Como gente grande: jogadores do sub-9 ganham milhares de seguidores em redes sociais e contam até com assessoria

Tatiana Furtado e Vitor Seta
·4 minuto de leitura

"Agora é para a gente mostrar o que estávamos treinando, correndo num sol desgraçado lá em Manguinhos. É para dar a vida, parceiro. Essa p... é Vasco”. As palavras que poderiam ter saído da boca de qualquer jogador profissional de futebol fazem parte do discurso de preleção de um menino de 10 anos de idade. O vídeo com as palavras motivacionais de Kauã Valente a seus colegas de cruz-maltino antes de uma partida viralizou nas redes sociais em 2017. De lá para cá, o fenômeno cresceu: cada vez mais os pequenos são cercados por estruturas muitas vezes de fazer inveja a algum jogador profissional de um clube menor. O que poderia ser uma brincadeira virou coisa séria.

Entre os jogadores de escolinhas de futebol, são raros os que não mantêm perfis em redes como Instagram e Facebook. Na maioria deles, predominam fotos e vídeos de partidas, compilados de gols e lances de brilho.

Gustavinho Salazar, atleta da categoria sub-9 do Flamengo, já tem mais de 13 mil seguidores no Instagram. Entre fotos de dias de jogos, treinamentos e exercícios, o perfil, controlado pelo pai Eric, também registra o dia a dia e programas em família do pequeno jogador, que se divide entre os campos e as quadras. Nos comentários, torcedores do clube mostram carinho pelo garoto. “Futuro capitão”, diz uma das mensagens.

Do alto de seus 8 anos, Gustavinho tem na mente um plano bastante comum à maioria dos jogadores.

— Quero fazer minha carreira pelo Flamengo até os 20, 21 anos. Depois ir para a Europa, jogar pelo Real Madrid, Juventus, Barcelona, esses times, e ser um dos melhores do mundo — diz ele, em contato feito através de sua assessoria de imprensa.

O pai diz que tenta evitar que qualquer tipo de pressão ou perigo vindos da internet cheguem ao filho.

— Eu bloqueio isso dele. Não deixo ele mexer. Ele visualiza, mas não deixo comentar, sempre fico de olho na internet antes dele — explica Eric.

Além do perfil, Gustavinho conta com um um site próprio e um acompanhamento completo para sua carreira. Tem assessoria de comunicação, acompanhamento regular de nutricionistas, além de contar com regime semanal de preparação física. O pai, que teve de se ausentar da empresa que comanda para dedicar seu tempo à carreira de Gustavinho, também contrata responsáveis por captar e editar imagens do filho nas partidas. Segundo Eric, os investimentos na carreira do garoto, contando as equipes, as consultas e os custos diários, totalizam entre R$2 mil e 2,5 mil mensais:

— Quando seu filho está no colégio, você compra o melhor material, tudo de melhor para ele se dar bem na vida. Por que quando é jogador de futebol você não poderia dar o melhor?

Especialistas alertam para exposição

O fenômeno das redes sociais entre crianças e adolescentes não é exclusivo do futebol, diz o especialista em gestão esportiva da FGV, Pedro Trengrouse. A super exposição em mídias diversas e produção de conteúdo constante não são garantia, segundo ele, de um retorno positivo numa carreira futura.

— Nessa fase da vida não pode ter essa preocupação. Acho temerário comprometer a infância dessas crianças com esse objetivo de uma profissionalização precoce e de se tornar uma celebridade. O mundo das redes alimenta o nascimento de pseudocelebridades, que podem ganhar seguidores fazendo qualquer coisa, não só jogando bola. Os pais não devem impor seus sonhos aos filhos, eles têm de sonhar os próprios sonhos — diz.

O pediatra do esporte Marcelo Riccio, do Laboratório de Performance Humana da Casa de Saúde São José, trabalha com crianças e adolescentes de idades diversas que procuram melhorar o rendimento. Ele não vê problema nas competições, desde que haja fair play e não seja adotado o modelo profissional. Mas as etapas do crescimento não devem ser puladas, pelo risco de aumento de lesões e até abandono da prática esportiva:

— Existem fases e estímulos adequados para cada uma delas. Entre 7 e 10 anos, tem de ser um modelo pouco estruturado, com pouca participação do adulto. Podem ter competições e treinos, mas o caráter da brincadeira, do lúdico, tem de ser o principal. Mas vemos casos de crianças já fazendo preleção, pais brigando em jogo de futsal, e o excesso de exposição nas redes sociais como propaganda. Isso tudo retira o componente da diversão e a tendência é abandonar o esporte. Nos EUA, 70% das crianças largam a atividade aos 13 anos.

Os pais garantem que os filhos mantêm o envolvimento lúdico com o esporte. Outras atividades, como skate, judô e vídeo game, fazem parte da rotina dos pequenos.

— Terminou o jogo e perdeu, ele demora uns minutinhos para voltar a brincar. Se ganhou, ele já sai brincando. Quando termina o futebol, a gente leva ele para comer um lanche, se distrair— diz o empresário José Luiz Correa, pai de Luiz Miguel, do sub-9 do Vasco, outro fenômeno nas redes sociais, com mais de 13 mil seguidores. O menino de 8 anos também conta com assessoria e preparação física, e o pai investe pouco mais de mil reais por mês na carreira, em média.

— Tem vídeo dele com um ano fazendo embaixadinha. Quando criei o Instagram, a galera foi compartilhando. Virou aquela bola de neve e pensei: “tem que ter uma assessoria de imprensa”.

— Muitos dizem que é o sonho do pai, mas não é. É o sonho da criança — garante Eric.