Como José Clayton saiu do Maranhão e virou lenda na Tunísia

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José Clayton comemora gol nas Eliminatórias da Copa de 2006 (Foto: FETHI BELAID/AFP/Getty Images)
José Clayton comemora gol nas Eliminatórias da Copa de 2006 (Foto: FETHI BELAID/AFP/Getty Images)

José Clayton Menezes Ribeiro (São Luiz, 1974) já tinha 20 anos. Ele sabia que o futebol maranhense não lhe ofereceria tantas oportunidades para que consolidasse sua carreira como profissional. Jogava no Moto Club, equipe da capital do Maranhão, que até não estava mal: participou da Série B do Campeonato Brasileiro daquele ano. Mas a possibilidade de ir para o exterior estava sempre na cabeça dos jovens que surgiam nos campos do estado.

“Todo mundo sonhava em sair lá do Maranhão, aquele negócio todo, ir para a Europa”, relembra hoje José Clayton do outro lado do telefone, em Túnis. Sim, aquele jovem de 20 anos mal poderia imaginar, mas se tornaria uma lenda do futebol tunisiano alguns anos depois. Conseguiria a nacionalidade do país e passaria a ter a Tunísia como sua casa. “Se não fosse a minha família, acho que eu ficava aqui direto. Minha mãe tem pavor de avião, meu pai também. Mas aqui é bom demais, rapaz. Vem por aqui, que aqui tu vai gostar, viu?”, diz Clayton descontraidamente.

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Mas como isso tudo começou? Como um garoto de São Luís virou lenda na Tunísia? “Tinha um médico lá, que Deus o tenha em um bom lugar, que me ajudou muito”, começa o ex-lateral esquerdo da seleção tunisiana. “Se chamava, Cassas de Lima. Ele tinha sido médico do Moto e gostava de mim para burro. Aí naquela época tinha esse negócio, , de ir para a Bélgica, muito maranhense ia para a Bélgica”. Clayton lhe confessou que sonhava em ter uma oportunidade no exterior, e Cassas resolveu ajudar o garoto comprando a sua passagem para o Velho Continente. “Aí um empresário me levou”, diz Clayton quase gargalhando. “Que se dizia empresário...”, continua relembrando aquela aventura de quase 30 anos atrás. “Aí lá vai eu para a Bélgica. Eu e mais sete. Éramos oito no avião”.

Saíram de São Luís em setembro de 1994 com destino a Bruxelas. Não iam para um clube específico na capital belga. Foram literalmente tentar a sorte. “Fomos para fazer teste”, recorda. Rapidamente ficou claro que a situação não era tão simples como tinham imaginado, ou talvez nem tivessem pensado tanto assim, simplesmente foram. “Eu estava num hotelzinho lá, aí uma semana depois, o médico que viajou com a gente chega para mim e para um outro amigo meu e fala: ‘Vocês dois têm que voltar, não tem time’. Aí eu falo: ‘Como é que é rapaz?’. Acho que era porque nós dois éramos maiores de idade e os outros tinham tudo 16, 15 anos”, reflete hoje Clayton, que acabou ficando de mãos atadas com seu companheiro Carlos Ferro, que tinha viajado com ele.

“Aí naquele tempo a passagem não era como hoje, eletrônica. Se tu perdesse a passagem, perdeu. Não tem mais como recuperar. Aí o Carlos Ferro pegou as passagens e rasgou tudo. ‘Não vamos voltar p*** nenhuma’.” Clayton não consegue conter o riso. “Eu falei: ‘Rapaz, tu é doido como é que eu vou ficar aqui agora?’ Aí a gente ficou perambulando lá, tinha uns brasileiros que ajudavam a gente. Um ajudava daqui, outro ajudava dali”. A dupla estava à mercê do destino.

Alguns dias depois, aparece uma luz no fim do túnel. Ferro soube que um conhecido seu estava em Bruxelas e poderia os ajudar. “Pode botar aí na entrevista, o apelido dele é Tatu. Ele é conhecido lá em São Luís como Tatu. Naquele tempo não tinha celular, aí tinha que ligar com o telefone público, com os cartõezinhos. A gente soube que esse Tatu estava morando num outro apartamento. Aí o Ferro ligou para o Tatu. ‘Aqui quem tá falando é o Ferro’. ‘Ferro?’, aí o Tatu desligou o telefone na cara. Aí eu falei: ‘, tu conhece o cara, o cara vai desligar na tua cara?’ Aí o Ferro falou: ‘Não rapaz, acho que ele me conhece como Cacá, é por isso’. Aí ligou de novo: ‘Aqui é o Cacá que tá falando’. Aí ele falou: ‘Rapaz, e aí como é que tá?’, aí a conversa ficou boa”, recorda Clayton. “Ele foi importante demais porque emprestou o apartamento dele. Ele falou: ‘Rapaz, já que não tem passagem para voltar, tem uma casa para morar’. A gente ficou no apartamento, ele ajudou muito a gente”.

Clayton e Ferro estavam no apartamento do Tatu há três meses, as festas de fim de ano se aproximavam. E nada. Nenhum indício de que iriam encontrar um clube na Bélgica. “Aí foi quando eu recebi uma ligação do Santos, Dutra dos Santos, é um treinador carioca, que treinou muitos clubes lá no Maranhão. Ele estava aqui na Tunísia e soube que eu estava lá. Ele me conhecia porque tinha me treinado lá no Moto”, explica. “Eu cheguei aqui no último dia da janela. Foi coisa de Deus mesmo”. No dia 31 de dezembro de 1994, José Clayton aterrizava na Tunísia. E não para jogar num time qualquer. Chegou para jogar num dos maiores clubes do país, o Étoile du Sahel. “Já cheguei num grande clube. O Dutra dos Santos era o técnico do Étoile. Ele soube que eu estava lá na Bélgica sem clube e eles estavam precisando de um jogador do lado esquerdo. Aí caiu como uma luva”.

E, de repente, um garoto que tinha passado a vida inteira no Maranhão se encontrava no norte da África, num país árabe, muçulmano, uma realidade totalmente diferente de tudo o que tinha visto. “Eu não conhecia nada. Quando liguei lá para casa e disse que estava na África, minha mãe falou assim: ‘Meu filho, está fazendo o que aí?’. Ela pensou que fosse todo mundo pobre, na maior dificuldade. Mas é bem diferente. Aqui é colado na Europa. Eu me adaptei muito bem. A gente estava numa cidade que se chama Sousse, na beira da praia, aí ficou tudo bem”, lembra. “Também facilitou muito que o treinador era brasileiro”.

Com a camisa do Étoile, Clayton brilhou. Ganhou o campeonato tunisiano, a copa da Tunísia e a Copa de Confederações da CAF, um torneio continental que seria o equivalente à Copa Sul-americana. Todo esse destaque chamou a atenção de Henry Kasperczak, treinador da seleção tunisiana. Nos meses prévios à Copa do Mundo de 1998, ele abordou Clayton, perguntando se o brasileiro tinha interesse em defender a seleção. “A gente estava com um problema do lado esquerdo. O esquema dele era o 3-5-2 e utilizava muito o lado do campo, dava muita liberdade para os laterais, e como eu tinha qualidade para cruzar, batia bem na bola, ele me ligou”, recorda Clayton, que agilizou os documentos da naturalização rapidamente. “Ele me ligou mais ou menos no final de março, em maio eu peguei a nacionalidade e em junho eu estava jogando. Foi muito difícil porque você sentia, sabe como é né... ‘Esse cara está chegando e pegando uma vaga’. Aquele esforço todo para se classificar, e eu chego só para jogar”. O brasileiro seria o primeiro estrangeiro a defender as cores da Tunísia, que não conseguiu avançar num grupo complicado, com Inglaterra, Colômbia e Romênia. Ele ainda jogaria a Copa de 2002 e as Olimpíadas de 2004.

Após a Copa de 98, Kasperczak assumiu o comando do CA Bastia, time da primeira divisão francesa. “O Bastia estava querendo o nosso treinador. Aí ele me falou: ‘Clayton, estou indo, estamos precisando de uma pessoa que jogue do lado esquerdo. Se você quiser, vamos’.” Clayton ficou na França por três anos. Depois voltou para a Tunísia, dessa vez para o maior time do país, o gigante Ésperance Tunis. Lá brilhou mais ainda: foi tricampeão tunisiano. Em 2002, o treinador francês Roger Lemerre que vinha de ser campeão da Eurocopa com a França em 2000, assumiu o comando da seleção da Tunísia. A proposta era atrativa: o país sediaria a CAN em 2004. “Aí ele chamou um por um o pessoal que já vinha sendo convocado. Chegou para mim e falou: ‘Clayton, vamos nesse projeto juntos?’. Eu falei: ‘Estou preparado’. Aí ele falou: ‘Então vamos ter que trabalhar bem esses dois anos no clube que a gente vai ter que ganhar essa copa’. A gente realmente começou a trabalhar, todo mundo unido, ele convocava quase sempre as mesmas pessoas, porque o time estava andando, . Aí deu no que deu. Não tinha ciumeira, aqueles grupinhos, era todo mundo unido, todo mundo sorria”. Naquela competição, não era apenas um brasileiro que defendia a Tunísia, apareceu outro: Francileudo dos Santos, também maranhense, nascido em Zé Doca. “A gente nunca tinha se falado, se cruzou por aqui”. Coisas do futebol.

A campanha da seleção no torneio foi irreprochável. Chegaram à final, no dia 14 de fevereiro, contra o Marrocos. No estádio 7 de Novembro, em Radès, mais de 60 mil pessoas enchiam as arquibancadas. A bola rolou. Aos cinco minutos, Francileudo dos Santos abriu o placar para os tunisianos. Aos 38, Youssef Mokhtari empatou para os marroquinos. Aos sete do segundo tempo, Clayton arrancou pela esquerda, tabelou com Francileudo e chutou forte, cruzado; o goleiro Khalid Fouhami não segurou e deu rebote; Ziad Jaziri apenas colocou para dentro. Era o gol do título da Tunísia. O primeiro e único título continental da seleção até hoje. Por dias, o país ficou em festa. “Rapaz foi maravilhoso, doido. Muito bom. Até hoje as pessoas me agradecem muito porque foi uma coisa enorme”. A nação inteira festejava, de norte, às beiras do Mar Mediterrâneo, ao sul, às portas do Deserto do Saara. Alguns dos grandes responsáveis por tanta alegria eram dois jogadores que tinham nascido bem longe. Lá no Maranhão. “São emoções que só o futebol traz. O futebol é especial”.

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