Como nosso cérebro prejudica nossas decisões financeiras

Todos nós já tomamos decisões erradas no que diz respeito a dinheiro. E não é porque algumas opções de investimento são incrivelmente difíceis de entender, mas sim porque nossos cérebros são programados para priorizar ganhos de curto prazo em vez de benefícios a longo prazo.

“A teoria econômica tradicional sugere que os investidores tomam decisões racionais, analisando cuidadosamente todas as informações disponíveis para fazer escolhas que levem ao melhor resultado possível,” conforme explica um relatório da Legg Mason sobre finanças comportamentais.

Anos de pesquisas econômicas comportamentais mostraram o quanto este pensamento está equivocado. Confira a seguir algumas maneiras através das quais nosso cérebro influencia nossas decisões financeiras, além de algumas dicas para evitar estas armadilhas cognitivas.

Nós procrastinamos.

Um dos fatores psicológicos mais significativos que impedem as pessoas de atingirem seus objetivos de poupança e aposentadoria é a inércia. Há várias formas por meio das quais isso se manifesta. Pode ser algo tão simples quanto manter o plano de TV a cabo que custa R$ 200 por mês mesmo que um concorrente ofereça algo muito similar por R$ 150.

O plano de aposentadoria patrocinado pelo empregador é outro exemplo: Estudos têm mostrado que mesmo recebendo a oportunidade de optar pelo tipo de plano em que o empregador iguala o valor economizado mensalmente pelo funcionário (até um limite definido), os colaboradores tendem a ser passivos. A procrastinação rouba a cena; é muito mais fácil imaginar que faremos a coisa certa no futuro enquanto não fazemos nada no presente. O número de funcionários que afirma pretender optar por este plano é muito maior do que o total de pessoas que realmente o faz.

É por isso que cada vez mais organizações vêm obtendo sucesso com o registro automático: em uma empresa que adotou este método (quando os funcionários se tornam elegíveis ao plano eles são inscritos automaticamente, a não ser que optem por não tê-lo), as taxas de participação para novos colaboradores aumentaram de 49% para 86%. (Mas também há um ponto negativo no registro automático. Um relatório de 2013 do Center for Retirement Research de Boston College, nos Estados Unidos, mostrou que se os funcionários começam automaticamente a contribuir com um valor padrão baixo eles raramente agem para aumentar suas taxas ao longo do tempo, e podem não chegar a um valor total que garanta uma aposentadoria segura.)

Como você pode superar esta tendência de não fazer nada? Automatize a maior quantidade possível de aspectos relacionados às suas finanças. Programe pagamentos automáticos de contas recorrentes, invista em um plano de aposentadoria patrocinado pelo seu empregador se tiver esta opção, e confira se existe uma alternativa de aumento automático da contribuição com o passar do tempo. Outra forma de se motivar é imaginar a sua vida em 20 ou 30 anos. Um estudo feito por dois pesquisadores descobriu que pessoas que veem imagens vívidas de suas versões mais velhas no futuro — em que elas aparentem ter 68 ou 70 anos — têm uma chance maior de tomar decisões que favoreçam benefícios a longo prazo.

Nós detestamos perder.

A aversão à perda é a tendência a evitar aceitar a realidade de perder dinheiro. Explicando de forma simples, você não é capaz de admitir que cometeu um erro — e isso é algo que deve soar familiar para investidores que se mantêm presos a ações perdedoras.

“Psicologicamente falando, a dor de perder U$ 100 é aproximadamente o dobro do prazer de ganhar a mesma quantia,” Shlomo Benartzi, economista comportamental da Anderson School of Management da UCLA, na Califórnia, escreveu em um relatório para a Allianz Global Investors (Benartzi também é chefe de economia comportamental na Allianz). Nós iremos poupá-lo dos detalhes sobre as razões evolutivas pelas quais os humanos têm uma aversão à perda, mas é suficiente dizer que este traço nos custa caro.

Vender uma ação perdedora é doloroso, então muitos investidores evitam uma perda de curto prazo, muitas vezes sacrificando objetivos de longo prazo. Ao mesmo tempo, estas mesmas pessoas costumam vender ações ganhadoras cedo demais para realizarem o ganho — e quem não gosta disso? O erro é olhar para os investimentos como pedaços separados e não como um todo.

É possível superar este viés?  Richard Thaler, economista comportamental da  Booth School of Business da Universidade de Chicago e autor do livro “Nudge,” sugere que aqueles que economizam para a aposentadoria — especialmente aqueles que têm um horizonte de longo prazo — devem investir em um portfólio globalmente diversificado de ações, “e depois evitar com todas as forças ler notícias e artigos financeiros ou, pior ainda, assistir a canais de notícias sobre finanças. Prestar atenção no portfólio dia após dia é prejudicial para o bem-estar financeiro e emocional do investidor.”

Nós não conseguimos ir embora.

Já aconteceu com todos nós: Você gasta dinheiro em algo e, por alguma razão, acaba não usando o que comprou. No entanto, você não quer abandonar sua compra, já que investiu dinheiro nela. Pode ser continuar assistindo a um filme que você está odiando no cinema ou continuar pagando as prestações de um carro que não tem mais condições de manter. Pode ser até dirigir 30 quilômetros até uma loja procurando um par específico de calças jeans e sair de lá com alguma outra coisa porque os jeans não estavam em estoque — já que você investiu tempo e o dinheiro da gasolina para ir até aquele local.

Em termos econômicos, um custo irrecuperável é uma despesa que não pode ser recuperada. Esta noção da necessidade de “fazer valer o dinheiro gasto” surge em diversas decisões financeiras. As empresas também o fazem: Elas continuam com um projeto em que investiram muito dinheiro, esforço e tempo, mesmo quando percebem que esta não é a melhor decisão a tomar. A melhor maneira de lidar com um custo irrecuperável é aceitá-lo e seguir em frente.

Por isso, se você estiver em um cenário envolvendo um custo irrecuperável, lembre-se de que o fato de você já ter gasto uma certa quantia de dinheiro em algo não significa que você deva continuar a fazê-lo.

Lisa Scherzer