Como no Capitólio, tese de supostos “infiltrados” ganha força nas redes após caos em Brasília

Forças de segurança fora do Palácio do Planalto Palace após invasão de prédios dos Três Poderes

Por Débora Ely

PORTO ALEGRE, 14 Jan (Reuters) - Já nas primeiras horas após as invasões das sedes dos Três Poderes, em Brasília, a teoria de que supostos “infiltrados” de esquerda promoveram o vandalismo ganhou força entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Alimentado com o uso de desinformação, o discurso repete a estratégia de aliados do ex-presidente dos EUA Donald Trump após a insurreição do Capitólio, em Washington, há dois anos.

Nos EUA, a tese era de que integrantes dos movimentos Antifa e Black Lives Matter eram os responsáveis pelo ataque. Diversas acusações deste tipo foram desmentidas pela imprensa, e investigações policiais não encontraram evidências de que a insurreição tenha sido provocada por “infiltrados”.

No Brasil, até o momento, não há nenhuma informação oficial sobre o envolvimento de “infiltrados” nos atos de vandalismo, ocorridos quando bolsonaristas que questionam a vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomaram a capital federal, insuflados pela crença de que houve fraude nas urnas –-apesar de não haver qualquer prova de que isso ocorreu.

Iniciativas de checagem, como a Reuters Fact Check, desmentiram ao menos nove alegações falsas que atribuíram os ataques em Brasília a militantes de esquerda. Já a Polícia Federal disse que não se manifesta sobre inquéritos em andamento, e a Polícia Civil do Distrito Federal não comentou.

O PAPEL DE POLÍTICOS

Nos EUA, por exemplo, os parlamentares republicanos Matt Gaetz e Ron Johnson estimularam a tese de que havia infiltrados do Antifa ou vândalos disfarçados de apoiadores de Trump na invasão do Capitólio. No Brasil, alguns políticos que apoiam Bolsonaro e o próprio advogado do ex-presidente adotaram retórica similar.

Após a Procuradoria-Geral da República (PGR) pedir que Bolsonaro seja investigado por incentivar os atos antidemocráticos em Brasília, o advogado Frederick Wassef divulgou nota na qual disse que o ex-presidente "repudia veementemente os atos de vandalismo e depredação do patrimônio público cometidos pelos infiltrados na manifestação".

O deputado federal eleito Gustavo Gayer (PL-GO) publicou um vídeo de um homem com uma bandeira do PT em meio ao quebra-quebra para afirmar que “a esquerda mais uma vez se infiltrou no meio dos patriotas para fazer o caos”. A bandeira foi furtada de uma sala do partido no Congresso, mostrou o Estadão Verifica, divisão de checagem do jornal O Estado de S. Paulo.

O deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) publicou no Facebook e no Twitter que petistas infiltrados teriam promovido a depredação em Brasília. Já o deputado estadual paranaense Ricardo Arruda (PSL), afirmou, em vídeo, que os atos de vandalismo foram uma “armadilha muito bem orquestrada por manifestantes infiltrados” e que “a esquerda” criou “este teatro da destruição”.

À Reuters, Jordy disse que há "inúmeros vídeos" que demonstram infiltrados praticando atos de vandalismo e que outros manifestantes não infiltrados foram insuflados por eles. “Se há alguma dúvida em relação aos vídeos, isso deve ser apurado”, afirmou. Gayer e Arruda não responderam os pedidos de comentário.

SEMELHANÇAS

Segundo o coordenador do Observatório da Extrema Direita e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Guilherme Casarões, a semelhança entre as táticas evidencia que a extrema-direita está “profundamente internacionalizada”, e reforça sinais de que o radicalismo brasileiro pode estar sendo pavimentado com a ajuda de ideólogos dos EUA.

O ex-estrategista de Trump Steve Bannon, por exemplo, usou a rede Gettr na segunda-feira para atacar o sistema eleitoral brasileiro. Bannon é próximo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente.

“Não é uma coincidência vermos o mesmo tipo de narrativa proliferando aqui e lá. Faz parte de uma estratégia deliberada e construída entre esses dois movimentos políticos”, disse Casarões. “É uma grande teoria de que todo o sistema está envolvido em desqualificar as manifestações ‘genuinamente’ patrióticas.”

A coordenadora do Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Raquel Recuero, concorda que a desinformação sobre “infiltrados” nas manifestações dialoga com o caráter antissistema da extrema-direita.

“Esses grupos foram sendo alimentados com teorias conspiratórias e narrativas alternativas, e, em paralelo, com o discurso de desconfiança nas instituições e na imprensa. Isso vai radicalizando as pessoas e, agora, elas estão mais ‘preparadas’ para aceitar aquelas ideias que apenas reforçam o seu ponto de vista”, disse ela, que também é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Recuero aponta que políticos têm um papel central na legitimação deste tipo de discurso.

"Pela posição que ocupam, essas pessoas têm autoridade. Logo, é um parlamentar falando, não um 'um qualquer'. Isso imbui aquilo que elas dizem de credibilidade", disse.

DESINFORMAÇÃO

Entre as alegações falsas sobre participação de "infiltrados" que foram desmentidas pelas iniciativas de checagem, como a Reuters Fact Check, está uma que dizia que um homem em uma foto com Lula era um “infiltrado”, mas a imagem havia sido feita em Araraquara (SP) no momento em que os prédios eram invadidos, a cerca de 800 quilômetros da capital federal.

Houve até mesmo a disseminação de imagens antigas de presos de El Salvador, na América Central, sendo atribuídas a petistas que “fizeram a desordem em Brasília”.

(Reportagem adicional de Victor Pinheiro, em São Paulo)