redor”.

O hospital Vila Nova Cachoeirinha recebe todos os meses 18.000 pessoas no seu pronto-socorro. Com a pandemia decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e o aumento dos casos de doenças respiratórias, todas as consultas e cirurgias agendadas foram adiadas, e o que era o PS (pronto-socorro geral) passou a atender somente casos suspeitos da doença. “Quando o paciente já tem sintomas mais avançados, medimos a saturação e realizamos a tomografia”, explica o diretor do hospital, o cardiologista Seme Sarraf. Segundo ele, todos os dias 50 pessoas, em média, buscam socorro; dez delas não saem imediatamente, ficando internadas. Dessas, quase a totalidade foram contaminadas pelo novo coronavírus. “Buscamos sempre que eles recebam alta, mas sabemos que muitas vezes isso não ocorre, e a pessoa não sai mais viva do hospital”, lamenta.