Como investir reserva de emergência de forma segura? Crise da Americanas e reflexo no Nubank levam investidores a discutir poupança

No fim de semana passado, enquanto se desenrolavam os primeiros capítulos da crise da Americanas — que, na quarta-feira anterior (dia 11), revelou um rombo de R$ 20 bilhões em seus balanços contábeis, o que levou o endividamento da empresa a passar dos R$ 40 bilhões —, investidores de um fundo do Nubank viram o caos da varejista respingar em suas reservas. Quem tinha aplicações no chamado "Nu Reserva Imediata", maior fundo de renda fixa do país, percebeu que os valores começaram a render negativamente. Ou seja, essas pessoas passaram a perder dinheiro.

Nas redes sociais, as reclamações de cotistas se multiplicaram, com relatos de que tirariam suas reservas do banco, seja por medo ou por já terem tido prejuízo. Muitos eram pequenos investidores, que usavam o fundo como forma de aplicar suas reservas de emergência.

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Para essas pessoas, ficam as perguntas: é possível poupar valores para serem usados em caso de imprevistos e aplicá-los de forma segura? De que forma? Que lições o investimento do Nubank em ações da Americanas ensina aos pequenos investidores?

O fundo do Nubank se diz indicado a quem quer construir uma reserva de emergência e "não abre mão de um retorno melhor do que o da poupança". O investimento, com aplicação inicial de um real, é feito em fundo DI, composto por títulos de renda fixa atrelados a Certificado de Depósito Interbancário (CDI), índice de referência para fundos de baixíssimo risco.

Para dar conta da proposta de uma rentabilidade maior do que a do CDI — o investimento vinha apresentando um ganho equivalente a 109% do índice —, porém, o fundo aplicava mais de 20% da carteira em títulos privados, ou seja, em títulos de dívida emitidos por empresas e negociados no mercado.

Entre os papéis, 1% do patrimônio do fundo, segundo a coluna "Capital", do jornal O Globo, estava aplicado em duas debêntures da Americanas. Parece pouco, mas com o tombo de 77% das ações da varejista após a revelação do rombo, o fundo foi atingido.

— O fundo estava entregando um retorno acima do CDI, então estava com mais risco. Se você está investindo num fundo com retorno desse tipo, no longo prazo, para ele ser sustentável, provavelmente está com um risco embutido — diz Gustavo Moreira, coordenador do MBA de Finanças do Ibmec-RJ.

Em nota, o Nubank informou que já reviu a parcela de investimento em títulos de dívida da varejista.

Para Graziela Fortunato, especialista em finanças pessoais e professora da Escola de Negócios da PUC-Rio (IAG), o efeito do tombo da Americanas no fundo do Nubank foi "um azar muito grande". Ela explica que o prazo de recebimento de uma aplicação, a chamada liquidez, é inversamente proporcional à rentabilidade, ou seja, o percentual de retorno do investimento realizado.

— A reserva tem que estar disponível para urgência, e normalmente não é muito remunerada, porque o mercado não oferece investimento de curto prazo com rentabilidade alta — explica.

GustavoMoreira, do Ibmec-RJ, explica que a reserva de emergência é um montante guardado para que as famílias enfrentem com mais tranquilidade e conforto situações imprevistas, que fogem do controle do orçamento.

— Ela pode ser usada para problemas de saúde, consertos emergenciais na casa ou no carro, e eventualmente uma perda de emprego. Eventos não planejados, mas que a gente sabe que acontecem — diz.

Ele calcula que o ideal é chegar a uma poupança que dê conta de cerca de seis meses a um ano do gasto mensal da família.

Mas, com o custo de vida mais caro, o que torna mais difícil dar conta que precisam ser pagas, montar uma poupança para imprevistos pode parecer uma tarefa quase impossível. O primeiro passo, diz o economista, é quitar as dívidas em aberto e recalibrar o orçamento para que os gastos sejam menores do que as despesas.

— O que sobrar, é reservado. A reserva é construída a partir de pequenos hábitos, e as famílias devem vê-la como algo sagrado, uma prioridade — diz.

Ele ainda exemplifica:

— Comprar sempre à vista vai fazer com que o orçamento tenha mais espaço para a formação da reserva, assim como investir na capacitação, o que ajuda na ampliação da renda.

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O professor do Ibmec-RJ explica ainda que o ideal é que a reserva de emergência seja aplicada em investimentos de baixo risco, como títulos pós-fixados. Nesses papéis, o investidor não sabe previamente o valor que vai resgatar, mas qual indicador será usado de referência para a aplicação.

— Se você investe num fundo com título privado, as debêntures, você corre risco corporativo. Se a empresa não honrar com pagamentos, como está acontecendo com as Americanas, o preço do título cai, e a rentabilidade cai junto — pontua ele: — Já títulos pós-fixados não privados, como títulos do governo, atrelados à taxa Selic ou ao CDI, são mais seguros.

Algumas opções são papéis do próprio Tesouro Direto e Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).

Graziela, do IAG, lembra que outra opção são os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principalmente de grandes bancos, com menos risco. Os CDBs são títulos emitidos pelas instituições financeiras. Na prática, quem compra "empresta" dinheiro aos bancos e recebe a remuneração, atrelada ao CDI.

A professora lembra que para ter uma boa rentabilidade, o investidor precisa abrir mão da liquidez. Quem pensa em formar uma reserva de emergência, portanto, deve priorizar aquela aplicação que possa ser sacada em qualquer dia sem prejuízo:

— Precisando de liquidez diária, tem que deixar a rentabilidade mais alta. E vice-versa — afirma.

Taxa Selic: É a taxa básica de juros do país, definida pelo Banco Central. O índice, atualmente em 13,75% ao ano, é usado como referência tanto para os empréstimos quanto para as aplicações financeiras.

Fundos de investimento: Funcionam como uma espécie de "condomínio", em que cada investidor se torna um cotista e um gestor coordena as aplicações feitas com os recursos. Os ganhos e as perdas são divididos entre os cotistas, de acordo com a parcela de investimentos de cada um.

Renda fixa: A renda fixa é um tipo de investimento em que se "empresta" dinheiro para alguma instituição de maneira previsível, ou seja, no momento da aplicação todos os fatores do investimento são de conhecimento prévio, como o tempo em que o dinheiro ficará aplicado e os juros usados como referência, como o CDI, a Selic ou a inflação. Nesses tipos de ações, o investidor se torna credor da empresa, governo ou banco que emite os títulos. Entre os tipos de investimento em renda fixa estão os CDBs, as debêntures e os títulos públicos.

CDB: Os Certificados de Depósito Bancário são títulos emitidos pelas instituições financeiras. Na prática, quem compra as aplicações "empresta" dinheiro para os bancos e, em troca, recebe a remuneração, atrelada ao CDI.

Debêntures: Debêntures são títulos privados. Ao comprá-las, na prática, o investidor "empresta" dinheiro para uma empresa durante um período e, em troca, recebe a remuneração. A rentabilidade varia de acordo com o preço de mercado da companhia.

Títulos públicos: São títulos emitidos pelo governo federal, que possuem a finalidade de captar recursos para o financiamento da dívida pública e financiar atividades da educação, saúde e infra-estrutura.

Tesouro Direto: Tesouro Direto é um programa do governo federal, desenvolvido pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3, a Bolsa de Valores brasileira. O objetivo é facilitar o acesso de pessoas físicas a investimentos públicos pela internet. Um dos exemplos são os títulos do Tesouro Selic, pós-fixados que têm rentabilidade atrelada à taxa básica de juros.